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quarta-feira, 25 de março de 2026

Mão Negra


 Mão Negra



 
Olá, tudo bem? Sou o investigador da policia civil e me chamo João Antônio, mais conhecido como J.A, dentro e fora do departamento policial. Já atuo na área há mais ou menos vinte anos e a oito venho tentando capturar o maior e mais escorregadio ladrão de todos os tempos, Manuel Clemente, o famoso Mão Negra. Pois é, esse sujeito vem tirando meu sono e por causa dele o meu casamento foi a ruína. Espera aí! Não foi só culpa dele, mas digamos que Mão Negra contribuiu bastante para que o meu relacionamento fosse a falência, mas isso é uma outra história.
Manuel Clemente não é um ladrão de beira de estrada ou batedor de carteiras. Lógico que não. Mão Negra é profissional, é perigoso e sabe muito bem o que quer. Quando ele deixava o seu esconderijo para mergulhar em suas ações ele jamais voltava com trocadinhos ou relógios e joias. Claro que não. Clemente é ladrão, e dos bons. Você deve estar se perguntando; será que, em oito anos eu não tive a chance de colocá-lo na cadeia? E eu digo que sim. Claro que tive, mas como eu falei no início, Mão Negra é escorregadio demais, seu serviço é limpo e quando se via encurralado, ele atirava para matar.
Certa ocasião ele conseguiu fugir da cena do crime com todo o dinheiro que um certo político milionário tinha guardado no cofre dentro de sua residência. Mão Negra saiu pela porta da frente, sem ser incomodado, sem dar um tiro sequer. O tal político perdeu toda a grana da verba que ele desviava dos hospitais.
Oito anos correndo atrás do rato e o rato sempre se safando, sempre se desvencilhando da ratoeira. As vezes eu recebia ligações do meu chefe no meio da noite me dando ordens para ir até o local onde o malandro havia estado. Minha mulher nunca entendeu muito bem isso. Por mais que eu dissesse que tudo isso era parte do meu trabalho, ela nunca se esforçou para entender. Numa madrugada dessas o delegado Celso Amorim me ligou e aos gritos me informou que Manuel havia entrado no apartamento de um playboy e saiu de lá com cinquenta mil reais, fora os mil dólares que encontrou num pote de biscoito na cozinha. Eu me lembro que não fui direto para o endereço. Rodei os quarteirões ao redor e quase o prendi. Trocamos tiros no meio da rua e o persegui a pé, mas, como ando fora de forma, Mão Negra desapareceu levando toda a grana. Foi a pior noite da minha vida.
Mas graças a Deus tudo isso passou e eu consegui por as mãos no Mão Negra e estou aqui para lhes contar. Fácil não foi, mas é como eu sempre digo: nada dura para sempre. Tanto o bem como o mal, um dia acabarão. Então vamos nessa.

Capítulo 1

Foi numa madrugada de sábado para domingo. Marlene e eu havíamos tido uma baita discussão sobre o fato de eu não lhe dar mais atenção devida. Ela foi a primeira a ir para cama e eu, como sempre, fiquei sentado na varando fumando e bebendo meu Bourbon pensando na vida. Pensando no Mão Negra para ser mais exato. Eu estava chateado demais, pensei em acender outro cigarro ou até mesmo pegar o carro e dar uma volta, respirar um pouco de ar fresco, mas eu não fiz isso. Apaguei o que restará do cigarro na sola do meu Havaianas e entrei. Marlene fingia dormir. Sentei-me na ponta da cama e comecei a acariciá-la por debaixo do cobertor. A princípio houve uma certa resistência, mas aos poucos ela foi cedendo.
— Vamos nos entender? – perguntei eu.
— Venha logo.
A alegria com minha mulher durou só vinte minutos. Fizemos amor como nos velhos tempos de namoro. Marlene estava sensacional naquela noite. Depois do banho eu já tinha relaxado na cama e o sono começava a dar as caras quando meu chefe me ligou. Marlene não disse nada, apenas murmurou baixinho, (me xingando provavelmente).
— J.A falando. – atendi.
— O ladrão atacou novamente, foi num motel bem próximo da sua casa, vá até lá agora.
Mais que merda! Pensei.
— Tudo bem. 
Encerrei a ligação e virei-me para minha mulher que já não queria mais assunto comigo.
— Tenho que sair.
Ela deu de ombros.
Eu amo ser policial, é o que eu sei fazer de melhor, mas confesso que tem dias – como esse por exemplo – que de verdade eu penso em jogar tudo para o alto e desistir. Mas não adianta. Tenho a lei correndo em minhas veias, minha missão ainda não acabou. Enquanto eu não puser às mãos no maldito do Manuel Clemente eu não vou me aposentar, não vou desistir. Foi o que fiz. Me vesti. Peguei as chaves, meu distintivo, minha arma e fui. Caí na madrugada.
*
Cheguei ao motel por volta das duas da manhã aborrecido e com sono. Desci do carro fechando o ziper da jaqueta e olhando ao redor buscando visualizar Amorim. Ele ainda não havia chegado, graças a Deus, porém minha animação durou pouco quando olhei para a recepção do estabelecimento e reconheci Pavanelli conversando com um suposto funcionário do lugar. Empurrei a porta e entrei.
— Grande João Antônio. – disse ele com aquele sorrisinho enviesado que tanto me irrita.
— Pavanelli. Como chegou tão rápido? – Coloquei as mãos nos bolsos da jaqueta.
— Sabe como são as coisas né, um jornalista precisa estar antenado, mesmo na madrugada. – mostrou o celular.
A minha vontade era de agredi-lo, mas verdade seja dita, Pavanelli querendo ou não já me foi muito útil em outros casos. O bicho é inteligente.
— O que temos aqui? – olhei ao redor.
— Mão Negra ataca novamente. – apontou para o cartão de visitas do ladrão em cima do balcão. Uma folha de A4 com uma mão negra xerocada toda amassada.
— Caramba! – exclamei cansado. – e quanto foi dessa vez?
— Hum, o grande J.A precisando da ajuda da imprensa? – desdenhou.
— Fala logo.
Pavanelli sacou seu bloquinho de anotações. Minhas pernas estavam bambas.
— Segundo me relatou o gerente, ele saiu daqui com 15 mil reais, fora os pertences dos clientes.
— Carambolas! – falei entre os dentes. Nesse momento, Amorim empurrou a porta da entrada furioso.
— O que ele faz aqui? – vociferou.
— Boa noite para o senhor também, delegado.
Celso Amorim odeia Pavanelli mais do que eu. Essa guerra já é antiga, desde quando estávamos atrás do “Piloto”, um traficante de drogas perigoso que, graças a intromissão de Pavanelli, um dos nossos policiais quase foi morto. Hoje o pobre agente vive numa cadeira de rodas sobrevivendo de uma aposentadoria de merda.
— Vou pedir uma vez só: saia. – falou Amorim com o rosto vermelho feito um pimentão.
— Mas... – encolheu os ombros. 
Amorim gesticulou para os dois PMs que o acompanhava e os mesmos avançaram para cima do jornalista indefeso.
— Isso é censura hein. – gritou.
— Tire esse bosta daqui.
Ele se virou para mim.
— Alguma pista?
— Acabei de chegar. – pigarreei. – só temos aquilo por enquanto. – lhe mostrei o papel.
Contei tudo o que Pavanelli havia me contado para o delegado. Andamos pelo motel, olhamos quarto por quarto atrás de uma pista que nós dois sabíamos que não existia. Conversamos com clientes, funcionários e chefia. Lá pelas tantas saímos do lugar ainda sem nada nas mãos. Amorim estava visivelmente frustrado.
— Ele se safou novamente. 
— Se o senhor quiser eu posso montar uma equipe de busca e...
— Não. Esse caso já era. – abriu a porta da viatura. – quero você às nove no meu gabinete. Temos que alinhar nossas ideias. Já passamos da hora de prendermos esse otário.
— Certo!
Os pneus da viatura deixaram poeira para trás e eu permaneci ali, parado olhando para o motel. Eu também estava frustrado querendo arrancar a cabeça do miserável, mas isso não me levaria a lugar algum. Ir para casa não era uma opção, então resolvi enfiar a cara no trabalho. Voltei para dentro do motel e fui até o gerente.
— Preciso das imagens das câmeras de segurança. Agora.

