O Sol além da Chuva
Final
O caminho percorrido não foi fácil. Mas quem disse que perseguir um sonho é algo simples? Quase sempre na busca por um ideal travamos batalhas contra nós mesmos. O nosso maior e mais temido adversário se encontra dentro de cada um de nós. É preciso muita determinação para vencê-lo. Hortência e Gilson sabiam disso o tempo inteiro e só por isso eles se encontram sobre o palco juntamente com outros que não deram ouvidos ao desânimo. Agora eles são chefes formados, prontos para encarar o dia a dia de uma cozinha profissional.
— Chef Gilson e chef Hortência. Recebam com orgulho o chapéu, a doma e o certificado de conclusão do nosso curso de gastronomia. — Falou a reitora.
Na plateia Milena enquanto registra o momento batendo milhares de fotos da mãe e do futuro padrasto, seu coração transborda de alegria. A adolescente deixou fluir todo o sentimento através das lágrimas e foi ali que ela deu início ao seu processo de amadurecimento. Quero ser igual a ela.
Um pouco mais afastada, mas não menos emocionada estava Naiara, incansável nos aplausos. Seu coração também nadava em plena paz e assim como a filha de sua amiga ela também amadureceu.
— Parabéns, amiga, você merece.
No salão onde acontece a recepção, amigos, conhecidos e familiares se confraternizam degustando do melhor da culinária brasileira e italiana. Nada mais prazeroso do que saborear uma bela pasta ao alho e óleo.
— Então, vamos tirar da gaveta os projetos? — Perguntou Gilson beijando a mão de Hortência.
— Claro! Mas antes precisamos correr atrás dos recursos. O trabalho só está começando, meu querido. — o acariciou no rosto.
— E você, Naiara, o que pretende fazer? — perguntou Gilson garfando uma bela quantidade de macarrão penne.
— Pretendo começar minha faculdade de administração.
— Hum! — começou Hortência. — promissor, hein. Gostei. E você, filha?
Milena verificava no celular a qualidade das fotos.
— Eu ainda estou no ensino médio, mas já tenho uma noção do que vou querer fazer. Pretendo ingressar no militarismo. Aeronáutica.
Todos vibraram.
— Então teremos uma autoridade dentro de casa? — Gilson prestou continência. — É isso aí, Milli, é pra frente que se anda.
— Valeu, tio Gilsão.
Eles ainda permaneceram na festa durante um certo tempo, Hortência e Gilson não se desgrudaram nem para ir ao banheiro e quando o DJ decidiu deixar o que já estava muito bom ainda melhor, o aspirante a dono de restaurante levou sua namorada para o centro do salão para uma dança repleta de gingado. Apesar dos quilinhos a mais, Gilson é um baita dançarino. Sua alegria e empolgação contagiou a outros que embarcaram ao som de Seu Jorge.
O clima entre Milena e Naiara era ameno. Finalmente após vários dias sem conseguir ouvir sua voz ou sequer olhar para ela sem xingá-la a adolescente hoje permite que seu coração siga bombeando seu sangue em seu ritmo normal.
— É bom vê-los felizes, não é? — Disse Naiara segurando seu copo com refrigerante.
— Demais. — fotografou quando Gilson sambava ao redor de Hortência. — Naiara?
— Sim? — Terminou de beber.
— Desculpa pelo chute naquele dia na pizzaria.
— Se sua mãe me perdoou depois de tudo o que fiz, como posso eu não te desculpar?
Foi curto, porém um abraço que gritou para todos os cantos o quão importante é que os semelhantes se reconciliem.
*
Todos os dias ao abrir os olhos e se certificar se a mulher com a qual passou a noite bebendo, comendo e também cometendo as piores loucuras que somente uma mente pevertida consegue realizar, ainda se encontra deitada e roncando a seu lado, Magno Leite também tem ciência de que sua conta bancária anda sendo engordada por transferências via Pix de seus clientes não tão convencionais. Esse ritual é feito desde quando ele se divorciou e decidiu fazer daquilo que seu pai construiu com dedicação e suor honesto um antro de salteadores. Sim! O dinheiro está lá o deixando um pouco mais rico e com um sorriso que vai de orelha a orelha.
— Acorda vadia, hora de cair fora. — Empurrou a jovem negra para fora da cama com os pés.
— Ei, cara, calma aí. E o café da manhã que me prometeu? — A garota estava nua puxando o edredom.
