segunda-feira, 20 de abril de 2026

Potencialmente Mortal

 


Potencialmente

Mortal



Cinco e meia da manhã desta segunda-feira de poucas nuvens no céu. É bem provável que o dia seja quente, com os termômetros batendo trinta quatro, trinta e cinco graus. Foi assim a semana passada inteira e não será diferente nessa. O celular despertou mais uma vez e sua dona, mesmo dormindo, acionou o modo soneca. Cinco minutos a mais de sono faz toda diferença. O final de semana de Isadora foi bem descontraído. Na sexta-feira, assim que deixou o colégio onde é professora do ensino fundamental, ela bebeu e comeu com os colegas até tarde. Foram várias rodadas de cerveja e incríveis pedaços de pizzas. Isadora não é chegada a bebida alcoólica, nunca foi, nem mesmo quando seu ex marido comprava vinho para tomar beliscando um bom queijo ela o acompanhava. Sérgio se irritava pelo fato de sua esposa preferir ficar somente na água com gás ou Coca-Cola com limão.

— Afinal, eu me casei com uma mulher de verdade ou com uma freira? — dizia ele nos momentos de discussão.

Mais uma vez o celular a lembrou de que ela precisa se levantar e encarar cerca de vinte queridos alunos que não estão nem aí para os estudos. Chega de soneca. Isa afastou o lençol e se espreguiçou demoradamente até seus ossos estalarem por completo. Antes de esvaziar sua bexiga vale uma rápida olhadinha pela janela. O sol há de brilhar outra vez. Aos bocejos a professora sentou-se no vaso observando a sujeira em que se encontra seu banheiro e mais uma vez Sérgio lhe veio à mente. As brigas eram constantes, rotineiras e quase sempre pelos mesmos motivos. A falta de organização e de higiene por parte dele a fazia enlouquecer de raiva. Exatamente o banheiro era o fator principal.

— Será que você consegue mijar sem molhar a beirada do vaso? Você não mora sozinho não.

Essa era sempre a reclamação e todas às vezes terminavam em briga. Agora que Sérgio não está mais em casa, Isadora percebe que o problema não era só dele quanto a higiene. Ela prometeu que tiraria a parte da manhã do Sábado para uma faxina, mas nada disso aconteceu. Na sexta-feira ela foi dormir às três da madrugada e só conseguiu acordar ao meio-dia e mesmo assim porque alguém a ligou. Xixi feito, hora do banho. É bom sentir que a água tem esse poder de levar embora o suor, às impurezas e principalmente o sono. Queria ela que levasse a dor e a tristeza também. Se divorciar foi um alívio e tanto, mas os prejuízos causados por isso são devastadores. Sérgio foi o homem de sua vida até os cinco primeiros anos de casamento, depois disso ele conseguiu transformar o relacionamento num campo de batalha. O sonho de Isadora era ser mãe. Do fundo do coração ela gostaria de ter tido um filho ou filha com ele, porém o resultado das atitudes de seu ex fizeram com que esse sonho fosse deixado esquecido num canto qualquer de sua infeliz vida.

— Você não me deu filhos. — esbravejou no corredor na saída da sala do advogado.

— Acha mesmo que eu iria me deitar com você, depois de tudo o que fez? Só se eu fosse louca.

Que inferno. Viver ao lado de Sérgio era um filme de terror diário. A ruptura se fez necessária, mas dói bastante. A solidão e a incerteza são seus maiores vilões em toda essa história. Isadora ainda não se acostumou em ter que voltar para casa e a encontrá-la vazia e em silêncio. Aonde estão os sapatos espalhados? A música alta que a irritava tanto? O protetor do vaso sanitário urinado. Até isso, por incrível que possa parecer, ela sente falta. Isadora acredita que tudo isso seja resultado do costume. É verdade. Já não existia amor entre os pares, mas sim o costume. Sejamos sinceros, isso não era uma exclusividade do casal Sérgio e Isadora, boa parte dos relacionamentos só sobrevivem porque ambos já se acostumaram em viver juntos. Banho tomado, hora de escolher a roupa.

— Mas, isso é lá calcinha que uma mulher casada use? — disse Sérgio segurando a peça íntima com às pontas dos dedos.

Lá está ela, a calcinha vermelha. A maldita calcinha vermelha. A mesma que provocou a ira de Sérgio naquela noite de horror. Isadora a pegou de dentro da gaveta já rindo, agora não sou mais casada, qual o problema em usá-la? A toalha que envolvia seu corpo foi tirada. A professora vestiu a peça e passou a se admirar diante do espelho. Realmente, Isadora ficou a cara da sensualidade. A calcinha é realmente menor alguns números ou ela engordou um pouco? Isso não importa. O que importa de fato é que na época, Isadora queria fazer uma surpresa ao marido e ele simplesmente jogou água em sua fogueira usando essas palavras.

— Parece uma vadia.

Pois é. Sérgio já não servia mais para ser seu marido mesmo. Hoje ela percebe o tempo que perdeu vivendo com ele, aturando suas grosserias e sua arrogância. Foram dias dignos de esquecimento. Dias que ela não deseja nem para seu maior desafeto. Ela agora só quer paz, seguir sua trajetória sozinha sem interferência masculina alguma. Isa terminou de se arrumar. Se perfumou. Prendeu os cabelos e se foi. A segunda-feira só está começando.


*


Atrasada como sempre, hein dona Isadora Corrêa. Ele deixou seu carro na rua - mal estacionado diga-se de passagem. Ela passou pelo tiozinho responsável por controlar a entrada dos alunos tentando equilibrar seu material num braço e segurar sua bolsa no outro.

— Bom dia, dona Isadora, a senhora está enrolada, posso lhe ajudar?

— Bom dia, seu João, só segure os livros, por favor.

A grande preocupação de Isa não era a queda de seu material, mas sim se sua diretora já havia chegado.

— Não, dona Lucimar ainda não chegou. — informou o velho admirando aquela beleza de mulher bem a sua frente.

— Ufa! Graças a Deus. — respirou aliviada. — deixa eu voar para a sala.

Isadora passou, mas deixou o velho porteiro João hipnotizado olhando para sua protuberância marcada pela calcinha.

— Pena que eu não aguento mais com essas coisas.

A segunda-feira tem lá seus mistérios. Às coisas acontecem de forma mais lenta, bem devagar mesmo. Todos, menos os alunos, ainda estão sob o efeito do final de semana. Isadora entrou em sua sala e seus “anjinhos” já estavam ligados no 220.

— Bom dia, crianças, como foi o fim de semana, fizeram a tarefa?

Dos vinte alunos presentes, somente cinco responderam positivamente. Isa já esperava por isso, não vale a pena sofrer. O jeito é pedir um café para a funcionária que varre o corredor no momento e iniciar suas atividades.

— Ok, agora todos quietinhos.

De nada adiantou o apelo para que ficassem calados enquanto ela tenta dar as explicações. Isa é professora a um pouco mais de sete anos e ainda não conseguiu entender por que os rebentos não conseguem ficar calados um minuto sequer e pelo andar da carruagem ela também desistirá de tentar achar uma resposta para isso. Início da semana é assim mesmo, empurramos o dia e só no final é que veremos no que deu. É assim sempre.


A parte da tarde costuma ser mais tranquila e isso em todos os aspectos. As turmas são poucas e as crianças também. Essa sensação não é uma exclusividade só de Isadora, outros professores sentem a mesma coisa. Isa se arrisca em dizer que prefere o turno da tarde do que da manhã. Às 17h o sinal berrou anunciando a melhor parte do dia. As comemorações vindas das salas contaminaram os ouvidos da diretoria.

— Esse é o futuro do nosso país — lamentou a diretora largando a caneta.

Hora de voltar para casa. Algo estranho aconteceu hoje, Isadora passou o dia inteiro salivando pensando na deliciosa comida Japonesa vendida a alguns quarteirões do bairro onde mora. Ela se recordou também das vezes em que Sérgio no início do casamento fazia surpresa levando para ela alguns sushis e bolinhos de salmão frito. Nossa, que época gostosa. Tudo era novidade e sua vida ainda não havia se transformado num inferno na terra. Isa deu partida no carro disposta a encarar dois quilômetros a mais para satisfazer sua vontade, mas é lógico que ela conferiu se o cartão de crédito a acompanhava. Aliviada ao vê-lo no fundo da bolsa, hora de partir rumo ao mundo das delícias.


*


Duas horas depois de aberta a lanchonete se encontra lotada. Alguns já degustam o lanche saboroso sentados confortavelmente em cadeiras de assento e encosto acolchoados. Outros aguardam seus pedidos no balcão. Esse é o caso de Moisés. Bastante paciente enquanto aguarda a chegada de seus sushis, ele passa a observar o movimento intenso da loja e lamenta não ter dinheiro para investir numa lanchonete ou restaurante de comida japonesa. Não que ele esteja insatisfeito com o seu trabalho como técnico de conserto de celulares, mas sonhar não custa nada. Porém o que atrai realmente o rapaz de olhos azuis como piscina são as mulheres. Não importa se elas estão acompanhadas, tudo o que ele quer é ser o centro das atenções para com elas e Moisés sabe como ninguém como fazer isso. O mundo trata melhor quem fala e se veste bem, por isso o motivo de sua indumentária impecável. Calça jeans, sapatos marrons de bico fino muito bem engraxados, camisa azul marinho e um blazer preto sem gravata, cabelos cortados e divididos para o lado direito. O cara é um tremendo boa pinta. Ele sabe que é.

Cinco minutos depois de fazer seu pedido, Moisés consultou seu relógio. A paciência começou a dar sinais de estar acabando. Ele tirou o peso do corpo de uma perna e o jogou para outra, foi quando uma moça usando um uniforme de colégio particular ocupou o lugar vago bem a seu lado. Moisés não pode deixar de reparar no conjunto da obra, principalmente na paixão nacional. Isadora ainda não percebeu que vem sendo comida pelo olhos de um bonitão a dois metros de distância dela. A professora girou o pescoço a fim de conferir o movimento da loja quando seus olhos se chocaram com os de Moisés. Três segundos, apenas três segundos foram o suficiente para que o galã lançasse todo o seu poder de atração para cima da gata. Mulheres são totalmente diferentes dos homens no que se refere à paquera. O homem é mais intenso, dominador, quer de todo jeito mostrar que está afim. Já a mulher é mais contida, não sustenta tanto o olhar, porém emite sinais de que está gostando do flerte. Isadora imediatamente sacou o celular e fingiu estar vendo algo nele, mas na verdade ela o fez de espelho. Moisés percebeu e viu nesse gesto uma oportunidade de entrar de vez nesse jogo.

O tempo está passando e o técnico em conserto de celulares precisa puxar assunto com ela e rápido. O que fazer? Outra vez eles trocaram olhares e dessa vez o tempo foi maior. Moisés precisa agir rápido, ele não pode deixar que a diva a seu lado escape sem ao menos um elogio de sua parte. O coração disparou. O sangue ferveu e ele não conseguiu controlar às palavras que simplesmente brotaram de sua boca. O que saiu foi ridículo, mas foi o que ele pode fazer.

— Também amo comida japonesa. — ajeitou o blazer.

— Sim! Aqui, particularmente, é bem legal.

Moisés precisa fazer com que o papo flua, nem que para isso ele minta.

— E como vão as coisas nessa escola? — pigarreou.

— Vão indo, por que, você já lecionou lá? — Isa apertou os olhos.

— Não, não. Eu prestei meus serviços de técnico em informática durante um tempo, freelancer.

— Ah, sim, legal.

Silêncio constrangedor.

Nesse interregno o pedido do bonitão chegou. Isadora fez sua habitual leitura de um homem. Enquanto Moisés efetuava sua compra usando o cartão de crédito, a professora reparava no seu modo de ficar em pé, como ele trata as pessoas, o jeito como ele guarda sua carteira no bolso do paletó, enfim, Ela fez uma varredura completa no sujeito e lamentou o fato de ainda se encontrar machucada por causa do recém divórcio. Isadora por enquanto não quer ninguém do sexo masculino ocupando o mesmo espaço que ela. Moisés liberou a atendente e se voltou para a professora.

— Mora longe? Se quiser posso lhe dar uma carona?

— Ah, tranquilo, eu estou de carro.

Pois é! Por essa Moisés não esperava, foi preciso mudar de estratégia.

— Me chamo Moisés, Moisés Santana, muito prazer. — estendeu sua mão fina e delicada. Sem hesitar, Isadora o retribuiu.

— Isadora.