Capítulo 2

Manuel Clemente chegou ao lugar onde se esconde suado, exausto e um pouco mais rico também. Quinze mil reais em uma só noite não é uma coisa que acontece com frequência. Ele abriu a outra bolsa e conferiu com cuidado o seu conteúdo. Celulares, anéis, tablets e relógios, tudo isso ainda deve-lhe render uma boa grana. Manuel é produto de uma família sem base alguma. Sua mãe foi uma mulher que, ainda na adolescência sofreu abuso sexual e acabou engravidando de seu agressor. Seu irmão mais velho cresceu assistindo as surras dadas pelo padrasto em sua mãe todos os dias. Mesmo em meio a esse inferno, sua mãe engravidou pela segunda vez. Aos sete meses de gravidez, seu padrasto a surrou tão violentamente que ela precisou ser hospitalizada, mas graças a Deus o pequeno Manuel não sofreu nada. Após uma semana de internação, sua mãe teve alta e infelizmente ela pôs em prática o que planejou enquanto estava naquele leito. Seu padrasto dormia no quarto quando foi esfaqueado até a morte aos gritos de “vai agredir mulher no inferno, seu covarde". A polícia chegou e não houve resistência. Sua jovem mãe foi levada algemada com o rosto sujo pelo sangue do miserável. Manuel Clemente nasceu na prisão e foi adotado por outra família. Clara Clemente se envolveu numa confusão entre as presas e acabou sendo estrangulada.
Nessa nova família Manuel não era bem vindo pelos filhos do casal. Sofria com chacotas e até humilhações. Quando atingiu a maioridade, ele resolveu sair de casa e construir sua vida sozinho. Foi quando conheceu o submundo do crime. A princípio Manuel agia com mais dois companheiros. Eles roubavam lotéricas e postos de gasolina, tudo era dividido em partes iguais até que um dia Clemente se viu sendo roubado pelos próprios amigos. Fora de controle, Manuel sacou sua arma e os matou ficando com todo o dinheiro do roubo.
Mão Negra. De onde ele tirou esse vulgo? Até hoje ele não sabe. Talvez ele tenha visto num filme ou notícia de um jornal qualquer. Ele apenas sabe que o apelido pegou. Mão Negra o maior ladrão da história. Age sem deixar rastros, é perigoso e se sentir acuado ele mata. 
*
O sono bateu forte quando eu ainda assistia as imagens das câmeras de segurança do motel. Não foi nada fácil ficar ali olhando a ação do Mão Negra sem poder fazer nada, não é possível que ele vá sair livre dessa mais uma vez. O sujeito é mesmo um cara de pau, age sem medo, de cara limpa, sem receio das câmeras. Assalta na maior tranquilidade. Escorregadio demais.
Eu havia pedido um café forte sem açúcar e enquanto aguardava algo me veio à mente.
— Os localizadores dos celulares. – esqueci o café e fui trabalhar.
Andei com pressa até a recepção onde os clientes ainda conversavam com o gerente. Interrompi a celeuma existente ali perguntando bem alto quem costumava manter o localizador ativado. Somente um rapaz disse que sim.
— E por um acaso o seu aparelho se encontra sincronizado com outro?
— Sim. Minha mãe faz questão de saber cada passo que dou.
— Legal. Obrigado a todos. – me despedi, mas levei o rapaz para fora comigo. 
*
Amorim havia começado a tal reunião às nove em ponto. Ele olhou em volta e não viu João Antônio na sala.
— Mais que merda, cadê o J.A?
— Ele me ligou dizendo que se atrasaria, senhor. – informou outro policial.
Após passar as mãos na cabeça de poucos cabelos o delegado resolveu seguir com o plano mesmo sem o seu investigador responsável pelo caso.
— Quero um pente fino nos arredores daquele motel. Mão Negra deve estar por perto. Vou manter as patrulhas circulando pra cima e pra baixo vinte quatro horas, enquanto isso quero vocês nas ruas, becos, vielas, bueiros, sei lá, mas peguem esse sujeito. 
O celular de Amorim tocou em cima da mesa. 
— Aonde você está que não se encontra em minha sala?
— A caminho da casa do Mão Negra. 
Amorim ficou boquiaberto. 

Capítulo 3

Eu na verdade estava em frangalhos pensando em minha Marlene o tempo todo. Pensando nos dias felizes que tivemos juntos no início do nosso relacionamento. Era bom demais. Lembro-me que ela sempre me recebia com um sorriso largo, cabelos molhados e uma pele fresca após tomar uma ducha demorada. Era a moça mais cheirosa daquela vila. Ficávamos horas grudados assistindo a TV e é claro, trocando deliciosos beijos. Até hoje somos assim, um apaixonado pelo outro, mas as circunstâncias da vida estão nos afastando a cada dia. Eu não posso perdê-la. Não consigo imaginar a minha vida sem a minha Marlene, minha cheirosa. Preciso prender logo o maldito do Mão Negra antes que ele destrua de vez o meu casamento.
Por ser ainda muito cedo a cidade que é considerada a mais movimentada do país se encontrava numa calmaria onde era possível ouvir ecos dos latidos dos cães do outro lado do bairro. Segundo o localizador, o Mão Negra havia estado numa das ruas mais perigosas daquela região. Antes de descer do veículo verifiquei minha arma. Estava tudo ok. Desci e percebi o quanto o estado havia abandonado aquele lado da cidade. A rua parecia ter sido bombardeada tamanho era o número de buracos ali. Alguns até com entulhos jogados pelos próprios moradores na vã tentativa de amenizar a situação. Celso Amorim deu-me ordens para que o aguardasse, mas sabe como são as coisas não é. Tenho a lei circulando nas veias, e além do mais ele demorou muito, o dia todo praticamente. Segundo ele, surgiram outros assuntos que eram de sua alçada. Caminhei com minha arma em punho e driblando os buracos. Passei por um monte de sacos e uma caçamba que transbordava de lixo. Uma voz pastosa me fez saltar.
— Passeando uma hora dessa, coroa?
— Merda! – girei nos calcanhares. – polícia fique parado.
De dentro da caçamba saiu um sujeito magro, mal vestido, mal cheiroso e com pouquíssimos dentes sadios.
— Opa, eu não fiz nada de errado não, autoridade. Eu só queria saber se o senhor tem fogo. – mostrou metade de um cigarro amassado.
— Não, eu não fumo. – menti e abaixei a arma. 
Dei as costas para o mendigo e retomei minha caminhada. Mais uma vez o sujeito fez meu coração disparar.
— Tá afim de comprar um celular?
— Não! – respondi ainda andando.
— Um sujeito me acertou com ele, mas o aparelho parece que foi atropelado por um caminhão.
Liguei meu alerta. Virei-me e lá estava o morador de rua segurando o telefone com a tela toda trincada.
— Você viu o cara, viu para onde ele foi?
O sujeito coçou algumas vezes a cabeça e a barba antes de me responder. Eu já estava irritado.
— Ele não é estranho. Raramente ele sai de casa e quando o faz, faz sempre a noite.
As viaturas chegaram jogando seus fachos de luz dos faróis iluminando nossos corpos. Só agora pude ver o quanto o sujeito era desnutrido.
— Você sabe onde é a casa dele?
— Aquela. – apontou para uma verde claro com muros médios e portão de madeira.
Amorim parou bem próximo de nós dois. Sua expressão não era nada boa.
— Resolveu parar e fazer uma caridade, cadê o Mão Negra?
Eu também estava de saco cheio do Amorim, as vezes penso em meter uma bala na cara dele.
— Aquele é o esconderijo dele. – tomei o celular das mãos do mendigo. – esse era o celular que estava com o localizador ativado. Provavelmente ele sacou isso e destruiu o aparelho.
— Sacanagem! – abriu o paletó e colocou as mãos na cintura. – Atenção pessoal, vasculhem aquela casa. Venha comigo J.A
Andamos até a outra ponta da rua, numa esquina de onde era possível ver os primeiros brilhos do sol despontando do outro lado da cidade. Lindo visual. Celso guardou sua arma no coldre por dentro do blazer.
— Por hoje chega.
— O que? – franzi a testa.
— João, estamos cansados, você está cansado. Vamos para casa. Vou marcar uma reunião no próximo plantão.
— Mas chefe, Manuel Clemente pode estar por perto. 
— Mão Negra não está mais aqui, aonde quer que ele esteja agora, ele sabe que estamos aqui. Vá para casa J.A. é uma ordem. – bateu em meu peito.
Eu tive que acatar suas ordens. Era verdade! Amorim estava coberto de razão, eu me encontrava morto de cansado, com sono e não é pra menos. Já não sou aquele mesmo policial de vinte poucos anos que virava a noite atrás de vagabundo. Com a graça de nosso Senhor cheguei aos 53, mas confesso que meu corpo já não suporta mais tantas emoções.
Voltei com Celso para a frente da casa de Manuel onde o restante do nosso pessoal já o aguardava.
— Nada senhor. – informou um sargento.
— Positivo. Vamos embora.
Eu entrei em meu carro ainda tentando engolir as ordens do meu chefe. Me olhei no retrovisor e vi um homem acabado. Barba por fazer, bolsas se formando embaixo dos olhos e a cada dia que se passa minha calvície se torna mais acentuada. Complicado. Mas eu creio que envelhecer é pra quem pode e não pra quem quer, então vamos nessa.
Quando parei de me “admirar” no espelho só restará eu no local. Olhei para a casa do Mão Negra. Respirei fundo e desci, dane-se as ordens. Não sei porque cargas d'água Amorim não deixou ninguém de guarda e nem a isolou. Ele realmente deve ter tido um dia daqueles. Eu só agradeci por isso. Entrei na casa e simplesmente me surpreendi. Sem móveis, sem quadros, luz fraca e um cheiro horrível de comida estragada, além de ladrão é porco. Fui até o quarto e lá só havia um colchão de solteiro. Pois é, realmente o nosso querido Mão Negra manteve a regularidade. Sem pistas.
Revistei todos os cômodos da resistência, mas foi no banheiro que a minha sorte começou a mudar. Assim como a cozinha, o banheiro fedia bastante, meu estômago queria sair pela boca, mas eu precisava seguir com a busca. No local tudo estava em ordem; sabonete, papel higiênico, barbeador barato e...
— Quem procura acha.