— Que café da manhã o quê. Cai fora, qualquer coisa eu te ligo mais tarde. Preciso trabalhar.
Magno buscava por sua calça quando o som da campainha soou. O vestuário foi encontrado embaixo da cama junto às outras peças de roupa da garota de programa.
— Vista-se. — Falou saindo do quarto.
Mais uma vez a campainha gritou causando irritação ao advogado. Xingando, Magno abriu a porta.
— Senhor Magno Leite? — Perguntou um jovem agente com um colete da Polícia Federal acompanhado por mais quatro homens.
— Ele mesmo. — Engoliu seco.
— O senhor está preso por associação ao crime organizado e esquema de corrupção ativa. Vista-se e por favor nos acompanhe.
*
A notícia de que o famoso advogado Magno Leite fora preso pegou a todos de surpresa, menos a Hortência que o conhecia bem. Quando questionada, sua resposta é sempre a mesma “ um sujeito que não respeitava a própria esposa, que a humilhava, a agredia com palavras não poderia dar em outra coisa”. Claro que ela não comemorou sua prisão. Pelo contrário, apesar de tudo o que passou vivendo com ele, ela ainda acreditava que Magno pudesse ter dentro de si uma ponta de humanidade.
Mas hoje não é dia de pensar em coisas ruins. Hortência se encontra em um momento muito especial de sua vida. Ela está a pouquíssimos minutos de juntar as escovas de dente com Gilson e se for de permissão divina essa união durará até que a morte os separe. Do lado de fora do cartório, além dos amigos e familiares dos noivos, há de igual modo outros casais que mal seguram sua empolgação. Vendo sua apreensão, Hortência segurou nas mãos de seu futuro marido.
— Não me diga que quer sair correndo? — O beijou.
— Imagina. Certa ocasião eu trouxe um casal aqui. Eles estavam em ecstasy de felicidade e eu os invejando. — Riu. — De forma inconsciente eu declarei que um dia eu estaria no mesmo lugar que eles, sentindo o que eles estavam sentindo.
— E?
— Eu não sei a proporção da alegria que o casal sentia naquele dia, mas eu estou explodindo. Vou casar com uma princesa. Quem diria?
— Ah, para, você também está muito bem.
Pois é, foi uma manhã para ficar na história. Milena olhava para sua mãe sorridente ao lado do agora marido, sentados lado a lado naquele restaurante especializado em comida italiana com os pensamentos variando entre o presente e o passado. Aos olhos mais pessimistas, Gilson e Hortência jamais se cruzariam nem numa esquina. Eles são totalmente diferentes um do outro. Ela não nasceu para por uma aliança no dedo de um pobretão morador de comunidade fora dos padrões de beleza exigidos. Essa é a magia da vida. A felicidade pode estar justamente em lugares pouco prováveis. É bom vê-la feliz, pensou os fotografando.
Tempos depois
Naiara passou para as mãos de Gilson alguns documentos após uma minuciosa análise sob os olhares atentos de mais duas pessoas além de Hortência dentro daquele recinto arrojado e muito bem refrigerado.
— Já podemos assinar então? — Perguntou Hortência, não conseguindo conter sua excitação.
— Pode, claro que pode. — Autorizou Naiara.
Gilson se apossou de uma esferográfica azul assinando seu nome no local designado ao comprador. Em seguida sua esposa fez o mesmo. Ao deixar a caneta de lado ouviu-se aplausos e curtos alaridos.
— Parabéns, senhores. — Começou um homem magro de terno e gravata. — Espero ser convidado para a inauguração do Santos Passos II.
— Sinta-se convidado. E dessa vez será um bar e restaurante. Já consigo ver esse lugar abarrotado. — Gilson abriu os braços.
— E você, Naiara, acha que consegue dar conta de administrar dois restaurantes? — Hortência organizou a papelada.
— Do jeito que as coisas estão indo, tenho que me programar para o terceiro.
Todos riram.
Assim que chegou ao Santos Passos I, Hortência foi direto para a cozinha. Vestiu sua doma rosa passando pelo setor de lavagem dos pratos, talheres entre outras coisas acumulavam-se na pia. Nesta função haviam três pessoas e uma delas é Magno Leite que nem de perto lembrava o galã que um dia foi. Para Hortência ele era mais um lavador de pratos.
— Pessoal, como é? Daqui a duas horas o restaurante abre. Preciso desses pratos pra ontem.
— Sim, chef. — disse Magno entre os dentes.
FIM.