O lanche dela chegou. O rapaz acompanhou tudo de longe. Na saída os dois tiveram uma última conversa parados na porta, nada muito formal, coisas do tipo, “ah, como o dia foi quente” “será que vai chover?” “e o ótimo preço dos produtos do restaurante?”. Eles se despediram ali. Cada um foi numa direção. Direções opostas, porém ambos com o mesmo pensamento. É legal conhecer alguém que te faça sonhar e imaginar como seria a vida com ele ou com ela. Mesmo Isadora não querendo se comprometer com ninguém — pelo menos por enquanto — é bom demais saber que, apesar dos pesares, ela é ainda alvo da paixão de alguém. Ela entrou no carro e tentou evitar o inevitável. Pelo retrovisor Isa pode ver o bonitão parado na frente do que seria seu carro olhando para ela. “devo lhe dar um tchauzinho ou seria muita fraqueza da minha parte?”. O tchauzinho não aconteceu, foi substituído por duas leves buzinadas às quais Moisés retribuiu com um gesto rápido erguendo um dos braços.

Já em casa matando a vontade de comer comida japonesa, Isadora encontra-se mais uma vez dividindo os pensamentos. Sérgio e Moisés. Passado e presente. Sérgio já provou por A mais B do que ele realmente é capaz. Um destruidor de sonhos, um assassino de sentimentos. Nem que ele fosse o último homem existente no mundo ela iria se relacionar outra vez com ele. Moisés está fora de cogitação. Ela nem o conhece, não sabe onde mora e nem o que faz. O lado bom de toda essa história de divórcio é que você passa a ver às coisas com mais clareza. Coisas que outrora eram encobertas pela paixão tornam-se tão nítidas quanto o sol do meio-dia. Isadora não pode e nem deve falhar novamente, isso seria sua destruição. Nesses casos, não há remédio melhor que o tempo. É ele quem vai determinar o que será feito. Enquanto isso, lá fora, Moisés olha para a janela da sala. Sim, claro que ele a seguiu até lá. O que é um homem fissurado, apaixonado, um lobo na verdade. Agora ele sabe onde ela mora, o resto ele o fará com calma.


*


Curiosamente Isadora sonhou com o lindão que conheceu no dia anterior. Eles conversavam sentados no mesmo restaurante japonês comendo sushis e jogando conversa fora. De repente Moisés segurou em suas mãos e lhe pediu em casamento, o que ela aceitou sem hesitar. O beijo foi longo e sufocante. Isadora foi salva pelo toque do celular despertando. O mais incrível é que ao acordar ela tinha na boca o gosto do beijo e isso a excitou bastante. Sem problemas, nada que uma ducha gelada não resolva. Isa saiu devagar com seu carro sendo observada por Moisés sorrindo “ hoje ela está mais linda do que ontem, como pode isso?”. Se Moisés tem a pretensão de segui-la até o trabalho? Lógico que sim, aliás, isso não saiu de sua cabeça a noite toda. Ele aumentou o volume do rádio do carro assim que uma música lenta internacional começou a ser executada.

— Minha Isadora, minha professorinha.


Na hora do almoço, mesmo sob os murmúrios de várias vozes ecoando naquele refeitório mal ventilado, Isa e outra professora conversam e dão risadas dos casos contados por ela.

— E foi isso. — mexeu o suco com o canudo.

— Só isso, nem trocaram contatos?

— Não. Eu ainda estou me recuperando de tudo que houve. — segue mexendo a bebida.

— Entendo, mas, a fila precisa andar, você ainda é nova, Isa.

— Eu sei Raquel, mas, é complicado demais. Às vezes penso que Sérgio me amaldiçoou.

— Amiga, quer um conselho?

Isadora apenas olhou para a colega de profissão.

— Há coisas que só existem em nossa cabeça. Quase sempre não há nada acontecendo, mas teimamos em achar que estar. Vire a página e escreva outra história.

— Tem razão. Obrigada.

Moisés tirou os óculos de sol para enxergar melhor a fachada da escola. O prédio foi reformado e sua pintura reforçada. O trabalho ficou bom demais. Mas o que lhe atraiu até ali não foram as cores frias das paredes e nem a construção moderna do prédio. Isadora o levou até ali com sua beleza natural, com seu cheiro e sensualidade. Só em pensar a saliva já escorre pelos cantos da boca feito um felino faminto.

— Isadora! – balbuciou.


O dia foi bastante produtivo. Pela primeira vez ela conseguiu fechar duas matérias e isso foi muito bom já que o período das avaliações estão às portas. Isadora deixou a escola faltando poucos minutos para as dezoito horas. Não estava cansada, porém louca por um banho refrescante e quem sabe curtir o restante do dia lendo um romance. Tudo isso foi planejado, desejado, mas ao deixar o carro na garagem e conferir suas correspondências na caixa de correios tudo mudou. Em meio as faturas, encarte de supermercado e panfletos de pizzarias, havia uma carta.

— Carta?

O espanto de Isadora tem motivo, afinal, quem nessa época ainda envia cartas? Ela amassou o resto e os jogou num canto da garagem. Caminhou até a porta abrindo a tal correspondência. Já dentro de casa, para sua surpresa — e bota surpresa nisso — a carta foi escrita a mão e por Moisés Santana. O coração bateu forte colocando um sorriso de menina apaixonada no rosto. A última vez que Isa recebeu uma cartinha de amor foi quando ainda era uma pré adolescente na escola. Havia um garoto, dois anos mais velho que ela. Carlos era o nome dele, disso ela se lembra bem. Isadora não gostava dele, queria distância do indivíduo. Carlos era gordinho e desengonçado, tinha um jeito de andar que arrancava gargalhadas dos outros alunos. Nem em sonho ela ficaria com um cara daquele tipo. Mas uma coisa Isa teve que admitir, Carlos escrevia muito bem. Certa vez ela deixava a sala de aula quando esbarrou nele no corredor.

— Me desculpa, só queria que ficasse com essa carta.

— Carlos, por favor, não podemos ser só amigos?

— Antes de tomar qualquer decisão, peço que leia, essa será a última, lhe deixarei em paz.

Na hora de recreio Isa procurou um canto mais reservado para lanchar e ler a tal da última carta do chato do Carlos. A fome desapareceu assim que a última palavra foi lida. Realmente ele havia caprichado naquela. Isadora andou pelo pátio inteiro a procura dele e o encontrou sozinho — como sempre — devorando um sanduíche.

— Depois da aula, me encontre na esquina da minha casa.

— Sim? — Carlos deu de ombros.

Pois é. Foi ali, debaixo de um sol forte que Isa desvirginou a boca do pobre Carlos. Ela tinha certeza de que ele nunca havia beijado alguém além da própria mão e não fez feio. Até que ela gostou do beijo. Durou pouco, mas valeu muito. 

— Escute. — disse Isa segurando o rosto grande de Carlos. — não ficaremos juntos, mas saiba que você tem um lugar reservado no meu coração.

Carlos estava em estado de choque.

Hoje, aos trinta e seis anos, mais uma vez ela recebeu uma cartinha e isso ajudou a melhorar um dia que já havia sido muito bom. “Moisés. Ele realmente está caidinho por mim”.  Agora, um pouco mais relaxada, a professora começa a levar em consideração tudo o que foi conversado no refeitório com Raquel. Recomeçar, essa é a palavra certa. Investir num novo relacionamento depois de tudo o que aconteceu no anterior jamais será uma coisa fácil, afinal de contas, o trauma é forte e de vez em quando ele afeta suas lembranças. Moisés Santana pode ser um gato, sedutor, de repente bem sucedido, mas, Isa sempre terá um pé atrás. A carta continua em suas mãos. Ela ainda não leu o restante do recado, mas já imagina o que seja: Querida Isadora, desde o nosso último encontro não consigo lhe tirar da cabeça, passo o dia inteiro pensando em você. Me ajude aceitando jantar comigo. Assinado: Moisés Santana.

Inspirando e expirando feito as mulheres apaixonadas de telenovelas mexicanas, Isa começou a ler o conteúdo da carta.

Em primeiro lugar lhe digo que foi um imenso prazer em conhecê-la e em segundo informo que terei o prazer de lhe cortar a garganta.

Isadora sentiu uma descarga elétrica circular por todo o corpo e isso a deixou meio zonza. Como assim, cortar minha garganta, ficou louco? Pensou. Seguiu lendo.

E não adianta pedir ajuda a ninguém, principalmente da polícia. Nada poderá evitar seu assassinato, mas antes pretendo me divertir um pouquinho. A senhorita me verá mais uma vez, serei sua sombra. Talvez, se olhar agora pela janela você me verá do outro lado da calçada, mas acredito que no momento em que estiver lendo essa mensagem a senhora estará em pânico. Bom! Me despeço Agora. Breve nos veremos outra vez.

— Meu Deus, é sério isso? — disse se levantando e correndo até a janela.

Lá fora a vida segue. Carros passando. Gente indo e vindo. Sons, ruídos e... nada de Moisés. Nos veremos de novo, Isadora. Ela fechou a janela e também a cortina. Ele pode muito bem estar observando-a lá de fora. Moisés Santana, de repente esse nome, nome do maior profeta bíblico se transformou em um pesadelo. Isadora quando deu por si estava com todas às entradas e saídas lacradas, nem mesmo a porta do banheiro foi esquecida. Ela deu uma corridinha na ponta dos pés até seu quarto e bem devagar foi afastando a cortina e abrindo a janela. Ninguém como Moisés. Ninguém! Isso a deixou mais calma, mas só um pouco. Ela se deitou, mas não fechou os olhos. Ergueu o tronco, melhor ter uma arma por perto. Foi até a cozinha e pegou na primeira gaveta uma faca serrilhada e voltou para o quarto, agora sim me sinto mais segura. O que pode ter acontecido? Que diabos ela pode ter feito para desencadear tamanho ódio por ela? O que? O que? O que? Era para ser diferente. A carta deveria conter palavras de paixão, declarações de amor a primeira vista e não uma ameaça de assassinato, vou cortar sua garganta. Ele precisa de ajuda, alguém precisa ajudá-lo imediatamente antes que ele cause dano a alguém, ou melhor, cause dano a ela.


*


Moisés a penetra devagar, sem pressa. Isa gosta, diferente de outras mulheres, ela prefere os homens mais delicados. Chega de ser quase estuprada como era com Sérgio. Ter pegada é diferente de ser um toglodita. Ela sente seu parceiro totalmente dentro dela a fazendo flutuar entre às estrelas. Moisés aproveitou que ela se encontrava com os olhos fechados para pegar um punhal debaixo do travesseiro. Num gesto rápido cortou sua garganta. Desesperada Isa tenta conter o sangramento, mas é inútil. O celular tocou a salvando do pesadelo. Com os cabelos grudados no rosto e no pescoço por causa do suor, a professora deu um salto da cama conferindo se realmente estava sozinha ali. Sim, ela estava. Voltou para a cama e achou sua faca embaixo do travesseiro. O sono infelizmente não fez o trabalho dele que é descansar o corpo para mais um dia de labuta. Isadora sentou-se na cama ainda com muito sono e exausta. Ela até cogitou a possibilidade de não ir dar aula, mas de nada adiantaria ficar em casa. Moisés sabe onde ela mora, o que o impede de arrombar sua porta e concretizar sua ameaça? Durante o banho ela pensou em ligar para Sérgio, mas talvez ele não acredite na história. Do jeito que seu ex é, é capaz de pensar que Isa esteja tendo uma recaída ou queira apenas tirar o atraso de meses sem sexo. Não, isso não, jamais.

No trânsito, parada no congestionamento, além do nervosismo habitual pelo possível atraso, agora ela precisa conviver com o fato de que a qualquer momento Moisés aparecerá. Que coisa terrível, chata. Por via das dúvidas ela trouxe sua faquinha serrilhada. De repente um homem atravessou a via, se desviando dos veículos. Muito tensa Isa apertou o volante e piscou algumas vezes. Era Moisés, sorrindo, na mão esquerda seu punhal. O grito não saiu. Ele parou bem ao lado de sua janela e tocou duas vezes no vidro com os nos dos dedos.

— Ei, moça, posso lavar seu para-brisas? — perguntou o menino segurando um mini rodo e um balde com água e sabão.

— Aí, Meu Deus, você me assustou. — procurou algumas moedas na bolsa. — toma, não precisa limpar nada.

— Valeu tia!

Tia é uma ova! 

O medo tem a capacidade de fazer nossa mente criar monstros, situações irreais. Medo é uma boa palavra para descrever o que Isadora Corrêa sente nesse momento. Ela nunca esteve tão ansiosa para chegar ao trabalho. Pelo menos lá ela se sentirá mais segura. Assim que o trânsito melhorou seu veículo cortou para uma rua onde a possibilitará de chegar na escola antes que o primeiro sinal seja acionado.

Moisés aguarda parado perto do portão de entrada de veículos. Sempre bem vestido e muito bem apresentável, ninguém, absolutamente ninguém desconfia de que aquele sujeito ali parado fingindo conferir algo importante em seu celular é na verdade um lunático, alguém altamente perigoso esperando sua potencial vítima chegar. Ele se encontra ali em pé a mais ou menos uma hora e poucas foram as vezes que alguém o notou. Tirando as meninas que não conseguem passar sem olhar para ele, mais ninguém suspeitou de nada. Ele olhou para o carro de Isadora se aproximando. Guardou o telefone no bolso e abriu o seu melhor sorriso. Dentro do carro a professora quase teve um ataque de pânico, é ele, é aquele desgraçado! 