Capítulo 4

Ladrão que é ladrão não fica por ai tomando trocados ou pegando celulares de transeuntes desprevenidos nas ruas. Se for para assaltar, correr risco de morte, que seja por algo grande, que valha a pena. Manuel Clemente é bom no que faz e nunca se arriscou por pouca coisa. O “trabalho” dessa noite foi como tomar doce da boca de criança. Fácil demais. As sete da manhã ele dorme tranquilamente em outro esconderijo, numa casa que fica exatamente no centro da cidade, num bairro onde ninguém sequer pode imaginar que o famoso Mão Negra possa estar. Sujeito esperto. Às nove ele acordou, tomou um banho ligeiro. Engoliu algumas torradas com café puro e saiu afim de se livrar dos bens materiais roubados no motel.
O lugar onde Manuel costuma negociar seus produtos fica num conjunto habitacional há algumas longas quadras de onde ele se encontra escondido. O lugar é perigoso e sujo conhecido como “A Teia”. Lá dentro existe um tipo de mercado negro onde até vidas humanas são negociadas. Mão Negra tocou duas vezes no portão de ferro. Do outro lado uma voz rouca soou aterrorizante.
— A senha!
— Não há senha. 
O portão foi aberto. Um sujeito negro, alto com cara de maluco surgiu o saudando.
— Ora, ora, se não é o Mão Negra. O que manda meu velho?
— Negócios. – Manuel não estava suportando o hálito podre do segurança.
— Ah tá. O chefe está lá dentro. Boa sorte. 
O tal chefe é um senhor de no mínimo 70 anos que não consegue se locomover sem o auxílio de sua inseparável bengala. Ele mesmo a fez e dizem que nela há poderes mágicos.
— Poderoso Rufino. – saudou Mão Negra. 
— Mão Negra. Vamos entrando. O que tem pra mim?
A sala é escura, abafada, suja e fede a urina de rato.
— Celulares, relógios e joias. 
— Deixe-me ver. – pegou seus óculos de grau fortíssimo. Manuel colocou a bolsa em cima da mesa e a abriu. – hum, beleza. Quanto quer por isso?
— Vinte mil. 
Rufino tossiu. Uma tosse típica de idoso encatarrado.
— Acho que não. Que tal cinco?
Mão Negra arqueou as sobrancelhas e olhou para a bengala mágica.
— Sete?
Rufino o encarrou com sua expressão fantasmagórica por alguns segundos. Pegou a bengala e a mostrou para o ladrão. 
— Ela está mandando você pegar os cinco e cair fora daqui.
Tá amarrado!
— Negócio fechado. 

Capítulo 5

Ao despertar antes mesmo do horário habitual, Marlene deu uma rápida olhada para o lado direito da cama e não viu seu marido. Ao se dar conta de que havia mais uma vez dormido sozinha, a esposa de J.A pensou em pegar o celular e descarregar toda sua fúria sobre ele, mas hesitou. João Antônio pode ser qualquer coisa, mas nunca foi um mau marido. “Uma mulher sábia edifica sua casa e a tola a destrói com suas mãos” foi o que ela aprendeu lendo os sagrados textos bíblicos. Marlene pegou o celular sim, mas não para atear mais gasolina na fogueira.
— Oi, querida?
— Oi. Como vão as coisas?
— Acho que dessa vez eu consigo pôr as mãos no desgraçado.
— Ótimo. Você é o meu herói. Vá pegá-lo, por mim.
— Deixa comigo, princesa.
— Eu te amo. – um nó se formou em sua garganta.
— Também te amo querida.  
*
Estou velho, meio barrigudo, mas nunca cansado. Confesso que o sono de uma madrugada inteira sem dormir já começara a me debilitar, mas eu precisava manter o ritmo. O meu próximo plantão seria dali a vinte quatro horas, tempo o suficiente para que o Mão Negra conseguisse escapar. Eu não poderia esperar. Eu estava motivado, minha mulher me colocou outra vez em combate. Liguei sem receios para Amorim.
— Celso Amorim falando.
— Fala chefe! Encontrei uma parada importante no esconderijo do Mão Negra.
— O que, como assim, você ainda está aí?
Engoli seco.
— Me perdoe por desobedecer suas ordens, chefe. Mas, eu acho que estamos perto de pegar o cara.
Eu pude ouvir a respiração do delegado se tornar ofegante.
— Depois conversamos sobre isso. Diz o que achou?
— Mão Negra segue uma linha de pontos a serem atacados e eu tenho quase certeza que sei onde será o próximo ponto.
— Segue...
— Conhece a Tempo dos Lírios?
— Sim, a maior e mais cara loja de produtos de higiene pessoal da cidade.
— Isso mesmo. Esse é o próximo ponto a ser roubado. 
— Pelo amor de Deus, J.A, como você sabe disso?
— Ele esteve lá e ainda fez uma pequena compra. 
Nesse momento eu olhava para o pequeno frasco de sabonete líquido, produto exclusivo da tal loja que coloquei em cima do painel do meu carro.
— Certo! Me encontre em uma hora lá no departamento.
*
O ser humano nunca está satisfeito com nada, quanto mais tem, mais quer. Os quinze mil reais que pegou do motel ainda não foi o bastante e por isso Manuel Clemente já se prepara para o próximo “trabalho”. Mas ele também sabe que a polícia anda atrás dele, o Mão Negra se tornou uma figura carimbada em toda região e isso é péssimo. Ser um criminoso procurado é viver cada dia entre dois caminhos: prisão ou morte. Nenhuma das duas lhe agrada. Mão Negra — segundo ele próprio, nasceu para ser livre, nasceu para viver, então que seja assim. Ao trabalho. 
*
Eu aproveitei esse intervalo de uma hora dada por Amorim para passar em casa e beijar minha mulher. Ela me recebeu surpresa. Marlene não esperava me ver ali. Nos beijamos na porta da cozinha durante um bom tempo, me senti um garoto apaixonado abraçado a menina amada da escola. Marlene fez café, pão fresco e ovos mexidos. Comemos e conversamos bastante. Ela estava linda, um doce de pessoa como sempre foi.
— Que tal quinze dias no Sul? – sugeri. Ela não acreditou.
— Tá falando sério?
— Sim! Minha aposentadoria está pertinho e para comemorar, que tal quinze dias fora dessa cidade, sem Amorim e é claro, sem Mão Negra?
— Ai amor, acho ótimo. 
Ela me beijou outra vez. 
— Já pode ir fazendo as malas.
— É pra já. 
*
Entrei na sala do chefe Amorim e o mesmo demonstrava um cansaço quase palpável. A vida do meu delegado também não tem sido nada fácil. Ele divorciou-se há dois anos e nesse tempo conheceu uma mulher a qual faz de sua existência um inferno. Celso nunca foi de verdade apaixonado por ela, tudo o que ele queria era curtição e causar ciúmes na ex. Pobre coitado.
Na sala já haviam cinco outros agentes aguardando o início da reunião. Ao me ver, Amorim não esboçou qualquer expressão. 
— Pessoal, é o seguinte; o Mão Negra vai atacar novamente e o nosso colega J.A sabe aonde será. Temos uma chance e eu a quero aproveitar. Já estou de saco cheio dessa história. Por isso vamos montar guarda disfarçada no local e pegar o safado. É simples. 
— Terá que ser uma operação limpa, ninguém precisa sair ferido. – falei.
— Exatamente. – bateu palmas. — Valeu pessoal. Dispensados. Menos você, João Antônio. 
Nessa hora eu perdi o chão. Assim que se viu sozinho comigo, Amorim ocupou uma das cadeiras e desabafou.
— Sabe porque não deixei ninguém guardando o esconderijo do Mão Negra? Porque eu sabia que você não cumpriria minhas ordens de ir embora. Você é um baita profissional, João, e pode não parecer, mas eu o admiro muito. Sabia que você entraria naquele lugar e encontraria algo que os outros não seriam capazes de encontrar. J.A, o melhor investigador que já trabalhei. Fará muita falta, pode acreditar.
Eu queria chorar, mas me segurei.
— Obrigado, chefe. – apertamos as mãos. 
— Vá lá prender o Mão Negra.  