O funcionário responsável pelo portão demorou um pouco para perceber a chegada de mais um veículo e isso foi um prato cheio para Moisés que não parava de acenar. Isadora não sabia o que fazer. Ela poderia muito bem retribuir o gesto e fingir que nada havia acontecido, mas uma coisa dizia no olhar dele para ela: Ele sabe que eu li a porcaria da carta, consigo ver isso em cada gesto desse miserável. O portão foi aberto. Os pneus rasparam na calçada forçando o funcionário a sair da frente do carro.

— Mil desculpas, Chico. — disse nervosa.

— Que nada professora, isso acontece.

Assim que estacionou seu carro, Isa ainda pode vê-lo passando pelo portão e atravessando a rua. Era só o que ele queria. Assusta-la, deixá-la desnorteada e conseguiu. Isadora não foi mais a mesma pessoa desde então. Vou cortar sua garganta. O que fiz para tamanho ódio por mim? Eu talvez aceitasse sair se ele por um acaso insistisse. Por que fazer da minha vida um inferno? Pensou. Ministrar aula foi complicado demais, chato demais, ruim demais, tudo o que ela queria era sumir. Por diversas vezes Isa se viu abandonando suas crianças para olhar pela janela e permanecer ali, parada, em pé por longos minutos até ser retirada de seus devaneios por um de seus anjinhos.

— Tia, a senhora está bem?

— Ah, oi, sim, estou bem sim, vá se sentar.

E se eu o matasse? Todo esse pesadelo terminaria ou se intensificaria? Claro que não, dona Isadora. Você não é uma assassina, acabaria na cadeia por causa de um Zé ninguém como Moisés Santana. Com pensamentos como esse fervilhando em sua mente, Isa entrou em casa. Exausta. Louca por um banho relaxante. Ao invés de retirar todo o uniforme e correr para o banheiro, ela preferiu se jogar no sofá e fechar os olhos e adormecer.

Sérgio a segurava tão forte lhe aplicando um tipo de chave de braço que Isa tentava gritar e não conseguia. Moisés a penetrava com violência deixando escapar saliva pelos cantos da boca. Estuprada. Sim, Isadora era brutalmente violentada por Moisés com o consentimento de seu ex marido. Ela queria gritar mas a voz não saia, estava rouca, já havia berrado demais.

— Isso mesmo meu amigo, acabe com essa vagabunda. — falou Sérgio bem perto de seu ouvido.

Outro pesadelo. Isadora abriu os olhos e a casa estava um breu infernal. Mais do que nunca, agora ela precisava de um banho. Ao consultar o horário em seu celular ela se assustou ao perceber que dormiu cerca de três horas ali largada no sofá, presa fácil para Moisés. Devo ligar para Sérgio e contar a ele o que está acontecendo? Pensou entrando no box. Acho que não, Sérgio é um escroto, tiraria sarro de mim provavelmente. De qualquer forma alguém precisava ficar sabendo caso acontecesse alguma coisa com ela, Moisés terá que responder por seus atos. Nessas horas ela dá graças a Deus por ter guardado a carta em lugar seguro. O banho foi bom, porém não foi capaz de lhe despertar totalmente. Ela deixou o banheiro enrolada na toalha e até hoje ela não sabe por que ainda tem esse hábito, uma vez que se divorciou e não há mais ninguém além dela na casa. Sim, Isa é uma mulher precavida, sempre foi. Moisés pode estar lá fora observando, segurando seu punhal, louco por cortar sua garganta. A casa é abafada e fica ainda pior com todas as portas e janelas trancadas. Depois de se vestir, nada muito quente, apenas uma camisa dez números maior que o dela e um shortinho rosa. Procurou nos contatos do WhatsApp o número de Raquel e enviou uma mensagem. Raquel estava online.

Preciso falar uma coisa com você, amiga?

Raquel está digitando...

Oi, diga, aconteceu alguma coisa?

Não, quer dizer, na verdade sim, lembra do bonitão do restaurante japonês?

Ah, sim, e aí, você entrou em contato com ele?

Não. Ele entrou em contato comigo e...

Veio a memória de Isa às palavras de Moisés na carta, não adianta pedir ajuda a ninguém, nada e ninguém poderá  evitar sua morte!

E?

Isadora está digitando...

Foi meio confuso, não sei bem o que ele quis dizer.

Vai dar uma chance pra ele?

Uma chance para Moisés me matar?

Ainda estou insegura, preciso me curar de certas coisas. Vou dormir agora, tive um dia cheio. Boa noite.

Fica com Deus, querida.

Deus? Por falar Nele, aonde Ele se encontra que não está aqui me protegendo? Pensou se deitando e relembrando o que sua finada mãe lhe contava todos os dias antes dela pegar no sono. 

— Deus está em todos os lugares e ao mesmo tempo. — disse acariciando a testa da filha.

— Sério, mãe, e como Ele consegue isso?

— Ele é poderoso, filha, tem anjos a sua disposição, trabalhando duro vinte quatro horas por dia, tudo isso para nos proteger.

— E onde está Deus agora?

Sua mãe abriu um sorriso exageradamente lindo, coberto de paz e de certeza. Ela disse.

— Ele está dentro de você, dentro de cada um de nós.

Como pode Deus habitar dentro de alguém como Moisés? Como? Se Ele é um ser puro, criador do amor, como pode ter criado Moisés que é munido de pura maldade? Melhor não tentar entender essas coisas. Nesses casos o melhor a se fazer e esquecer e dormir. E por falar em Deus, Isadora também traz à memória o fato de não conseguir fazer uma oração, ou prece faz algum tempo. Seria essa uma boa ocasião para isso? Claro que sim. O ser humano tem um péssimo hábito de procurar ajudar( principalmente ajuda divina) quando se encontra em extrema dificuldade ou a beira da morte. Antes de fechar os olhos e dormir, mesmo sem saber fazer direito uma oração, Isa fez e se sentiu um pouco mais aliviada. Em questão de segundos ela adormeceu.


*


Finalmente o sábado chegou. Dia de acordar um pouco mais tarde. Dia onde conseguimos fazer uma faxina completa na casa, passear na rua sem se preocupar com compromissos ou com o horário. Assim é também com a professora. Isa acordou às onze da manhã. Foi uma noite perfeita, ela não se lembra do que sonhou, mas não importa. Sua mente foi renovada e ela estava louca por uma corrida ao redor da praça perto de seu bairro. Assim que terminou seu desjejum ela partiu para a atividade física que ela mais ama, correr. Toda mulher sabe quando ela é bonita e atraente e isso não é diferente com Isadora.  Propositalmente ou não, ela ostenta um corpo cheio de curvas e uma pele que parece ser cuidada pelas maiores deusas da beleza. Os homens, frequentadores daquele espaço não disfarçam seus olhares para a morena de cabelos longos e castanhos claros. Um deles ao passar por ela, não consegue conter a cantada.

— Ô lá em casa!

Isa está acostumada, por isso nem fez questão de sequer olhar para a cara do sujeito. Isadora resolveu voltar para casa correndo. É uma boa distância, mas vale a pena arriscar. Ao sair da praça e antes de atravessar a rua, ela deu uma rápida olhada para trás.

— Essa não!

Moisés Santana, há poucos metros dela, também em traje esportivo, vindo em sua direção com aquele sorriso infernal. Isa não esperou o sinal fechar, atravessou cortando os carros e ouvindo xingamentos e buzinas. Ao chegar do outro lado ela parou e viu seu perseguidor aguardando o semáforo abrir para os pedestres. Ele fez um gesto pedindo que ela o esperasse. Seria burrice demais de sua parte esperar o leão para ser devorada por ele. Isa voltou a correr. Ainda faltavam alguns metros até sua casa, por isso ela forçou um pouco mais a corrida. O cansaço já começa a bater forte a obrigando a parar ou diminuir o ritmo, mas ela não pode. Moisés está logo atrás dela, o desgraçado não se cansa? Ela passou por um supermercado. Parou. Pensou em entrar e se proteger lá dentro, quem sabe comprar uma faca. Só quando deu seu primeiro passo em direção a entrada foi que lembrou de que não havia levado dinheiro, merda de vida. Voltando a correr, ela o viu chegando perto demais, Isa queria gritar, chorar, pedir ajuda, mas não, ela não fez isso.

Agora só faltam duas ruas e Moisés segue com sua corridinha marota. Isa, já desesperada, ofegante, suada, sente às pernas fraquejarem, por que não me pega logo, você está mais inteiro do que eu. Aperte o passo e me alcance seu maldito. Hoje Isadora se certificou de que está lidando com um sujeito perigoso e o que é pior, ele não tem medo. Ele sabe que ela enquanto vítima poderia muito bem fazer um escândalo no meio da rua ou simplesmente parar uma viatura da polícia e dizer que vem sendo perseguida, mas Moisés tem um álibi perfeito, essa mulher é louca, eu estou me exercitando também, ele diria isso com certeza. O jeito é continuar correndo. Ela entrou numa rua de paralelepípedo sem muito movimento de pessoas e também de veículos. Seus pés sentiram a diferença e Isa se desequilibrou caindo de joelhos.

— Aí, droga!

Joelho ralado, com medo e cansada, péssimos companheiros. Moisés passou por ela correndo forte e roubou seu boné falso da Nike de sua cabeça.

— Filho da... — Isadora não é de xingar, mas foi mais forte do que ela.

Ele ainda olhou para trás, cheirou o boné e o colocou na cabeça. Ela veio às lágrimas. Seu perseguidor desapareceu no horizonte. Mancando, com o ferimento sangrando, ela seguiu correndo mesmo assim. Ele levou meu boné, ele poderia muito bem ter me levado a vida, por que não o fez? Será um jogo, Moisés está jogando comigo? A professora entrou em sua rua e teve um mal pressentimento. O pior ainda estava por vir?


Dessa vez a situação que outrora já era complicada, agora então se transformou num verdadeiro caldeirão onde só um lado sofre. Sentir de perto o cheiro da morte, poder respirar o mesmo ar que ele, foi uma experiência a qual Isa jamais imaginou na vida experimentar. O pior disso tudo é que ela não sabe muito bem o porquê. Por que Moisés a estar perseguindo? Por que anseia por cortar sua garganta? O que ela fez de errado? Ela teria aceitado o convite se ele a convidasse. Seria esse o motivo de seu ódio? Ou ela é somente a continuidade das loucuras de um louco frustrado? Moisés já fez outras vítimas? Mais uma vez o desespero a cercou e quando Isadora percebeu estava trancada dentro do banheiro chorando escorada na porta. Eu não mereço isso! Engolindo o orgulho e também o receio, ela puxou o celular do cós do short de corrida e ligou para Sérgio.


*


Nu como veio a esse mundo e se exercitando feito um atleta às vésperas de uma competição importante. Moisés gosta de fazer exercícios sem peça alguma de roupa. Hoje o dia foi quase perfeito e será se ele enfim conseguir chegar a marca de trinta abdominais sem intervalo. O suor começa a atrapalhar sua visão, mas seu foco é maior.

— vinte cinco, vinte seis...

Vamos professora Isadora, me ajude nessa hora, estou quase lá.

— Vinte sete, vinte oito...

Prometo ser carinhoso no momento em que eu estiver separando sua cabeça do corpo.

— Vinte e nove, trinta.

Pronto, agora sim meu dia terminou como eu esperava.

Ele se levantou e andou em direção a mesa de centro onde o boné de Isadora se encontra. Um modelo bonito de uma marca famosa, porém falsificado. Moisés olhou demoradamente o emblema e o colocou na cabeça. Sua respiração ainda é acelerada e mesmo assim deu início aos polichinelos.

É preciso estar preparado, é preciso sim.


*


Dois toques na porta seguidos de um curto e agudo assovio. Isadora já sabia de quem se tratava. Ela abriu a porta e levou um susto. Sérgio mudou bastante desde o último encontro.

— Olá?

Isa não sorriu, apenas lhe deu passagem.

— Boa noite pra você também, Isa. — entrou.

Seu ex marido, compartilhando o mesmo ar, o mesmo espaço, ouvindo sua voz. Isadora teve uma sensação estranha, uma espécie de saudosismo. Muito engraçado, por essa ela não esperava. Sérgio estava mais magro, não que ele fosse gordo, mas é visível a perda de alguns quilos. Ele também não está usando barba e trocou os óculos por lentes. Ficou bem.

— Vamos nos sentar.

Isa queria deixar às coisas bastante claras para Sérgio. Ela não o chamou ali por que quer se reconciliar ou reatar seu casamento, muito menos por estar carente. Isadora o chamou porque precisa de ajuda e isso precisa ficar bastante evidente.

— Bom, vou direto ao assunto...

— Nossa, assim, nem um cafezinho vai oferecer?

Isadora bufou e revirou os olhos.

— Você vai me ouvir ou não?

— Certo, sem café então. Vai, fala. — cruzou às pernas.

A professora contou tudo. Sérgio ouviu calado durante meia hora. Não foi fácil ficar ali olhando para ela. Que mulher sensacional. Ele sabe que perdeu uma mulher maravilhosa, gostosa e principalmente companheira, bem diferente de sua atual. O casamento acabou por que ele foi um idiota, impaciente, insensível. A culpa foi toda dele.

— Já falou com a polícia?

— Não. Ele disse na carta que não adiantaria ir nas autoridades, nada o impedirá.

— Posso ver essa carta?

Ela foi até seu quarto e voltou.

— Licença. – disse ele a pegando.

Sérgio descruzou às pernas e enclinou o corpo. Suas expressões variavam a deixando aflita. Sérgio pode ter sido um péssimo marido, mas burro ele nunca foi.

— Vou ligar para a polícia, esse sujeito é perigoso, você corre risco ficando aqui sozinha.

— Aí, meu Deus. — colocou às mãos no rosto.

— Isadora, me fala a verdade, o que você fez pra esse sujeito estar tão furioso?

— Nada. Absolutamente, nada. — chorou.

— Certo. Vou passar a noite aqui. Com sua permissão, é lógico.

— Ficarei mais tranquila. 

O que é a vida. De repente Isa se vê mais uma vez, sozinha com Sérgio, algo que já havia deixado de pensar nas possibilidades. Depois do divórcio, a última pessoa a qual ela queria conviver era justamente quem se encontra sentado, mexendo no celular no sofá de sua sala. Isadora preferiu a distância e comentários do tipo; como vai o namoro, ou; como vão as coisas no escritório ou talvez dar início a uma conversa informal. Não, ela não quer reativar qualquer vínculo com o sujeito que a fez sofrer durante anos, tudo o ela quer na verdade é de uma presença masculina dentro de sua casa e só.

Sérgio deixou o celular carregando e andou até a janela. A noite está linda, poucas nuvens e uma lua perfeita brilhante. Por um instante ele sentiu o desejo de entrar lá no quarto e tentar conseguir alguma coisa com sua ex. Isadora está estressada precisando relaxar e quem sabe se ele for com jeitinho não consiga sentir outra vez o gosto do corpo dela? Cara de pau, um tremendo cara de pau é isso que ele é. Quem não chora não mama.

Isadora está deitada, bem a vontade, lendo um romance quando ouviu a porta do quarto ranger. Ela não queria acreditar, mas era verdade, Sérgio estava em seu quarto.

— Sérgio, por favor, fique lá na sala. — puxou o lençol cobrindo suas pernas.

— Cara, estamos separados, mas, eu acho que podemos ser amigos, conversar, qual o problema nisso?

— Todos. Me desculpe a sinceridade, mas, eu não quero construir uma amizade com você. Pelo menos por enquanto.

Sérgio contraiu a testa.

— Então, por que me ligou? Creio eu que havia outras opções.

Verdade!

— Sérgio, admita, o nosso rompimento foi traumático, não foi uma coisa, digamos, saudável, foi ruim, me deixou marcas.

Sérgio cruzou os braços.

— Você está maravilhosa, sabia?

— Pare, por favor.

Ele deu alguns passos.

— Fique onde está, Sérgio.

— Calma, vou fazê-la relaxar, só isso.

— Não precisa. — vociferou.

Sérgio deu a volta sentou se na cama, a mesma cama onde ela e ele já fizeram as maiores loucuras desse mundo. Isadora fez menção de se levantar mais antes disso suas mãos mornas repousaram em seus ombros e de forma lenta, Sérgio os massageou.

— Viu, era só isso.

— Tá bom, tá bom, agora chega.

— Veja bem, quero que feche os olhos e inspire e expire, vai ajudar soltar a musculatura.

Isadora conseguiu ser forte só por um tempo, mas depois de vinte minutos ela não teve como continuar sendo resistente. Às mãos de Sérgio estavam simplesmente divinas e cá entre nós, ela estava precisando e muito disso. Algo dentro dela dizia que ela deveria se levantar e expulsa-lo de seu quarto, de sua casa, porém essa voz não era a única a ser ouvida, existia outra, que falava bem mais alto. Essa voz berrava dizendo que ela deveria ceder aos encantos, deixar rolar, pagar pra ver, digamos assim. Pois é. Isa estava carente, louca por uma noite longa de amor sem pensar sequer na sombra de Moisés Santana. Às mãos de Sérgio começaram a massagear os ombros e agora elas acariciam o pescoço lentamente. Isadora fechou os olhos e deixou acontecer.

— Isso, você está indo muito bem. — cochichou Sérgio.

Vulnerabilidade, era tudo que um homem como Sérgio precisa para lançar todo seu poder de fogo. E bota fogo nisso. Agora ele está com às duas mãos apalpando os seios médios. Ele encontrou uma certa resistência, mas foi apenas por alguns segundos. Isa lhe deu sinal verde ao permitir que seu ex lhe tocasse por debaixo da blusa.

— Não, Sérgio, por favor, para!

— Shhh, sou eu, apenas feche os olhos.

A professora Isadora Corrêa sabe que irá se arrepender de tudo que pode ocorrer essa noite, mas é a única forma de atender suas necessidades. Ela está cansada de se satisfazer sozinha, cansada dos banhos gelados, dos sonhos eróticos. O destino lhe deu essa oportunidade e ela não vai deixar escapar.


*


Ele olha para o único cômodo iluminando da casa de Isadora e imagina o que deve estar acontecendo lá. Moisés também viu quando um sujeito alto, boa pinta chegou e foi atendido por ela. Quem será ele? Raiva provocada pelo ciúme, algo perigoso, mortal, nocivo. Bem que ele gostaria de invadir e terminar logo o serviço, mas Moisés estaria traindo a si mesmo. Ele gosta de ver sua vítima se contorcer, ama tortura-la, ele curte esse terror antes do golpe final. Não lhe restando mais nada ele deixa a calçada e vai caminhando com suas mãos enterradas nos bolsos sonhando acordado com sua professorinha.


Ai, meu Deus, isso não pode estar acontecendo, eu fiz isso mesmo? Aceitei ser enfeitiçada por Sérgio? Foi a primeira coisa que lhe veio a mente assim que acordou. Isa não queria se virar e vê-lo ali. Não queria que fosse verdade. NÃO, NÃO, NÃO. Aos poucos ela foi se virando e seu ex não estava lá. A casa cheirava café e a pão fresco. Putz, não acredito! Ela deu uma olhada embaixo do lençol e sim, ela estava nua, o que você fez, Isa?

— Bom dia! — falou Sérgio com bastante sonoridade da porta do quarto segurando uma bandeja. — temos café puro ou com leite, pão com manteiga e ovos mexidos e fiz suco também.

Que merda eu fui me meter!

— Bo, bom, dia.

Sérgio deixou a bandeja aos pés dela.

— Por favor, não me olhe desse jeito, eu só queria lhe agradar.

— Poxa, Sérgio, é que...

— Não precisa falar nada, sei o que vai dizer. — colocou às mãos na cintura. — caramba, Isadora, não podemos ser amigos?

— Amigos não transam. — ela abaixou a cabeça. — tá bom, admito, cai em tentação, sou humana, fazer o que? Eu só quero que entenda que eu, eu...

— Não me ama mais, eu entendo. Só que você não pode viver sozinha aqui, precisa de proteção e...

— E sua namorada?

O pomo de Adão subiu e desceu. Por essa ele não esperava.

— O que tem ela? — pegou a xícara com café e bebeu.

— Onde ela está, você ligou para ela, disse onde estava?

Sérgio engoliu o café. Estava um pouco amargo.

— Não!

— Está vendo? Você não mudou nada, Sérgio. Está fazendo com ela o mesmo que fez comigo. Você precisa amadurecer, ser um homem de verdade.

Nenhum homem suporta ouvir o que Sérgio acabou de ouvir, você precisa ser um homem de verdade! Para não explodir, ele preferiu se afastar.

— Cara, lhe agradeço por se disponibilizar vindo aqui cuidar de mim, lhe agradeço pelo café e...

— Tudo bem, tudo bem. Vou te deixar em paz.

Sérgio recolheu suas chaves, carteira e vestiu a camisa.

— Cuide-se, Isa.

Isadora queria gritar, chamá-lo de volta, mas tudo que ouviu foi a porta da sala batendo. Uma crise de choro compulsiva se apossou dela sem lhe dar chance de defesa. Sérgio, Sérgio, não, volte, volte, fique comigo, preciso de ajuda. A bíblia diz que o choro pode durar uma noite, mas que a alegria vem ao nascer do sol. Com ela foi justamente ao contrário. Isa teve uma senhora noite, com direito a troca de beijos, gemidos e até arranhões nas costas. O dia mal começou e ela já está um bagaço. Quem sabe se eu tomar alguns remédios eu acorde quando tudo estiver em paz? A bandeja esta lá, bem a seus pés. Sua fúria foi tanta que a mesma foi lançada contra a cômoda com um chute. Isa voltou a se deitar e a chorar. Ajuda. Ela precisa de ajuda. Moisés está lá fora.


*


Moisés sentiu uma tremenda vontade de rir ao ver Isadora passando apressada, tudo porque a pobre coitada pensa que se disfarçou muito bem usando uma boina feita de tricô, óculos escuros maiores que seu rosto e um vestido longo, nada a ver com a estação. Ele sabe onde ela está indo, ele conhece todos os seus passos. Isadora está tão desatenta, tão desligada que se ela girasse o pescoço para o lado direito da rua daria de frente com ele. Como é bom saber que sua presa se encontra em um beco sem saída, precisado encontrar o mais rápido possível uma fenda nisso tudo e se livrar de suas garras. Isadora é especial, disso ele tem certeza, muito diferente de outras que simplesmente o ignoraram e pagaram caro por isso. Moisés ama as mulheres, sente uma atração sobrenatural por elas, mas também gosta de vê-las em sofrimento. Vá entender uma mente dessas? Ele saiu de seu esconderijo e passou a observar seu jeito de caminhar, o balançar de seu quadril, a forma como seus pés tocam o chão. Será uma delícia tê-la só pra ele. Santana sabe para onde ela está indo e ele já contava com isso. Professorinha, professorinha, sua hora está chegando.

Isadora foi atendida por uma policial da recepção do departamento. As armas, os uniformes, os sons, tudo ali a faz se sentir sufocada. Em toda sua existência ela jamais pisou numa delegacia. Nunca.

— Bom dia, eu queria fazer uma denuncia.

— Que tipo de denuncia, senhora?

— Venho sendo ameaçada, preciso de ajuda.

A policial percebeu às mãos trêmulas de Isa e a conduziu para o interior do DP.

— Fique tranquila, vou chamar o investigador.

Antes de sair a agente lhe serviu um copo com água. Não demorou muito e um policial negro, mediano, com uma ligeira calvície apareceu.

— Bom dia, sou o detetive Luís Souza, podemos conversar?

Sim, Isa já havia ouvido falar de Souza, porém nunca o tinha visto pessoalmente. Ele puxou uma cadeira e sentou-se ao lado dela mostrando total interesse.

— Prazer conhecê-lo pessoalmente, investigador. Preciso de ajuda. Um tal de Moisés Santana me ameaçou de morte e ele vem me sondando.

— A senhora tem como provar o que está dizendo?

Isadora lhe entregou a carta a qual Souza leu atentamente. Feito isso a pediu que lhe acompanhasse até sua sala onde sua assistente Márcia Bernardo se encontrava trabalhando no computador.

— Entre, senhora Isadora, essa é minha parceira de trabalho. Quero que passe todas às informações para ele.

Uma hora, foi o tempo que a professora passou no DP. Isa saiu de lá abismada com a gama de informações sobre Moisés. Ela descobriu que o mesmo já havia passado pelo departamento por agressão, pequenos furtos, golpes e que a polícia vem em seu encalço a bastante tempo. Luís Souza a deixou mais tranquila, porém a palavra “relaxar” é algo impossível de acontecer. Ela voltou para casa num carro da polícia descaracterizado coisa que Moisés acompanhou sentado no interior de uma lanchonete. Eu não acredito no trabalho da polícia, ela nunca faz o seu trabalho direito. Pessoas como eu agimos em cima de suas falhas. Não adianta tentar impedir ou adiar, sua hora vai chegar, Isadora.

Isadora entrou em casa tentando entender o que se passa na cabeça de Moisés, qual a sua motivação. O que fizeram a ele para permitir que um sentimento tão mortal contaminasse seu coração? Ela apenas não quer se relacionar mais. Quantos homens desde sua separação ela já ignorou e eles simplesmente seguiram seus caminhos? Existem pessoas que vieram a este mundo apenas para tirar a paz de quem a tem. São seres enviados com um propósito: destruir o que foi conquistado com grande sacrifício. Moisés já lhe tirou a tranquilidade, seu sono, seu direito de ir e vir sem ter aquela sensação de estar sendo vigiada e se ela não se cuidar, ele tirará sua vida também. Por que Moisés Santana existe? Por que?