Final

No início da profissão eu duvidava da minha capacidade. Nunca imaginei que me tornaria o policial que sou hoje. Eu sei que, assim como eu, existem milhares, mas o que estou dizendo é que, quando ingressei na polícia civil, minhas pretensões não eram tão ousadas assim. Hoje estou aqui, perto de me aposentar, satisfeito com o que fiz até agora e com a prisão do miserável do Mão Negra isso será selado de vez. Fizemos o que Amorim mandou. Montamos guarda secreta nos arredores da loja de produtos de higiene pessoal e nos revestimos de paciência. Um bom policial precisa saber esperar. Esse plano tinha que dar certo.
*
Manuel Clemente verificou se não havia esquecido de nada. Por via das dúvidas ele resolveu tirar tudo de dentro da bolsa e conferir item por item. O principal se encontrava em sua cintura, uma pistola calibre 45. Ele fechou a bolsa. Ajustou o relógio e saiu. No bolso do casaco a folha de A4 com uma mão xerocada, isso sim chega a ser mais importante que sua própria arma. Manuel faz questão que todos saibam que foi ele quem cometeu tal crime. O Mão Negra precisa assinar seu feito. Ele deixou o apartamento de um prédio caindo aos pedaços e sem elevador com a noite saudando seus admiradores.
*
Eu sabia que demoraria, por isso fui prevenido. Eu não estava sozinho, no local onde estávamos havia mais dois comigo. A fome bateu forte, então decidi sacar meu sanduíche de queijo mussarela sob os olhares dos meus companheiros.
— Eu só tenho este. – os alertei.
— Quer dizer que vamos ficar aqui dentro desse carro esperando até sabe-se lá quando e com fome? – disse Ramiro.
— E por falar em esperar. – falou o Silva. – O Mão Negra virá hoje mesmo?
— Hoje eu não sei, mas essa loja é o próximo alvo dele, disso eu tenho certeza. – mordi o lanche.
— Por quanto tempo essa operação deve seguir? – perguntou Ramiro.
— Até sairmos com o Mão Negra algemado. Nós temos uma chance e eu não vou desperdiçá-la, mas se vocês quiserem desistir é só falar que eu ligo para o delegado.
Ouve-se um silêncio dentro do veículo. 
— Legal! Agora foquem na missão.
Ele apareceria, eu tinha certeza. Não sei o que, mas algo me dizia que Mão Negra não passaria daquela noite. Eu estava no banco do carona olhando para fora, de uma certa forma eu admirava a noite. Sempre gostei da paisagem noturna e nunca tentei entender, mas eu sempre adorei. Ele virá. Celso Amorim chamou no rádio.
— Como vão as coisas por ai?
— Estão indo. – respondi.
— Se quiser eu posso trocar o turno.
— Eu vou ficar. – respondi por mim. Ninguém me tiraria da li.
Ramiro e Silva disseram que também ficariam até o amanhecer se caso precisasse.
— Bom trabalho, rapazes.
Voltamos ao silêncio. Ramiro bocejava o tempo todo enquanto que Silva enviava mensagens cretinas para sua namorada pelo Whatsapp. Por volta das duas da manhã vi uma movimentação estranha perto da loja. Era ele. Mão Negra. Chamei atenção dos meus companheiros dentro do carro e também dos que estavam fora.
— Atenção rapazes, o nosso alvo chegou. Ao meu comando somente. – disse eu ao rádio. 
Lá estava ele, o ladrão. Calça jeans, botas, casaco cinza e uma bolsa de viagem atravessada no tronco. Mão Negra. O sujeito era audacioso, mal se preocupou com as câmeras ou se havia seguranças dentro ou ao redor da loja. Rapidamente ele sacou uma ferramenta e já a introduzindo na fechadura. Meu sangue ferveu nessa hora. Quanta sensação de impunidade, que certeza é essa de que nunca será pego? Essa farra terá fim hoje e agora. Foi o que pensei.
— Atenção tropa, me dêem cobertura, vou descer.
Ramiro me segurou no ombro direito.
— Tenha cuidado!
Desci do carro. Caminhei com minha arma em punho e com o coração batendo na garganta. Ele ainda tentava abrir o portão de ferro quando falei.
— Quer uma mãozinha, amigo.
*
Aconteceu como se eu tivesse visto tudo em câmera lenta. Mão Negra girou o corpo sacando sua arma. Eu apontei e atirei ao mesmo tempo que ele. Senti medo de morrer, de deixar minha Marlene viúva, da nossa segunda lua de mel no Sul do país. Manuel Clemente não poderia se safar dessa vez. Eu senti o calor da bala passando a centímetros da minha cabeça e vi o Mão Negra cair batendo as costas no portão de ferro segurando o ferimento no ombro esquerdo. Ele me xingava horrores.
— Você está preso, Mão Negra. – eu disse com meus companheiros correndo em meu auxílio. 
— Mas que merda foi essa J.A? Você está bem? – gritou Silva.
Eu não respondi, apenas permaneci ali parado assistindo o maldito ser algemado. Missão cumprida.

Tempos depois, em meu último dia como agente da polícia civil, eu terminava de empacotar minhas coisas quando Silva chegou em minha mesa correndo. 
— Amorim solicitou sua presença na sala dele.
— Putz!
Deixei a caixa com meus pertences em cima da mesa e fui. Silva foi atrás de mim me dando apoio psicológico. Abri a porta do gabinete do meu chefe raivoso e vi todos do departamento aglomerados lá dentro.
— Parabéns, grande J.A. – berrou Celso. 
Ruborizei e não segurei a emoção. Os aplausos ecoaram naqueles poucos metros quadrados. Amorim foi para trás de sua mesa. Abriu a gaveta e tirou de lá um quadro.
— Mandamos fazer pra você. 
Amorim passou as minhas mãos a folha de A4 com a mão negra emoldurada. Muitos não entenderão, afinal, o que o cartão de visitas de um ladrão tão perigoso e que quase destruiu o meu casamento faz pendurado na sala de minha casa? Pois é, mas para mim significa muito. Depois desse dia fui pra casa, para os braços da minha Marlene e como o prometido, fomos para o Sul curtir nossa segunda e mais longa lua de mel. FIM.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Do Ponto De Vista Da Morte

 


Do Ponto de Vista da Morte



Um carro em alta velocidade passou espalhando para todos os lados a sujeira acumulada nos cantos da calçada. Uma folha inteira de jornal foi parar no rosto do morador de rua que dormia um sono pesado, encolhido no piso frio cimentado onde funcionava uma loja de utensílios para o lar. Ao despertar com aquele papel imundo colado em seu rosto também imundo, o tal sujeito ergueu-se num susto que a muito tempo ele não era acometido. Ao perceber que se tratava apenas de um jornal, Geraldo o amassou e depois o arremessou como um jogador de basquete para dentro da lata de lixo, ali ao lado.

— Cesta! – murmurou.

Ainda era bastante cedo. Sete horas talvez. Seu estômago já o havia alertado algumas vezes quanto ao jejum prolongado. Ele revirou algumas sacolas de lixo e o máximo que encontrou foram duas fatias de pão de forma mofadas. Lógico que Geraldo não arriscaria ter uma intoxicação alimentar ingerindo aquilo. Ele as guardou para mais tarde oferecer aos pombos da praça que fica um pouco mais adiante. O jeito foi continuar procurando.

Até que Geraldo não se encontra tão mal apresentado. Em vista de outras pessoas que vivem nas ruas. Na medida do possível, ele até anda bem vestido. Calça jeans alguns números a mais do seu manequim. Para que elas não venham a cair quando estiver andando, Geraldo a ajusta na cintura com um pedaço de barbante que achou na reciclagem onde às vezes consegue um trocado levando latinhas de cerveja e de refrigerante, papelão entre outras coisas. A camisa não está em ótimo estado, porém longe de ser considerada um pano de chão. Possuí alguns furos, o que é bom em dias de calor intenso segundo o próprio Geraldo. Os pés estão sempre cobertos por um par de botinas que lhe foram doadas por um dos moradores do bairro. Até então Geraldo andava descalço e isso lhe rendera alguns ferimentos nas solas dos pés.

Geraldo encontra-se em situação de rua a mais ou menos... Sabe-se lá desde quando. Ele parou de contar faz tempo. A fome apertou novamente e quando isso acontece toda vergonha pula pela janela. Hora de apelar para os transeuntes.

— Bom dia, a senhora teria alguma coisa pra me dar? Estou com fome.

Fingindo não estar falando com ela, a idosa passou batida. Geraldo não reclamou, está mais do que acostumado a ser ignorado.

— Bom dia, senhor, tem como me ajudar, não como nada desde ontem.

O homem alto, bem vestido interrompeu sua caminhada apressada.

— Eu não tenho nada de comer aqui.

— Ah, podem ser uns trocados.

— Tem certeza, e se for pra comprar drogas?

— Eu nunca usei essa porcaria. Pode acreditar.

O homem percebeu nos olhos castanhos claros de Geraldo uma sinceridade genuína, por isso sacou da carteira cinco reais.

— Vai lá comer alguma coisa.

— Deus te abençoe, tenha um ótimo dia.

Um joelho de queijo com presunto no capricho. O suco foi por conta da casa. Geraldo procurou um canto para degustar seu café da manhã riquíssimo tendo como vista os apartamentos de uma avenida principal da cidade. O suco de maracujá com certeza o fará pegar no sono novamente, mas o que importa de fato é encher a barriga.

*

Alguém o esbarrou com os pés. Geraldo acordou assustado pela segunda vez no mesmo dia. Era Nina, uma outra moradora de rua e usuária de drogas o chamando.

— Tem alguma coisa pra mim, Gegê?

— Poxa, Nina, isso é jeito de acordar alguém? O que você quer?

— Perguntei se você tem alguma coisa pra mim. Que estressadinho, hein. — Nina tem a voz rouca e alta. 

— Não! – sentou-se. — você sumiu, o que andou fazendo?

Nina se acomodou ao lado do companheiro. Seu hálito matinal era ainda pior que o habitual. Uma mistura de nicotina e bosta de vaca.

— Menino, acredita que um carinha prometeu me dar dois reais se eu chupasse ele.

— E você acreditou?

— Claro. Eu estava seca por uma pedra, então, lá fui eu.

Geraldo meneou a cabeça de forma negativa.

— Quando eu terminei o serviço, ele correu para dentro do carro e meteu o pé e eu fiquei sem meus dois reais e com a boca toda suja daquele porco. A hora que eu o encontrar vou cortá-lo todinho. — puxou o estilete do bolso da calça moletom cinza.

Silêncio.

— Você precisa mudar de vida, Nina. O tempo está passando rápido demais.

— Eu preciso mudar de vida e você, não?

Geraldo olhou friamente para ela.

— Eu já sofri essa mudança. — Geraldo abaixou a cabeça.

— Cara, você é muito estranho. Apareceu aqui do nada. Não namora, não come ninguém, não se junta com a gente. Qual é a tua Gegê?

Geraldo abaixou a cabeça novamente e depois olhou para frente, na direção dos prédios. Bem que ele gostaria de saber responder a essa pergunta, mas...

— Nina, vou ficar te devendo mais essa. Tá bom? – bateu de leve em sua perna.

— Quer dar uma trepadinha? — O seduziu.

— Fica para uma próxima.

Nina levantou-se revoltada da vida.

— Quer saber o que eu acho, de verdade de você Gegê? – pôs às mãos na cintura.

— Já sei, e pode acreditar, não sou homossexual. – sorriu.

— Até mais, pangaré. – bufou.

 Ainda sob os efeitos do suco de maracujá, Geraldo deitou-se em posição fetal. Logo pegará no sono.

*

Ao meio-dia Geraldo abriu os olhos bem devagar. Ainda não estava com fome, mas nunca é cedo demais ir em busca de comida para uma pessoa em suas condições. De uma sacola com a logomarca de uma rede de supermercados famosa encontrada no pé de um dos postes, Geraldo achou restos de uma comida fina, um pouco mais sofisticada. Não estava azeda, porém nem um pouco convidativa a degustação. Melhor deixá-la para os roedores e pombos. Geraldo achou melhor seguir mais adiante aonde há um restaurante. Pode não ser um desses estabelecimentos premiados, mas ainda assim um ótimo lugar para se encher a barriga. O dono do local é uma pessoa de um coração gigante e generoso, sempre que pode ele reserva duas ou mais quentinhas para os menos favorecidos.

— Olá, boa tarde. O senhor Agenor se encontra?

— No momento ele conversa com um de nossos fornecedores. Vai aguardar? – informou o segurança na porta.

— Tudo bem. É que ele sempre reserva alguma coisa de comida pra gente e...

Nesse momento Agenor e mais dois sujeitos deixaram o restaurante conversando animadamente. Assim que o viu, o empresário abriu os braços.

— Já conhecem Geraldo?

Ambos os homens fizeram cara de poucos amigos. Geraldo também os fitou, permitindo que seu coração se enegrecesse.

— Carlão, vá até a cozinha e peça que façam uma quentinha no capricho para o meu querido aqui.

— Obrigado, seu Agenor, o mundo precisa de mais seres humanos como o senhor. – declarou olhando para os homens.

Geraldo deixou o restaurante levando consigo uma marmitinha bem servida da melhor comida caseira do bairro dentro de uma sacola. Hora de achar um bom lugar para o almoço. Quem sabe no parque debaixo das árvores?

Assim que sentou-se e encostou no tronco de uma goiabeira alguém o cutucou no ombro. Geraldo não se assustou.

— Diga logo o que quer e caia fora.

De trás da árvore saiu um rapaz mediano, loiro, terrivelmente bonito com seus olhos verdes, muito bem vestido socialmente.

— Então, quer dizer que seu nome agora é Geraldo? Que brega. – pôs às mãos na cintura.

— Brega, por que?

— Ah, sei lá. Seu nome original é bem mais bonito. O que você tem aí?

Geraldo olhou para a quentinha e depois para o loiro a sua frente.