*


Raquel e Isa deixaram o assunto “matéria da próxima avaliação” para depois e passaram a conversar sobre os últimos acontecimentos com a colega de trabalho. Raquel não é sua melhor amiga e tão pouco a melhor pessoa para se confidenciar algo íntimo, mas por hora, foi o que restou a ela.

— Jura? Você fez isso?

— Eu não queria, mas... — Isadora mal tocou na comida.

— E aí?

— De manhã eu praticamente o expulsei da minha casa.

— Bem feito. Mas que mole foi esse cara, transar com o ex, que fogo é esse?

— Sérgio me enrolou, me envolveu feito uma serpente e quando eu vi, lá estava eu.

— E o seu admirador secreto?

— Fui a polícia. O cara é todo enrolado com a justiça, não é flor que se cheire. — abaixou a cabeça.

Raquel segurou em sua mão.

— O que foi, amiga?

Isa desabou a chorar naquele refeitório em meio a confusão de sons e barulhos.

— Eu ainda me sinto insegura, mesmo com a polícia o caçando, eu o vejo em cada canto que olho. Não sei mais o que fazer.

— Quer passar alguns dias em meu apartamento? É pequeno, mas é tipo coração de mãe.

— E seu, “namorido”?

— Então, Alex e eu demos um tempo, complicado, lá te explico melhor. Então, vamos?

— Acho que sim.

O que é uma pessoa sem paz, sem liberdade? Exatamente. Ela se torna prisioneira fora e dentro dela mesma. Pode um ser humano se sobrepor ao seu semelhante? Claro que sim, temos inúmeros exemplos disso. Pessoas que fazem uso de seu poderio para maltratar, escravizar e até torturar o outro. No caso de Isadora, seu sofrimento maior é na mente. Moisés mexeu com ela e isso não tem volta. Por mais que ela saiba que o seu caso se encontra nas mãos de um dos melhores polícias da região, isso não lhe trás tranquilidade, não lhe trás sossego na alma. Hoje, ela anda nas ruas olhando para trás, para os lados, becos e vielas. Todos são suspeitos a seu ver. Quem sabe passar alguns dias na casa de Raquel ela não consiga de fato descansar e esperar que a polícia faça o trabalho dela?

— Fica combinado assim, amiga. Vou “catar” algumas coisas lá em casa e partiu, seu apartamento.

— Ótimo! — Raquel comemorou batendo palminhas.


*


Ela alertou as autoridades e agora eles sabem que circulo por essa redondeza. Creio que meu próximo passo deixará marcas profundas, muito mais nela do que em mim. Eu não queria ter que fazer isso, mas, outra vez ouço aquela voz gritando forte, explodindo meus tímpanos. Terei que ser bruto, grosso e violento com aquele corpo bonito, perfeito e feito para ser explorado com carinho. Agora não tem volta. Prometi pra mim mesmo e não há como voltar atrás.

Isadora não sabe o porquê, mas ela está alegre. Calcinhas, shorts, blusas, sandálias, xampus, sabonetes e condicionadores, além de outras coisas mais. Raquel não mora tão longe, caso precise de algo, basta pegar a bicicleta da amiga emprestada e vir buscar. Ela fechou a mala. Deu um jeito nos cabelos e saiu. Desceu os três degraus da varanda, andou mais um metro e meio e destrancou o portão. Moisés estava parado bem a sua frente com aquele sorriso que a deixa apavorada.

— Vai viajar, meu amor?

— Vá embora, vou gritar. — Isa deu alguns passos para trás.

— Você pode fazer o que quiser. Eu disse que nada mudaria, não disse?

— Socorro! — berrou.

— Faz melhor, ligue para a polícia, facilite o trabalho deles.

— Por favor...

— Vamos, entre.

Isadora tentou correr, mas Moisés foi mais rápido e a segurou pelos cabelos.

— Tão macios, cheirosos, hum! 

Isa girou o corpo e o socou no rosto.

— Essa e a sua força, professora? Experimente a minha.

O golpe acertou seu nariz. A dor a deixou irritada. Às lágrimas brotaram. Ela estava perdida.

— Agora, seja uma menina obediente e entre. — vociferou.

“Ele vai me matar de qualquer forma, por que estou adiando isso?” Pensou voltando para dentro de sua casa.

— Não precisa trancar a porta. Farei isso rápido.

— Vai cortar minha garganta? — chorou de vez.

— Fique quieta. Ligue para a polícia. Diga que eu estive aqui e que te espanquei até quase te matar. Rápido.

Voz trêmula. Gaguejando. Chorando. Isa informou a polícia vendo Moisés tirar do bolso um soco inglês e o ajeitando em seu punho olhando para ela.

— Pronto. Ele vão enviar uma viatura até aqui.

— Legal. Ainda tenho bons minutos para brincar.

A professora viu o punho vindo em direção ao seu rosto outra vez e em câmera lenta. Depois disso Isa só sentiu dores e em seguida um mergulho na escuridão. Antes de apagar, seu único pensamento era sobreviver a qualquer custo. O seu destino final não poderia estar nas mãos de um louco. Ao tentar uma tímida reação, Isa era atingida várias vezes e os golpes se tornavam cada vez mais intensos e potentes e isso a inibiu de tentar reagir outras vezes. O jeito foi deixar que seu carrasco derramasse sobre ela todo o seu poder de fogo, todo seu veneno. Moisés Santana é como uma víbora peçonhenta. O seu último soco antes de sair caminhando pela porta da frente como se nada tivesse acontecido foi dado na têmpora. Isadora sentiu como se tivesse lhe aplicado uma paulada no mesmo local. Tudo escuro, hora de dormir.


— Miserável, desgraçado. — Souza xingou batendo no teto da viatura.

— Ela está mal, Souza. — completou Márcia saindo de dentro da casa de Isa.

— Ela acordou pelo menos?

— Não, mas não corre risco de morrer, porém está bastante ferida no rosto. Acho que o agressor fez uso de algum instrumento.

— Merda, eu ainda pensei em deixar um policial aqui e no entanto...

— Calma, Luís, o jeito agora é encontrar Moisés, sabemos seu modus operandi.

Luís Souza deu às costas para sua assistente.

— Primeiro ele conhece a vítima, depois envia à carta, persegue e espanca...

— Depois ele mata. Foi assim com sua outra vítima. — Márcia mexeu nos papéis.

— E tudo isso nas barbas da polícia. — rosnou.

Isa foi socorrida e levada para o hospital. Souza organizou sua equipe e deu ordem para que só voltassem para o DP com Moisés algemado. Luís não costuma misturar o lado profissional com o pessoal. Jamais ele irá levar algo que acontece em seu dia a dia para dentro de um departamento policial e vice versa. Mas dessa vez ele terá de ir de encontro às suas próprias regras. Moisés Santana já vem aparecendo no radar da polícia faz algum tempo e querendo ou não as autoridades o ignoram desde quando ele surgiu, desde quando alguém o fichou por agressão. Souza seguiu a ambulância que levava a professora até seu destino final. Acompanhou os procedimentos de triagem e em seguida sua internação. Permaneceu no hospital até poder subir para a enfermaria.


*


Banho, nada melhor do que um banho para ajudar a lavar a alma, mesmo que por fora. Moisés se deitou no piso do box deixando a água forte do chuveiro cair em seu corpo sem parar por mais ou menos quarenta minutos. Ele não se move, pouco pisca, apenas olha para o azulejo encardido revivendo aqueles momentos com Isadora. Agora só resta mata-la. Se tudo der certo isso acontecerá em poucos dias, não importa se agora ela tem proteção policial. Isso vai acontecer. A água segue caindo. O sorriso voltou a estampar seu rosto assim que lembrou de quando ele a esbofeteou já desacordada, foi demais! Ao olhar para sua mão direita, ela ainda trás às marcas do soco inglês. Outro sorriso.

Chega de banho. Hora de comemorar seu terrível feito bebendo, comendo e transando. Há outro jeito melhor de se comemorar algo daquela natureza? Nu, molhado, ele secou às mãos e ligou para uma das meninas que atendem naquela parte da cidade.

— Hoje a noite é nossa.


Isadora abriu os olhos e ela não estava no hospital. Quando as pessoas morrem elas vão para o céu ou para o inferno? Ela nunca acreditou no limbo, purgatório, tudo isso não passa de conversa fiada. Seus olhos estão abertos, seu corpo inteiro pesa e dói, então ela não está morta. Mortos não sentem dor. Onde ela está afinal? Ela se esforça para girar a cabeça e olhar para o lado na tentativa de ver quem mais se encontra ali com ela. Não. Não há ninguém, somente ela deitada naquela cama fria. Onde ela está?

— Graças a Deus ela não teve fratura alguma no rosto.

O que? Não reconheço essa voz, quem está falando?

— Ela já disse alguma coisa?

Essa voz já me parece familiar, mas, não consigo saber de quem é.

— Ela terá que ficar aqui por pelo menos três dias.

Meu Deus, o que aconteceu comigo, não consigo saber.

— Certo. Peço ao senhor, que, assim que ela acordar, me ligue.

— Pode deixar, detetive. — o médico guardou o cartão no bolso do jaleco.

Detetive? Polícia? Estou presa, é isso? Não, não, não. Por que às vozes se foram, por que não as ouço mais, por que, porque, porque?


Um maníaco. Um lunático. Alguém que não conhece limites. Moisés Santana o ser humano que rompe qualquer barreira do absurdo, que perdeu toda sensibilidade para compreende-lo. Se ele não considera alguém que não vive às margens da sociedade, vai considerar alguém que vive? Claro que não. A prostituta sofre às piores agressões, sendo submetida a posições sexuais humilhantes sem poder reclamar. Ao primeiro sinal de resistência ele a ataca com tapas e chutes.

— Fale que você está gostando.

A mulher soluça. Toda sua maquiagem está borrada.

— Diga pra mim, “eu gosto de apanhar”. — a segura pelos cabelos.

— Eu, eu, gosto de apanhar. — fechou os olhos e os apertou sabendo que levaria outro tapa. E levou.

— Ótimo. Vamos recomeçar. Você agora será minha cadela. — a colocou de joelhos e amarrou o lençol da cama envolta de seu pescoço. — vamos dar uma volta pelo quarto Totó.


*


Isadora vem se recuperando bem e se continuar evoluindo, dentro de poucos dias ela terá alta. Assim que abriu os olhos e percebeu que estava internada ela se agitou um pouco, mas nada que alarmasse, tudo foi dentro do esperado. Souza estava lá quando o médico a examinou. Ele não sabe explicar, mas ficou ansioso para ouvir o parecer do profissional.

— Muito bem, dona Isadora Corrêa, como se sente?

— Eu ainda estou me situando, mas estou bem.

O doutor tocou em um dos hematomas.

— Sente alguma dor?

— Pouco, mas sinto. — olhou mais uma vez para o detetive.

— Natural. Vou passar um analgésico. — girou os calcanhares. — ela é toda sua, investigador.

— Obrigado, doutor.

Antes de iniciar, Luís Souza deu uma boa olhada no rosto de Isa. Ela teve sorte de não morrer. Aquele desgraçado agiu de forma cruel e covarde se utilizando de um instrumento para agredi-la. 

— Lembra de alguma coisa? — cruzou os braços.

— Como eu poderia esquecer? Foi horrível.

— O que ele tinha na mão?

— Ah, sei lá, era de metal...

— Um soco inglês, provavelmente. O que mais?

De repente o olhar de Isa se tornou soturno, focando o nada.

— Ele disse que o último passo seria me matar. — falou engolindo seco.

Conhecer a vítima. Enviar uma carta. Persegui-la. Espanca-la e por fim, mata-la. Souza precisou de muito autocontrole para não sair correndo daquele hospital e caça-lo. Ele não pode perder mais essa. Não pode e nem deve perder outra vítima.

— Tudo bem, dona Isadora, a senhora terá proteção vinte quatro horas...

— Ele vai conseguir, ele disse que nada e ninguém irá impedi-lo. Me pegou uma vez e vai me pegar de novo. — chorou.

— Não se eu o pegar primeiro. Vou deixar um policial aqui. Procure descansar.

Souza deixou o quarto. Isa olhou ao redor e tudo o que viu foram paredes brancas, frias, material hospitalar. Foi possuída por um tremendo sentimento de solidão absurda. Na mesma hora ela controlou sua respiração para não entrar em pânico. A vontade foi de abrir a janela e pular, ganhar a rua. Sumir no mundo. Calma, Isa, está tudo bem agora! O ser humano é incrível. Ele cria demônios e anjos em questão de segundos. Isadora olhava para a porta e tinha a sensação de que a qualquer momento Moisés entraria para terminar o que começou.