— Não vai me dizer que você também foi destituído?

O rapaz pálido pôs uma das mãos no peito.

— Destituído, eu? Nunca.

— Então, o que quer de mim?

Geraldo desfez o nó. Retirou a quentinha de dentro da sacola. Pegou a colher de plástico e começou o almoço sob os olhares de seu conhecido misterioso.

— Por que não volta? Diga a Ele que está arrependido.

— Não vai adiantar. O que Ele fez está feito e ponto final. Eu cometi um erro e devo pagar por isso.

O sujeito loiro acomodou-se ao lado de Geraldo que se mostrou incomodado com sua presença.

— Desde sempre, nos foi ensinado que só deveríamos levar quem Ele designou e você decidiu por si que levaria aquele infeliz. E assim você fez.

— Eu sei que ainda não era a hora dele, mas...

— Jamais podemos permitir que a nossa vontade assuma o controle. Eu também me revolto, sabia?

Geraldo deixou a comida de lado e passou a murmurar.

— Ela era só uma criança. Não merecia morrer daquele jeito. Foi complicado levá-la, coitadinha. – fechou os olhos. — eu não aguentei vê-lo perambulando impunemente por aí. Eu me lembro que cheguei até Ele pedindo por justiça...

O loiro riu.

— A resposta foi a mesma de sempre. “minha é a vingança”.

— Sim. Mas o pior não foi isso. Eu tinha a certeza que aquele maldito cometeria outro crime. Então...

— Você, um mero serviçal decidiu levá-lo por sua conta.

— No meu lugar, o que você faria? – Geraldo criou coragem para olhar para o seu conhecido que emitia uma luz azulada ao redor do corpo.

— O ser humano criado por Ele é extremamente cruel e nunca está satisfeito com a bondade. Eu sei que aquele sujeito mataria outra criança, violentaria sua inocência, mas não cabe a nós tomar a decisão. Nossa função é conduzi-los ao além e só.

Geraldo entristeceu-se abaixando a cabeça. A fome já não era um problema.

— O que está feito, está feito. Eu errei e por isso estou aqui, pagando pelo meu erro.

O loiro se levantou e alongou sua lombar. Olhou ao redor do parque e avistou pessoas circulando por ali entretidas com suas conversas e gargalhadas.

— Eles podem até ser cruéis, mas são belos. Ele acertou em cheio quando os criou.

— Você não deveria estar levando alguém? – Geraldo voltou a mexer na comida.

— Sim, claro, e farei isso daqui a pouco. Está vendo aquela mulher vindo de bicicleta ali? – apontou.

— A morena clara?

— Ela mesma. Tão linda, tão jovem e forte. Terminou a universidade há poucos dias, mas infelizmente a hora dela chegou.

Geraldo rejeitou novamente a comida que a essa altura já havia se tornado uma pedra de gelo de tão fria.

— Poxa, mas a moça acabou de se formar, é bem provável que tenha feito projetos para uma vida inteira.

O loiro bonito cruzou os braços.

— Geraldo, Geraldo, desde quando você recebeu a essência humana se transformou em algo coberto de piedade. Eu estou aqui a mando Dele, você entende? Por favor! Quantas almas você conduziu ao além que também tinham planos iguais a essa pobre coitada? Milhares, suponho.

— Mas...

— Esquece, Geraldo, quanto a isso você não pode fazer nada. Agora com licença, tenho uma alma para conduzir.

A jovem morena atravessou o parque na intenção de seguir pela rua movimentada onde não há ciclovia. Geraldo acompanhou atônito todo o desenrolar da situação. Em questão de segundos, toda a vida pregressa da mulher se passou diante de seus olhos. Mulher guerreira, mãe de dois filhos, um casal pra ser mais exato. Casou-se duas vezes e somente com esse atual é que as coisas começaram a melhorar para ela. Com muita dificuldade e determinação ela conseguiu concluir sua faculdade de direito e agora luta para ingressar no mercado. Geraldo chorou. Um caminhão baú, um motorista desatento colocará um ponto final em toda sua história. 

Ela deixou o parque e atravessou a rua ainda com o sinal aberto, atrasada para algum compromisso pelo visto. O loiro se aproximou com sua luz azulada um pouco mais potente. O caminhão cruzou o semáforo a uma velocidade razoável tirando fino da bicicleta e sua condutora.

— Desgraçado, não me viu aqui não? – gritou a mulher.

O loiro iluminado girou nos calcanhares na direção de Geraldo e o mesmo encontrava-se incandescente com os braços estendidos na direção da mulher.

— Você é mesmo um tolo, Geraldo. Usar seu último recurso em favor de um ser finito. Agora de fato você se tornou um deles. Você me verá novamente, mas não para uma visita, mas sim para conduzi-lo. Até mais. – desapareceu.

Geraldo olhou para a mulher que ainda discutia com o caminhoneiro. De repente, algo dentro dele começou a pulsar. Ele pôs às mãos no peito e chorou.

— Coração. Eu agora tenho um coração. – contemplou o céu. — o Senhor me presenteou com um coração. Sou como eles e morrerei como eles. Honrarei isso até o fim.

Geraldo viveu ainda por mais trinta anos. Deixou às ruas. Conseguiu um emprego no mesmo restaurante que o ajudou durante o tempo que passou na sarjeta. Conheceu uma moça e constituiu família com ela. Foi um pai maravilhoso e um marido apaixonado pela esposa. Morreu de causas naturais e foi conduzido ao além pelo loiro bonito. FIM



sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Marcos e Bianca

 




Seu pai passou pela triste experiência do divórcio no passado e há três anos sua irmã também. Agora chegou sua vez. Seria isso uma maldição? Estariam todos da família Fernandes fadados ao fracasso amorosamente falando? Marcos não tem uma resposta certa a ser dada no momento, mas tudo o que ele sabe é que seu casamento com Bianca terminou e da pior maneira possível. Enquanto dirige em direção ao bairro onde morou com ela durante quinze anos, o chefe de produção de uma fábrica de móveis remói dentro de si os bons e os maus momentos vividos como casal. Bianca não era perfeita, e na época de namoro ela já havia dado diversas provas disso e mesmo assim ele decidiu apostar no relacionamento. Tudo era motivo para o início de uma discussão que duraria dias. A principal delas era o fato das roupas serem bastante chamativas e boa parte delas curtas demais. 

— Você não acha que esse shorts está curto demais para uma visita ao meu pai no hospital?

— Nada a ver. – disse se admirando no espelho.

— Pode trocá-lo por algo mais decente? – Marcos estava sem paciência. 

Eles não foram mais ao hospital. A discussão tomou caminhos perigosos, próximos das agressões tanto verbais quanto físicas. O mais estranho de tudo isso foi que a noite eles fizeram amor intensamente no sofá com a TV ligada. Essa lembrança sim o fez rir. O trânsito não estava ruim, porém longe do que os motoristas gostariam que estivesse. Perto da entrada que dá acesso ao bairro onde morou, a via parou de vez.

— Porcaria! – bateu no volante.

*

Para fazer com que o tempo passasse ou que pelo menos a pressão diminuísse, Marcos ligou o rádio e o sintonizou numa emissora onde a maior parte da programação as canções românticas dos anos 70 e 80 são executadas em sequência. De cara ele foi pego pela bela voz de Whitney Houston cantando exatamente a música a qual Bianca entrou com seu pai no dia da cerimônia. Ela estava perfeita naquele vestido. Marcos sempre foi um sujeito durão. A última vez em que chorou foi quando soube do falecimento de sua avó materna. Agora ao ouvir a linda melodia, Marcos não segurou a onda de choro que o acometeu. O trânsito começou a mostrar sinais de melhora com os carros saindo de seus lugares. Marcos segue chorando recordando-se de sua lua de mel na região litorânea. Foram duas semanas maravilhosas com direito a sexo a todo momento. Banho de mar e comida boa. Como segurar a emoção ao lembrar disso?

O carro entrou na rua sete de Setembro. Tantas foram às vezes em que ele entrou ali às 19h voltando de mais um dia de trabalho duro na fábrica. Marcos podia estar exausto e esgotado devido às pressões vividas durante o expediente, mas ao ver sua bela esposa arriscando uma nova receita preparada com carinho assando no forno, todo o cansaço se dissipava.