— Socorro! — a voz saiu mais baixa do que o esperado.

Como uma criança amedrontada, apavorada com às sombras projetadas nos vidros das janelas, assim Isa estava. Ela apertou os olhos e tentou cantar mesmo que mentalmente uma de suas canções favoritas “Still Loving you” do The Scorpions. Adiantou por alguns instantes, porém ao abrir os olhos, o pesadelo voltou com força total ao ponto de ver seu inimigo vindo ao seu encontro. Braços e mãos estendidos, prontos para estrangula-la.

— NÃO, NÃO, NÃO!

— Dona Isadora, calma. — disse a enfermeira. — hora do remédio.

— Eu preciso sair daqui, preciso ir embora. — se ergueu.

— A senhora precisa se acalmar.

Isa deu um certo trabalho para a enfermagem e só conseguiram aquieta-la depois de longos minutos. Foi preciso a ministração de um remédio para que ela dormisse e foi o que aconteceu. Foi um sono aparentemente tranquilo. Ela apenas dormiu e mais nada. Para ela que se encontrava ali, deitada, aquele estado de dormência, passaram-se somente segundos, quando na verdade ela apagou por horas. Quando abriu os olhos Raquel estava lá a seu lado segurando sua mão.

— Oi? — a voz estava fraca.

— Ah, oi, você acordou. Como está se sentindo?

— Péssima, louca para sair logo daqui.

— Imagino. Aquele detetive bonitão esteve aqui e me disse que a polícia não vai parar enquanto não pegarem o idiota do Moisés Santana.

— Aí, Deus o ouça. Não aguento mais ficar refém desse cara.

— Fique tranquila, quando tudo isso acabar, vamos comemorar a noite inteira e com direito a quem sabe dançarinos. — simulou uma dança.

— Contenha-se, mulher, você está num hospital. — riu.

— Desculpa, eu me empolguei.

*


A viatura parou. Dela desceram Isadora, Márcia e Souza. Em seguida uma outra viatura encostou. Dentro dela dois agentes a paisana.

— Isadora, esses são Marçal e Edson. Serão seus anjos da guarda. — disse Luís.

— Ficarei mais tranquila sabendo que eles estarão aqui.

— Muito bem, o nosso trabalho segue, ainda hoje teremos novidades, ok? — completou Souza.

— Tudo bem.

Ela voltou. Incrível como essa menina se recuperou tão rápido, até mesmo os hematomas já quase não existem mais. Será essa uma boa hora para concluir o que comecei? Não seja tão burro, Moisés, é claro que a partir de agora Isadora contará com proteção máxima vinte quatro horas por dia. Você precisa pensar, calcular, ser mais esperto, caso contrário não obterá sucesso.

Moisés passou a prestar mais atenção assim que Souza e sua assistente deixaram a casa de Isa. A outra viatura permaneceu no local e isso o fez esbravejar. Às coisas de repente começaram a fugir de seu controle. Péssimo sinal. Ele não pode se dar ao luxo de falhar. Não agora. Quando a viatura conduzida por Souza passou, ele se abrigou atrás de uma árvore e se sentiu ridículo, pareço uma criança brincando de polícia e ladrão. Hora de colocar a cabeça pra funcionar. Isadora tem sido sua experiência mais saborosa, não pode deixá-la escapar. Terá que terminar o que começou ou então ele se cobrará pelo resto de sua existência.


Isa está de volta a sua casa, seu lar. Lugar onde os sentimentos voltam a tona, pois foi justamente nesse lugar que ela viu sua vida inteira passar diante de seus olhos. Ela parou no meio da sala. O cômodo se encontra frio, um pouco escuro e tem no ar o cheiro dele, aquele covarde idiota. A professora visualiza o local exato onde Moisés desferiu seus murros. E por falar em socos, como deve estar meu rosto? Pensou correndo até o banheiro.

— Um otário mesmo. — falou tocando nos hematomas.

Afinal de contas, o que se passa na mente de certos homens? Será que chegam ao orgasmo quando batem nas mulheres? Pensou deixando o banheiro. Isadora é uma mulher linda, qualquer homem saudável mentalmente se interessaria por ela, lhe encheria de carinho, beijos, amassos e não uma surra de lhe deixar marcas. Homens de verdade é coisa rara hoje em dia. De repente ela se sentiu exausta. Não fisicamente, mas sim mentalmente. Pensar nessas coisas cansam demais. Quem sabe uma bebida com certo teor de álcool não lhe ajude a relaxar? Ela abriu o armário da cozinha, na parte de cima e lá estava a garrafa fechada de vinho comprada por Sérgio dias antes de deixar o casamento. “Quem guarda sempre tem”, lembrou-se de uma das falas mais famosas de sua avó materna. Isa se serviu, uma dose generosa diga-se de passagem, vá com calma, dona Isadora Corrêa! O primeiro gole foi algo libertador. O líquido desceu queimando e também levando embora o gosto da última refeição feita naquele hospital. O segundo a fez viajar para um outro mundo. O seu mundo. Mundo este sem privações, contendas, onde tudo é mais fácil. Ela se deitou no sofá. Relaxou os ombros, os braços e fechou os olhos.

*


Um dos agentes saiu da viatura afim de alongar às pernas e costas. Aproveitou para acender um cigarro e olhar mais de perto a casa.

— Acho que a mulher dormiu, não vejo movimento algum lá dentro. — soltou um bom volume de fumaça no ar.

— A luz da sala está acesa. — disse o outro dentro do carro. — acha melhor ligar pra saber se ela está bem?

— Pois é, me passa o celular. — andou até a janela do carona.

Um morador de rua saiu do meio de umas árvores, atravessou a rua mancando e arrastando um saco de lixo de vinte litros nas costas.

— Olá, boa noite, os senhores teriam algo de comer para me dar?

— Vamos ficar lhe devendo, amigão.

Com agilidade o mendigo sacou do cós da calça um espeto de aço inoxidável e o enterrou no ouvido do policial que perdeu o equilíbrio e caiu.

— Mas, que merda é essa?

Moisés deixando o disfarce pegou a arma do agente que agonizava no chão e a apontou para outro policial.

— Opa, jogue sua arma no chão e a chute para mim.


Aos poucos o efeito do álcool foi passando e o sono de Isa já não era tão pesado. Ela abriu devagar os olhos. Se assustou quando percebeu que já havia anoitecido e que a luz da sala se encontrava acesa. Bocejando e se espreguiçando ela andou até a janela. Ficou na ponta dos pés para tentar ver a viatura lá fora. O carro estava lá, porém parecia estar vazio. Estranho. Mais estranho do que isso era a fome que sentia. Isadora foi até a cozinha e gelou ao ver que a porta dos fundos estava aberta, totalmente aberta.

— Não está ventando muito. — balbuciou.

Depois de fecha-la ela pegou alguns ingredientes na geladeira, como queijo, presunto, alface, ketchup e mostarda para fazer um sanduíche. Assim que fechou a porta um vulto na sala a fez sobressaltar.

— Droga, tem alguém ai? — disse para ela mesma.

Deixando os produtos em cima da mesa ela andou um pouco mais devagar até a sala. Agora ela estava com medo. Da porta da cozinha ela olhou para o sofá, a taça de vinho estava em cima da mesa de centro. Olhou também para às cortinas e rack. Nada, tudo normal, porém ela achou melhor ligar para os policiais lá fora. Isa correu até o centro da sala onde estava seu telefone e assim que começou a buscar o contato a voz de Moisés ecoou.

— Você pode até tentar, mas, lhe garanto, eles não te ouvirão. — Moisés tinha um globo ocular espetado em um espeto de churrasco, o mesmo que usou para matar os policiais. — E aí, gostou da surpresa?

As náuseas foram inevitáveis assim como os tremores nas pernas, outra vez não. Isa não queria acreditar no que seus olhos estavam vendo. Sim, era Moisés, mas por que ele está vestido daquela maneira, como se fosse um mendigo?

— Me desculpe entrar em sua residência dessa maneira é que precisamos acertar nossas contas. — balançou o objeto com o globo ocular. — sacou?

O órgão ainda com sangue parou de balançar olhando na direção dela, isso a deixou ainda mais apavorada.

— Saia da minha casa, eu vou começar a gritar.

— Esquece, os policiais lá fora estão mortos, eu os matei, pode gritar até ficar rouca. — andou mais pra perto do centro da sala. — Isadora, não dificulte às coisas pra você. Não sofra. Apenas deixe acontecer.

Isadora andou de costas e tropeçou no tapete. Caiu batendo às costas no chão. A queda lhe fez perder o ar.

— Viu? — Moisés correu para ajudá-la a se levantar.

— Tire suas mãos de mim. — gritou.

O rosto de Moisés ficou ruborizado e com veias salientes na testa.

— Sua ingrata, não está vendo que estou tentando lhe ajudar.

— Não me bata mais, por favor. — Isa se encolheu ficando em posição fetal.

Da raiva a alegria. Do ódio ao sorriso pra lá de diabólico, essas foram as reações dele ao vê-la feito uma criança indefesa implorando misericórdia.

— Sua bobinha, eu não vou te espancar de novo não. Lembra? Eu sigo um protocolo. Agora irei finalizar meu trabalho.

Isadora iniciou uma ladainha, uma prece, algo parecido com a oração do Pai Nosso ali mesmo, deitada naquele chão frio e com Moisés praticamente em cima dela. Outra vez sua vida passou bem diante de seus olhos, como numa grande tela de cinema. Sua infância alegre vivendo com seus pais num sítio. Sua adolescência bastante complicada e os intermináveis dias de castigo por não querer ajudar nas tarefas domésticas e sua juventude ainda mais difícil com namorados sem noção. Ela ainda tem alguns planos engavetados e gostaria muito de poder realizá-los. Um pouco tarde pra isso agora. Às mãos geladas de Moisés estão indo em direção ao seu pescoço, será assim o meu fim, por estrangulamento? Vou agonizar até a morte?. Sim, ela terá sua traqueia pressionada por dedos finos e delicados de um monstro de rosto bonito e sedutor. Relaxe, Isa, acabe logo com esse sofrimento. Lá estão às mãos dele já a sufocando. Isadora tosse, mexe as pernas, os olhos bem abertos focam o rosto de Moisés sorrindo. Foi como imaginei, há homens que chegam ao prazer matando mulheres. Seus músculos foram perdendo a resistência e agora às pernas, outrora agitadas não se movem mais, assim como seus braços. Ele segue apertando, sorriso com os olhos virados até que...

— ARGH! — Moisés a soltou.

Logo atrás dele está Sérgio, pronto para golpeá-lo novamente. A faca entrou em suas costas sobrando só o cabo pra fora.

— Seu...

O ex de Isa o chutou no rosto. Santana caiu de lado. A faca ainda está lá em seu pulmão. Isadora tosse desesperadamente segurando seu pescoço enquanto assiste Sérgio desferindo outro chute na cabeça de seu inimigo.

— Calma, Isa, respire. — disse ele olhando rapidamente para ela.

Moisés aproveitou o momento de distração de Sérgio para lhe aplicar uma rasteira. O tombo foi feio. A cabeça de Sérgio arrebentou a mesa de centro e ele viu tudo ficar escuro. Moisés se levantou cuspindo sangue. A essa altura o seu pulmão já havia explodido. Sérgio colocou a mão atrás da cabeça e a mesma voltou ensopada de sangue. Moisés o chutou na costela. A dor foi aguda e forte, fazendo Sérgio gritar. Outro chute. O ar fugiu de Sérgio que sentiu que estava apagando. O sapato de seu rival pisou forte em seu tórax.

— Agora me lembro de você. — disse dando lhe outro potente pisão no peito. — você é o...

— Ele é o meu marido.

Isadora, uma leoa furiosa. Ela tirou a faca das costas e a cravou no pescoço. Não satisfeita, assim que Moisés se virou para ela, Isa o esfaqueou no abdômen. O piso da sala recebeu nova coloração com o sangue que esguichava da jugular rompida de Moisés. O monstro caiu tentando falar algo que Isa ignorou.

— Sérgio, amor, você está bem? — se ajoelhou ao lado dele.

Ainda se contorcendo, Sérgio respondeu positivamente.

— Vou ligar para o Souza.

Isadora aguardava ser atendida olhando para Moisés que se encontrava entre a morte e espasmos. Quando alguém do outro lado da linha falou a professora não ouviu assistindo seu perseguidor, espancador, o causador de sua falta de paz morrer de olhos abertos olhando para ela.

— Alô, departamento de polícia!

— Ah, oi, gostaria de falar com o detetive Luís Souza, é urgente.


*


O corpo de Moisés foi retirado da casa de Isadora enquanto a mesma conversa com o detetive na pequena varanda. O seu nervosismo era tanto que ela não conseguia terminar uma frase inteira.

— Você vai precisar de cuidados. — informou o investigador.