— Oi, amor. – o beijou.

— Oi. – deixou a mochila na cadeira. – E os meninos?

— No banho, como você exigiu.

— Ótimo.

E assim acontecia todos os dias. Na época ele achava tudo isso um porre, uma rotina pra lá de enfadonha. Hoje Marcos daria tudo o que há de mais precioso para ter esses dias de volta. Poxa vida!

Aí está ela. A casa número dez. O lar dos Fernandes Dias. A casa de Bianca e Marcos. Antes de descer ele conferiu seu estado no espelho. Há outro veículo estacionado em frente ao portão o qual deduziu ser do advogado. Vida que segue! Ao abrir o portão ele deu de frente com Bianca de braços cruzados olhando friamente para ele.

— Aqui estou. – disse voltando com as chaves para dentro do bolso.

— Me passe as chaves, por favor. – disse ríspida.

Marcos a encarou.

— Tudo bem. – as entregou. – podemos resolver logo isso?

— O atrasado aqui é você e não eu. – entrou.

Lá dentro um sujeito bem acima do peso vestindo um terno preto já bastante gasto pelo tempo analisa pela última vez os papéis através de seus óculos de leitura.

— Como vai, senhor Marcos?

— Bem! – puxou a cadeira. – tudo certo?

— Sim! – passou uma cópia para Marcos e outra para Bianca. – leiam com bastante atenção.

Marcos pigarreou ao começar a ler mentalmente. Bianca olhou para seu ex. Ela se fez de forte o dia todo, mas agora, bem ali diante dele tudo se transformou em tristeza profunda. O nó formado na garganta é mais forte do que ela.

— Dona Bianca, a senhora está bem? – perguntou o advogado retirando os óculos.

Marcos parou a leitura. 

— Vou pegar um copo d'água.

— Não precisa. – limpou às lágrimas. – assina logo isso, Marcos.

O clima ficou chato demais. Marcos queria chorar também. Bianca levantou-se e foi até o banheiro lavar o rosto. Lá a gerente de supermercado lembrou-se do dia em que viu seu futuro marido pela primeira vez. Ele havia comprado um produto cujo valor havia sofrido erroneamente um reajuste.

— Preciso falar com o gerente. – disse ele para a moça do caixa.

— Vou chamá-la.

Bianca apareceu esbanjando simpatia e principalmente tranquilidade e isso ajudou muito na resolução do fato. Marcos saiu daquele lugar com o produto cobrado um valor justo e também com o número de telefone da gerente. Uma semana depois eles namoravam apaixonados no portão da casa dela. Uma pena, pensou jogando mais água fria no rosto.

Bianca voltou para a cozinha. Ela já não era a mesma pessoa. 

— Vamos acabar logo com isso. – bateu palma.

*

Simultaneamente ambos terminaram de ler os documentos. Graças a Deus, pensou o advogado.

— E agora, doutor? – Bianca pegou a Bic azul dentro do porta canetas.

— Se não há dúvidas, só restam as assinaturas mesmo.

— Lembrando que aos finais de semana os meninos ficarão comigo. Certo? – olhou para ela.

— Marcos, o juiz decidirá isso. Agora assine logo e vá embora. 

Engolindo seco ele pegou a outra esferográfica no porta canetas. Retirou a tampa. Olhou para ela. Bianca tinha sua respiração pesada e os olhos marejados olhando para ele. Marcos permitiu que a emoção o dominasse. Ele deixou a caneta em cima do papel e esticou o braço. 

— Amor, não precisa ser assim.

Fala sério, pensou o doutor.

Marcos estava ali, com seu braço estendido sobre a mesa, aguardando que a mulher de sua vida retribuísse seu gesto, mas Bianca se encontrava irredutível. Ela olhou outra vez para o rosto de seu marido e ele tinha no olhar uma pequena palavra. Esperança. Mesmo de maneira tímida e hesitante ela lhe deu a mão, coisa que mexeu com o advogado do outro lado da mesa também. 

*

O primeiro a deixar a casa foi Júlio, o advogado. Em seguida Marcos com o rosto ruborizado e olhos inchados. Bianca o acompanhou até o portão de braços cruzados. Vez por outra ela os descruzava a fim de tirar os cabelos do rosto devido ao vento. Na rua ele parou ficando de frente para ela.

— Lembre-se. Você fez e ainda faz parte da minha história. Você me deu dois lindos presentes que são nossos filhos. Você sempre terá o meu respeito, minha consideração e principalmente, meu amor. Não se esqueça disso.

Bianca colocou a mão na frente da boca impedindo o choro. Ela anuiu.

— Que tal um abraço para fecharmos com chave de ouro?

Um abraço, apenas um abraço, pensou Bianca abrindo os longos braços. Eles se abraçaram e ambos puderam sentir pela última vez o calor que emana um do outro.

— Fica com Deus, Bianca. No final de semana estarei aqui para pegar os meninos. Tá bom?

— Tá bom. Venha para o almoço. Farei aquele frango assado recheado. Lembra? – disse rindo e chorando ao mesmo tempo.

— Combinado. 


NOITES EM CLARO 


Mais um bocejo. Os olhos estão pesados e ardem como se alguém tivesse despejado ácido neles. Bianca não pode dizer que acordou, mesmo porque ela sequer dormiu. Mais que droga! Ela está péssima, um caco como diria sua irmã mais nova, Bárbara. Engraçado! Bianca nunca foi muito fã de acordar cedo. Em tempos de paz, a briga entre o despertador e ela era ferrenha e quase sempre Marcos se colocava como aliado do aparelho. Na atual conjuntura, abrir os olhos antes do despertador já não lhe causa tanto desconforto e raiva. Na verdade, é até bom que seja assim. Ela retirou o edredom e se espreguiçou emitindo os famosos “gemidinhos de gato” como seu ex marido costumava chamá-los. E por falar em Marcos, Bianca está usando seu moletom cinza. O moletom cinza. Marcos não suportava a ideia de sua mulher dormir vestida daquele jeito.

— Fala sério, amor. Isso inibe toda e qualquer sensualidade de uma mulher. É até broxante.

Agora que Marcos saiu de casa, nada a impede de dormir com a indumentária. Ela conferiu o horário no celular. Cinco e cinquenta da matina. Aos bocejos ruidosos ela foi até o banheiro esvaziar sua bexiga. Feito isso, a melhor coisa a ser feita para espantar o maldito sono é tomar um banho frio e depois jogar pra dentro um café forte sem açúcar. Vamos nessa, dona Bianca.

*

Depois de deixar os filhos na escola Bianca foi direto para o trabalho ainda com sono. Vez por outra ela se estapeia na tentativa inútil de se manter acordada. Nada disso adianta muito. Antes de descer do carro ela retocou sua maquiagem. Calçou os sapatos e pronto. Hora de matar o primeiro leão do dia.

— Olá, bom dia. – disse aos rapazes que cuidam dos carrinhos de compra.

Um deles não consegue tirar os olhos da protuberância coberta pela calça social. Bianca realmente enche os olhos masculinos dentro e fora do local de trabalho.

— Gente! Qualquer coisa estou em minha sala.

Seria muita ingenuidade da parte de Bianca achar que todos ali já não tenham conhecimento do término de seu relacionamento. Os olhares e as conversas ao pé dos ouvidos nos corredores denunciam isso. A nova membro do clube das mulheres divorciadas acaba de chegar: Bianca Dias. Dane-se! Pensou entrando em sua sala. Divorciada sim, morta nunca. Sim! Claro que existe vida depois do fim de um casamento. Evidente que existe esperança depois de Marcos Fernandes. O casamento acabou, porém a beleza da vida continua firme e forte.

Durante o expediente o sono e o cansaço bem que tentaram abatê-la, mas nada como um bom pepino – e daqueles – que não resolva. Bianca precisou usar de toda sua experiência e jogo de cintura para tentar contornar a situação. E conseguiu.

— Resolvido, senhor? – entrelaçou os dedos.

— Sim! Muito obrigado.