— Sim, ele apertou minha garganta com vontade. — colocou às mãos nas marcas deixadas por Moisés.

— Não estou falando desse cuidado, mas sim de um acompanhamento psicológico. Santana mexeu demais com você.

— Verdade. — olhou para dentro de sua casa. — porém estou muito mais preocupada com o meu marido.

— Ele bateu forte com a cabeça e teve algumas costelas quebradas, vai sobreviver. – Souza tirou às mãos nos bolsos.

— Bom. Me diga, o que vai acontecer comigo daqui pra frente? Eu cometi um homicídio, não foi?

Luís Souza cruzou os braços.

— Legítima defesa. Foi o que aconteceu aqui. Moisés Santana já vinha dando trabalho a muito tempo. Seu marido e você terão que responder algumas perguntas e serão liberados.

Isadora desabou num pranto pesado. Um choro de alívio. Numa demonstração de total imparcialidade, Souza somente repousou sua mão em seu ombro e a confortou. Isa sofreu demais e sua mente clama por dias de tranquilidade. Sérgio foi levado de ambulância para a unidade de saúde mais próxima na companhia de sua mulher. Pela manhã ele foi para a enfermaria. Dormiu boa parte do tempo e quando acordou lá estava Isa, sentada lendo.

— Oi? — falou com dificuldade.

— Ah, oi, você acordou, que bom, como se sente? — deixou o livro sobre a cadeira.

— Como se alguém tivesse pisado em mim. — brincou.

Isadora não disse mais nada, apenas se inclinou e o beijou longamente.

— Nossa, o que foi isso, gente?

— Uma forma de agradecimento e... — prendeu os cabelos atrás das orelhas.

— E? — Sérgio sorriu.

— Lembra que você havia dito que poderíamos ser só amigos? — ruborizou.

— Claro que lembro.

— Então, eu acho que não vai rolar. Não podemos ser só amigos.

O sorriso de Sérgio se desfez e ele passou a encarar o teto.

— Bom. Pelo visto arrisquei minha vida pra nada. Segui os passos daquele psicopata atoa achando que a mulher da minha vida voltaria pra mim e no entanto...

— Você conseguiu, eu estou aqui. Foi a maior demonstração de amor que você pode fazer. — voltou a beija-lo. — agora quero saber de tudo, como soube que ele iria me atacar?

— Bom, é uma história um pouco longa, mas vamos lá. Desde aquele dia quando você me mostrou a carta eu fiquei preocupado e tomei uma decisão assim que você me mandou embora de sua vida pela segunda vez. Passei a investigar sozinho até que por fim o vi rodeando sua casa e daí por diante só precisei aguardar o momento certo.

— Tudo isso antes ou depois dele me espancar?

— Depois. Quando fiquei sabendo desse fato não consegui dormir e nem comer, me culpei. Meu ódio foi tão grande que explodi e acabei com tudo. Era com você que eu queria viver ou com mais ninguém e então...

— Resolveu ser o meu herói. — o abraçou. Sérgio gemeu.

— Calma, minha querida, sou um herói, mas não sou de aço. — riu.

— Ah, mais você vai precisar ser de aço, você não sabe o que te espera depois que tiver alta.

Sérgio apontou para sua parte íntima.

— Para o alto e avante. 

Fim.


 














quarta-feira, 25 de março de 2026

Mão Negra


 Mão Negra



 
Olá, tudo bem? Sou o investigador da policia civil e me chamo João Antônio, mais conhecido como J.A, dentro e fora do departamento policial. Já atuo na área há mais ou menos vinte anos e a oito venho tentando capturar o maior e mais escorregadio ladrão de todos os tempos, Manuel Clemente, o famoso Mão Negra. Pois é, esse sujeito vem tirando meu sono e por causa dele o meu casamento foi a ruína. Espera aí! Não foi só culpa dele, mas digamos que Mão Negra contribuiu bastante para que o meu relacionamento fosse a falência, mas isso é uma outra história.
Manuel Clemente não é um ladrão de beira de estrada ou batedor de carteiras. Lógico que não. Mão Negra é profissional, é perigoso e sabe muito bem o que quer. Quando ele deixava o seu esconderijo para mergulhar em suas ações ele jamais voltava com trocadinhos ou relógios e joias. Claro que não. Clemente é ladrão, e dos bons. Você deve estar se perguntando; será que, em oito anos eu não tive a chance de colocá-lo na cadeia? E eu digo que sim. Claro que tive, mas como eu falei no início, Mão Negra é escorregadio demais, seu serviço é limpo e quando se via encurralado, ele atirava para matar.
Certa ocasião ele conseguiu fugir da cena do crime com todo o dinheiro que um certo político milionário tinha guardado no cofre dentro de sua residência. Mão Negra saiu pela porta da frente, sem ser incomodado, sem dar um tiro sequer. O tal político perdeu toda a grana da verba que ele desviava dos hospitais.
Oito anos correndo atrás do rato e o rato sempre se safando, sempre se desvencilhando da ratoeira. As vezes eu recebia ligações do meu chefe no meio da noite me dando ordens para ir até o local onde o malandro havia estado. Minha mulher nunca entendeu muito bem isso. Por mais que eu dissesse que tudo isso era parte do meu trabalho, ela nunca se esforçou para entender. Numa madrugada dessas o delegado Celso Amorim me ligou e aos gritos me informou que Manuel havia entrado no apartamento de um playboy e saiu de lá com cinquenta mil reais, fora os mil dólares que encontrou num pote de biscoito na cozinha. Eu me lembro que não fui direto para o endereço. Rodei os quarteirões ao redor e quase o prendi. Trocamos tiros no meio da rua e o persegui a pé, mas, como ando fora de forma, Mão Negra desapareceu levando toda a grana. Foi a pior noite da minha vida.
Mas graças a Deus tudo isso passou e eu consegui por as mãos no Mão Negra e estou aqui para lhes contar. Fácil não foi, mas é como eu sempre digo: nada dura para sempre. Tanto o bem como o mal, um dia acabarão. Então vamos nessa.

Capítulo 1

Foi numa madrugada de sábado para domingo. Marlene e eu havíamos tido uma baita discussão sobre o fato de eu não lhe dar mais atenção devida. Ela foi a primeira a ir para cama e eu, como sempre, fiquei sentado na varando fumando e bebendo meu Bourbon pensando na vida. Pensando no Mão Negra para ser mais exato. Eu estava chateado demais, pensei em acender outro cigarro ou até mesmo pegar o carro e dar uma volta, respirar um pouco de ar fresco, mas eu não fiz isso. Apaguei o que restará do cigarro na sola do meu Havaianas e entrei. Marlene fingia dormir. Sentei-me na ponta da cama e comecei a acariciá-la por debaixo do cobertor. A princípio houve uma certa resistência, mas aos poucos ela foi cedendo.
— Vamos nos entender? – perguntei eu.
— Venha logo.
A alegria com minha mulher durou só vinte minutos. Fizemos amor como nos velhos tempos de namoro. Marlene estava sensacional naquela noite. Depois do banho eu já tinha relaxado na cama e o sono começava a dar as caras quando meu chefe me ligou. Marlene não disse nada, apenas murmurou baixinho, (me xingando provavelmente).
— J.A falando. – atendi.
— O ladrão atacou novamente, foi num motel bem próximo da sua casa, vá até lá agora.
Mais que merda! Pensei.
— Tudo bem. 
Encerrei a ligação e virei-me para minha mulher que já não queria mais assunto comigo.
— Tenho que sair.
Ela deu de ombros.
Eu amo ser policial, é o que eu sei fazer de melhor, mas confesso que tem dias – como esse por exemplo – que de verdade eu penso em jogar tudo para o alto e desistir. Mas não adianta. Tenho a lei correndo em minhas veias, minha missão ainda não acabou. Enquanto eu não puser às mãos no maldito do Manuel Clemente eu não vou me aposentar, não vou desistir. Foi o que fiz. Me vesti. Peguei as chaves, meu distintivo, minha arma e fui. Caí na madrugada.
*
Cheguei ao motel por volta das duas da manhã aborrecido e com sono. Desci do carro fechando o ziper da jaqueta e olhando ao redor buscando visualizar Amorim. Ele ainda não havia chegado, graças a Deus, porém minha animação durou pouco quando olhei para a recepção do estabelecimento e reconheci Pavanelli conversando com um suposto funcionário do lugar. Empurrei a porta e entrei.
— Grande João Antônio. – disse ele com aquele sorrisinho enviesado que tanto me irrita.
— Pavanelli. Como chegou tão rápido? – Coloquei as mãos nos bolsos da jaqueta.
— Sabe como são as coisas né, um jornalista precisa estar antenado, mesmo na madrugada. – mostrou o celular.
A minha vontade era de agredi-lo, mas verdade seja dita, Pavanelli querendo ou não já me foi muito útil em outros casos. O bicho é inteligente.
— O que temos aqui? – olhei ao redor.
— Mão Negra ataca novamente. – apontou para o cartão de visitas do ladrão em cima do balcão. Uma folha de A4 com uma mão negra xerocada toda amassada.
— Caramba! – exclamei cansado. – e quanto foi dessa vez?
— Hum, o grande J.A precisando da ajuda da imprensa? – desdenhou.
— Fala logo.
Pavanelli sacou seu bloquinho de anotações. Minhas pernas estavam bambas.
— Segundo me relatou o gerente, ele saiu daqui com 15 mil reais, fora os pertences dos clientes.
— Carambolas! – falei entre os dentes. Nesse momento, Amorim empurrou a porta da entrada furioso.
— O que ele faz aqui? – vociferou.
— Boa noite para o senhor também, delegado.
Celso Amorim odeia Pavanelli mais do que eu. Essa guerra já é antiga, desde quando estávamos atrás do “Piloto”, um traficante de drogas perigoso que, graças a intromissão de Pavanelli, um dos nossos policiais quase foi morto. Hoje o pobre agente vive numa cadeira de rodas sobrevivendo de uma aposentadoria de merda.
— Vou pedir uma vez só: saia. – falou Amorim com o rosto vermelho feito um pimentão.
— Mas... – encolheu os ombros. 
Amorim gesticulou para os dois PMs que o acompanhava e os mesmos avançaram para cima do jornalista indefeso.
— Isso é censura hein. – gritou.
— Tire esse bosta daqui.
Ele se virou para mim.
— Alguma pista?
— Acabei de chegar. – pigarreei. – só temos aquilo por enquanto. – lhe mostrei o papel.
Contei tudo o que Pavanelli havia me contado para o delegado. Andamos pelo motel, olhamos quarto por quarto atrás de uma pista que nós dois sabíamos que não existia. Conversamos com clientes, funcionários e chefia. Lá pelas tantas saímos do lugar ainda sem nada nas mãos. Amorim estava visivelmente frustrado.
— Ele se safou novamente. 
— Se o senhor quiser eu posso montar uma equipe de busca e...
— Não. Esse caso já era. – abriu a porta da viatura. – quero você às nove no meu gabinete. Temos que alinhar nossas ideias. Já passamos da hora de prendermos esse otário.
— Certo!
Os pneus da viatura deixaram poeira para trás e eu permaneci ali, parado olhando para o motel. Eu também estava frustrado querendo arrancar a cabeça do miserável, mas isso não me levaria a lugar algum. Ir para casa não era uma opção, então resolvi enfiar a cara no trabalho. Voltei para dentro do motel e fui até o gerente.
— Preciso das imagens das câmeras de segurança. Agora.