Às 15 horas Bianca passava o bastão para a gerente da tarde decidida a chegar em casa e dormir sem culpa alguma. Na volta para o conforto do lar um pouco mais cansada e sonolenta, ela preferiu seguir por outra via a fim de não pegar trânsito. Péssima ideia. Bem a frente, ao lado de um posto de combustível há um motel três estrelas, o mesmo frequentado por Marcos e ela no início do namoro. Tirando Bianca, Marcos adorava a comida servida ali e fazia questão de escolher sempre a mesma. Lógico que as idas àquele lugar eram feitas às escondidas. Caso o pai da menina soubesse que sua filha andava transando num quarto de motel de beira de estrada, era arriscado o velho Dias ter um infarto na mesma hora. O casal só deu um tempo nas “travessuras" quando Bianca suspeitou de uma gravidez deixando Marcos sem chão.

— Meu Deus! E se você estiver mesmo grávida? – disse se descabelando.

— O jeito será casar.

Bianca não estava grávida, mas bem que gostaria que estivesse. Época boa! Por que a vida gosta de aprontar poucas e boas com as pessoas? Por que gente como ela precisa seguir em frente mesmo sem forças para reagir?

*

Crianças devidamente alimentadas e limpas brincam num dos cômodos da singela casa espalhando seus brinquedos e bloquinhos com desenhos para colorir em toda parte. Bianca aproveitou o raro momento de trégua das atividades do lar para tirar pelo menos uma hora de sono atrasado. E assim foi.

Perto das 19 horas ela acordou com o alarme do telefone berrando embaixo do travesseiro. Achando em se tratar de um sonho, a gerente soltou um grito estridente chamando pelo nome  de cada um dos filhos. Como num passe de mágica, os rebentos surgiram no quarto da mãe reivindicando o atraso do lanche da tarde. O celular segue tocando.

— A mamãe já vai preparar o jantar. – atendeu a ligação. – oi, amiga. Não, acabei de acordar. O que foi?

— A fila andou.

Bianca sentou-se na cama.

— O que?

— O seu ex.

— O que tem o Marcos? - levantou-se. 

— Ele está aqui na praça de alimentação do shopping tomando um chopp com uma loira artificial. Quer que eu lhe mande uma foto?

De repente Bianca se viu acometida por diversos sentimentos. O ódio era o principal deles.

— Pode mandar. Quero ver a cara dessa vaca.

Dez segundos depois a foto chegou. Rapidamente Bianca a abriu.

— O pior é que a filha da mãe é bonita. FIM. 


Os Novos velhos caminhos


Marcos estacionou seu veículo bem a frente da centenária amendoeira que fica na calçada da casa onde morou. Vale lembrar quantas foram às vezes em que ele ligou para a companhia de parques e jardins para a remoção da mesma, uma vez que suas raízes já danificaram bastante o calçamento. O sábado começou bonito. O Sol não está tão forte. Vento fraco a moderado e muitas boas expectativas brotando dentro dele para o fim de semana com seus filhos. Pela manhã um futebol na pracinha. Almoço no shopping e à tarde um cineminha com direito a pipoca, refrigerantes e sorvetes à vontade. Hoje tem tudo para ser um dia especial. Duas batidas no portão e logo se ouviu a voz do menino mais velho anunciando a chegada do papai.

— Olá, filhão! – abriu os braços assim que o menino escancarou o portão. 

— Pai! – o abraçou segurando a bola. – já podemos ir?

— Só vou acertar algumas coisas com sua mãe e já vamos. – apertou o nariz do rebento.

Logo na entrada era possível notar diversas mudanças e até a presença de outros móveis novos. Marcos não sabe explicar o porquê do incômodo uma vez que já não tem mais nada a ver com aquela velha realidade, mas ele ficou bem desconfortável. Bianca estava na cozinha, em pé, terminando de preparar algo como frango ou qualquer outra coisa parecida. Shortinho jeans curto e justo e uma blusa solta, aparentemente sem sutiã.

— Opa! – disse ruborizado. 

— Bom dia. – seguia mexendo a panela.

— Eu já vou indo com os meninos. 

— Divirtam-se.

Silêncio. O que está acontecendo?

Ele coçou o alto da cabeça criando coragem para perguntar. 

— Algum problema, Bianca?

Ela apenas meneou a cabeça. 

— Tudo bem com os garotos?

— Graças a Deus. – respondeu sem vontade. 

Outro silêncio. Ah, dane-se, pensou atravessando a porta da cozinha. 

— Ela vai estar? — Bianca desdenhou.

Marcos foi obrigado a cessar os passos em direção a sala ao ouvir tal pergunta. 

— O que? – levantou as sobrancelhas. 

— Ela, sua namorada. – falou experimentando a comida. 

— Do que está falando, Bianca, que namorada? – cruzou os braços. 

Bianca tampou a panela e desligou o fogo. 

— Marcos, na boa, relaxa. Eu só quero saber com quem meus filhos ficarão o dia inteiro. Só isso.

— Comigo. E...

Bianca olhou para ele aguardando a conclusão. 

— Eu pensei em você vir junto também. Vamos ao cinema à tarde. 

— Hum!

— Seria bom. Os meninos sempre perguntam por que você nunca vem com a gente...

Bianca abaixou a cabeça segurando o riso.

— Que filme vão assistir?

— Top Gun, Mavericks. 

Ela estava louca para assistir. Já havia inclusive combinado com Bárbara para irem juntas.

— Certo!

— Legal! Vou esperar lá fora com os moleques. – bateu palmas.

— Espere, Marcos. – Agora foi a vez de Bianca ruborizar.

— Sim? – girou nos calcanhares. 

— Você não está namorando?

— Não! – franziu a testa. – de onde tirou essa ideia?

Minhas amigas estão de olho em você por mim, ela pensou.

— Uma das meninas te viu no shopping com uma garota.

Marcos foi obrigado a gargalhar, isso deixou sua ex irritada e sem jeito ao mesmo tempo.

— Vou te falar uma coisa: da fruta que eu gosto, a Raquel come até o caroço. – outra palma. – estou lá fora aguardando. 

Como um balão esvaziando assim era o corpo da gerente reagindo depois dessa declaração de Marcos, não é preciso acreditar em tudo que falam pra você. Com as pernas moles, ela foi se trocar para encarar o melhor sábado de sua vida depois do divórcio. 

*

Foi mesmo especial como Marcos havia previsto. Brincaram na praça. Jogaram futebol. Correram. Almoçaram no shopping. Foram ao cinema. Durante a sessão, vez por outra eles trocaram olhares. Marcos sentia o coração bater na garganta e não era diferente com Bianca. Após o cinema eles lancharam no BK e pronto. Fim de sábado. 

Às 22:20 Bianca deixava o quarto dos filhos de forma silenciosa. Marcos mexia no celular em pé perto da porta da sala.

— Dormiram. – disse ela.

—Tadinhos, brincaram bastante hoje. Eu também vou bater na cama e apagar.

Bianca sorriu.

— Acabei de fazer o Pix da mensalidade da escola deles, certo? – bocejou.

— Porque não dorme aqui.

O que? Marcos ficou em choque.

— Se você quiser, é claro. – cruzou os braços. 

Ele olhou para o sofá. 

— Porque não, né?

Mais tarde o chefe de produção conferia suas redes sociais estirado no sofá-cama na penumbra da sala. De repente a luz da cozinha acendeu. Era Bianca. Ela vestia uma roupinha de dormir um pouco mais comportada, mas ainda sim sexy. Luz desligada e passos deixando a cozinha em direção ao quarto. Marcos segue mexendo no telefone. 00:58 mais uma vez a luz da cozinha se acendeu. Bianca abriu a geladeira e pegou um suco. Disfarçou olhando para seu ex deitado e ainda acordado.

— Perdeu o sono, quer suco?

— De boa. Valeu.

Luz desligada. O sono já começava a querer dominá-lo. Excitado, Marcos se tocou, mas não passou disso. 01:35 ele ouviu passos e aguardou a luz da cozinha se acender, mas isso não aconteceu. Ao retirar o celular da frente do rosto ele pode ver Bianca segurando o edredom e vestida com outra roupa de dormir e dessa vez ela não estava nem um pouco comportada.

— Tem espaço para mais um ai?

FIM