Capítulo 2

Manuel Clemente chegou ao lugar onde se esconde suado, exausto e um pouco mais rico também. Quinze mil reais em uma só noite não é uma coisa que acontece com frequência. Ele abriu a outra bolsa e conferiu com cuidado o seu conteúdo. Celulares, anéis, tablets e relógios, tudo isso ainda deve-lhe render uma boa grana. Manuel é produto de uma família sem base alguma. Sua mãe foi uma mulher que, ainda na adolescência sofreu abuso sexual e acabou engravidando de seu agressor. Seu irmão mais velho cresceu assistindo as surras dadas pelo padrasto em sua mãe todos os dias. Mesmo em meio a esse inferno, sua mãe engravidou pela segunda vez. Aos sete meses de gravidez, seu padrasto a surrou tão violentamente que ela precisou ser hospitalizada, mas graças a Deus o pequeno Manuel não sofreu nada. Após uma semana de internação, sua mãe teve alta e infelizmente ela pôs em prática o que planejou enquanto estava naquele leito. Seu padrasto dormia no quarto quando foi esfaqueado até a morte aos gritos de “vai agredir mulher no inferno, seu covarde". A polícia chegou e não houve resistência. Sua jovem mãe foi levada algemada com o rosto sujo pelo sangue do miserável. Manuel Clemente nasceu na prisão e foi adotado por outra família. Clara Clemente se envolveu numa confusão entre as presas e acabou sendo estrangulada.
Nessa nova família Manuel não era bem vindo pelos filhos do casal. Sofria com chacotas e até humilhações. Quando atingiu a maioridade, ele resolveu sair de casa e construir sua vida sozinho. Foi quando conheceu o submundo do crime. A princípio Manuel agia com mais dois companheiros. Eles roubavam lotéricas e postos de gasolina, tudo era dividido em partes iguais até que um dia Clemente se viu sendo roubado pelos próprios amigos. Fora de controle, Manuel sacou sua arma e os matou ficando com todo o dinheiro do roubo.
Mão Negra. De onde ele tirou esse vulgo? Até hoje ele não sabe. Talvez ele tenha visto num filme ou notícia de um jornal qualquer. Ele apenas sabe que o apelido pegou. Mão Negra o maior ladrão da história. Age sem deixar rastros, é perigoso e se sentir acuado ele mata. 
*
O sono bateu forte quando eu ainda assistia as imagens das câmeras de segurança do motel. Não foi nada fácil ficar ali olhando a ação do Mão Negra sem poder fazer nada, não é possível que ele vá sair livre dessa mais uma vez. O sujeito é mesmo um cara de pau, age sem medo, de cara limpa, sem receio das câmeras. Assalta na maior tranquilidade. Escorregadio demais.
Eu havia pedido um café forte sem açúcar e enquanto aguardava algo me veio à mente.
— Os localizadores dos celulares. – esqueci o café e fui trabalhar.
Andei com pressa até a recepção onde os clientes ainda conversavam com o gerente. Interrompi a celeuma existente ali perguntando bem alto quem costumava manter o localizador ativado. Somente um rapaz disse que sim.
— E por um acaso o seu aparelho se encontra sincronizado com outro?
— Sim. Minha mãe faz questão de saber cada passo que dou.
— Legal. Obrigado a todos. – me despedi, mas levei o rapaz para fora comigo. 
*
Amorim havia começado a tal reunião às nove em ponto. Ele olhou em volta e não viu João Antônio na sala.
— Mais que merda, cadê o J.A?
— Ele me ligou dizendo que se atrasaria, senhor. – informou outro policial.
Após passar as mãos na cabeça de poucos cabelos o delegado resolveu seguir com o plano mesmo sem o seu investigador responsável pelo caso.
— Quero um pente fino nos arredores daquele motel. Mão Negra deve estar por perto. Vou manter as patrulhas circulando pra cima e pra baixo vinte quatro horas, enquanto isso quero vocês nas ruas, becos, vielas, bueiros, sei lá, mas peguem esse sujeito. 
O celular de Amorim tocou em cima da mesa. 
— Aonde você está que não se encontra em minha sala?
— A caminho da casa do Mão Negra. 
Amorim ficou boquiaberto. 

Capítulo 3

Eu na verdade estava em frangalhos pensando em minha Marlene o tempo todo. Pensando nos dias felizes que tivemos juntos no início do nosso relacionamento. Era bom demais. Lembro-me que ela sempre me recebia com um sorriso largo, cabelos molhados e uma pele fresca após tomar uma ducha demorada. Era a moça mais cheirosa daquela vila. Ficávamos horas grudados assistindo a TV e é claro, trocando deliciosos beijos. Até hoje somos assim, um apaixonado pelo outro, mas as circunstâncias da vida estão nos afastando a cada dia. Eu não posso perdê-la. Não consigo imaginar a minha vida sem a minha Marlene, minha cheirosa. Preciso prender logo o maldito do Mão Negra antes que ele destrua de vez o meu casamento.
Por ser ainda muito cedo a cidade que é considerada a mais movimentada do país se encontrava numa calmaria onde era possível ouvir ecos dos latidos dos cães do outro lado do bairro. Segundo o localizador, o Mão Negra havia estado numa das ruas mais perigosas daquela região. Antes de descer do veículo verifiquei minha arma. Estava tudo ok. Desci e percebi o quanto o estado havia abandonado aquele lado da cidade. A rua parecia ter sido bombardeada tamanho era o número de buracos ali. Alguns até com entulhos jogados pelos próprios moradores na vã tentativa de amenizar a situação. Celso Amorim deu-me ordens para que o aguardasse, mas sabe como são as coisas não é. Tenho a lei circulando nas veias, e além do mais ele demorou muito, o dia todo praticamente. Segundo ele, surgiram outros assuntos que eram de sua alçada. Caminhei com minha arma em punho e driblando os buracos. Passei por um monte de sacos e uma caçamba que transbordava de lixo. Uma voz pastosa me fez saltar.
— Passeando uma hora dessa, coroa?
— Merda! – girei nos calcanhares. – polícia fique parado.
De dentro da caçamba saiu um sujeito magro, mal vestido, mal cheiroso e com pouquíssimos dentes sadios.
— Opa, eu não fiz nada de errado não, autoridade. Eu só queria saber se o senhor tem fogo. – mostrou metade de um cigarro amassado.
— Não, eu não fumo. – menti e abaixei a arma. 
Dei as costas para o mendigo e retomei minha caminhada. Mais uma vez o sujeito fez meu coração disparar.
— Tá afim de comprar um celular?
— Não! – respondi ainda andando.
— Um sujeito me acertou com ele, mas o aparelho parece que foi atropelado por um caminhão.
Liguei meu alerta. Virei-me e lá estava o morador de rua segurando o telefone com a tela toda trincada.
— Você viu o cara, viu para onde ele foi?
O sujeito coçou algumas vezes a cabeça e a barba antes de me responder. Eu já estava irritado.
— Ele não é estranho. Raramente ele sai de casa e quando o faz, faz sempre a noite.
As viaturas chegaram jogando seus fachos de luz dos faróis iluminando nossos corpos. Só agora pude ver o quanto o sujeito era desnutrido.
— Você sabe onde é a casa dele?
— Aquela. – apontou para uma verde claro com muros médios e portão de madeira.
Amorim parou bem próximo de nós dois. Sua expressão não era nada boa.
— Resolveu parar e fazer uma caridade, cadê o Mão Negra?
Eu também estava de saco cheio do Amorim, as vezes penso em meter uma bala na cara dele.
— Aquele é o esconderijo dele. – tomei o celular das mãos do mendigo. – esse era o celular que estava com o localizador ativado. Provavelmente ele sacou isso e destruiu o aparelho.
— Sacanagem! – abriu o paletó e colocou as mãos na cintura. – Atenção pessoal, vasculhem aquela casa. Venha comigo J.A
Andamos até a outra ponta da rua, numa esquina de onde era possível ver os primeiros brilhos do sol despontando do outro lado da cidade. Lindo visual. Celso guardou sua arma no coldre por dentro do blazer.
— Por hoje chega.
— O que? – franzi a testa.
— João, estamos cansados, você está cansado. Vamos para casa. Vou marcar uma reunião no próximo plantão.
— Mas chefe, Manuel Clemente pode estar por perto. 
— Mão Negra não está mais aqui, aonde quer que ele esteja agora, ele sabe que estamos aqui. Vá para casa J.A. é uma ordem. – bateu em meu peito.
Eu tive que acatar suas ordens. Era verdade! Amorim estava coberto de razão, eu me encontrava morto de cansado, com sono e não é pra menos. Já não sou aquele mesmo policial de vinte poucos anos que virava a noite atrás de vagabundo. Com a graça de nosso Senhor cheguei aos 53, mas confesso que meu corpo já não suporta mais tantas emoções.
Voltei com Celso para a frente da casa de Manuel onde o restante do nosso pessoal já o aguardava.
— Nada senhor. – informou um sargento.
— Positivo. Vamos embora.
Eu entrei em meu carro ainda tentando engolir as ordens do meu chefe. Me olhei no retrovisor e vi um homem acabado. Barba por fazer, bolsas se formando embaixo dos olhos e a cada dia que se passa minha calvície se torna mais acentuada. Complicado. Mas eu creio que envelhecer é pra quem pode e não pra quem quer, então vamos nessa.
Quando parei de me “admirar” no espelho só restará eu no local. Olhei para a casa do Mão Negra. Respirei fundo e desci, dane-se as ordens. Não sei porque cargas d'água Amorim não deixou ninguém de guarda e nem a isolou. Ele realmente deve ter tido um dia daqueles. Eu só agradeci por isso. Entrei na casa e simplesmente me surpreendi. Sem móveis, sem quadros, luz fraca e um cheiro horrível de comida estragada, além de ladrão é porco. Fui até o quarto e lá só havia um colchão de solteiro. Pois é, realmente o nosso querido Mão Negra manteve a regularidade. Sem pistas.
Revistei todos os cômodos da resistência, mas foi no banheiro que a minha sorte começou a mudar. Assim como a cozinha, o banheiro fedia bastante, meu estômago queria sair pela boca, mas eu precisava seguir com a busca. No local tudo estava em ordem; sabonete, papel higiênico, barbeador barato e...
— Quem procura acha.

Capítulo 4

Ladrão que é ladrão não fica por ai tomando trocados ou pegando celulares de transeuntes desprevenidos nas ruas. Se for para assaltar, correr risco de morte, que seja por algo grande, que valha a pena. Manuel Clemente é bom no que faz e nunca se arriscou por pouca coisa. O “trabalho” dessa noite foi como tomar doce da boca de criança. Fácil demais. As sete da manhã ele dorme tranquilamente em outro esconderijo, numa casa que fica exatamente no centro da cidade, num bairro onde ninguém sequer pode imaginar que o famoso Mão Negra possa estar. Sujeito esperto. Às nove ele acordou, tomou um banho ligeiro. Engoliu algumas torradas com café puro e saiu afim de se livrar dos bens materiais roubados no motel.
O lugar onde Manuel costuma negociar seus produtos fica num conjunto habitacional há algumas longas quadras de onde ele se encontra escondido. O lugar é perigoso e sujo conhecido como “A Teia”. Lá dentro existe um tipo de mercado negro onde até vidas humanas são negociadas. Mão Negra tocou duas vezes no portão de ferro. Do outro lado uma voz rouca soou aterrorizante.
— A senha!
— Não há senha. 
O portão foi aberto. Um sujeito negro, alto com cara de maluco surgiu o saudando.
— Ora, ora, se não é o Mão Negra. O que manda meu velho?
— Negócios. – Manuel não estava suportando o hálito podre do segurança.
— Ah tá. O chefe está lá dentro. Boa sorte. 
O tal chefe é um senhor de no mínimo 70 anos que não consegue se locomover sem o auxílio de sua inseparável bengala. Ele mesmo a fez e dizem que nela há poderes mágicos.
— Poderoso Rufino. – saudou Mão Negra. 
— Mão Negra. Vamos entrando. O que tem pra mim?
A sala é escura, abafada, suja e fede a urina de rato.
— Celulares, relógios e joias. 
— Deixe-me ver. – pegou seus óculos de grau fortíssimo. Manuel colocou a bolsa em cima da mesa e a abriu. – hum, beleza. Quanto quer por isso?
— Vinte mil. 
Rufino tossiu. Uma tosse típica de idoso encatarrado.
— Acho que não. Que tal cinco?
Mão Negra arqueou as sobrancelhas e olhou para a bengala mágica.
— Sete?
Rufino o encarrou com sua expressão fantasmagórica por alguns segundos. Pegou a bengala e a mostrou para o ladrão. 
— Ela está mandando você pegar os cinco e cair fora daqui.
Tá amarrado!
— Negócio fechado. 

Capítulo 5

Ao despertar antes mesmo do horário habitual, Marlene deu uma rápida olhada para o lado direito da cama e não viu seu marido. Ao se dar conta de que havia mais uma vez dormido sozinha, a esposa de J.A pensou em pegar o celular e descarregar toda sua fúria sobre ele, mas hesitou. João Antônio pode ser qualquer coisa, mas nunca foi um mau marido. “Uma mulher sábia edifica sua casa e a tola a destrói com suas mãos” foi o que ela aprendeu lendo os sagrados textos bíblicos. Marlene pegou o celular sim, mas não para atear mais gasolina na fogueira.
— Oi, querida?
— Oi. Como vão as coisas?
— Acho que dessa vez eu consigo pôr as mãos no desgraçado.
— Ótimo. Você é o meu herói. Vá pegá-lo, por mim.
— Deixa comigo, princesa.
— Eu te amo. – um nó se formou em sua garganta.
— Também te amo querida.  
*
Estou velho, meio barrigudo, mas nunca cansado. Confesso que o sono de uma madrugada inteira sem dormir já começara a me debilitar, mas eu precisava manter o ritmo. O meu próximo plantão seria dali a vinte quatro horas, tempo o suficiente para que o Mão Negra conseguisse escapar. Eu não poderia esperar. Eu estava motivado, minha mulher me colocou outra vez em combate. Liguei sem receios para Amorim.
— Celso Amorim falando.
— Fala chefe! Encontrei uma parada importante no esconderijo do Mão Negra.
— O que, como assim, você ainda está aí?
Engoli seco.
— Me perdoe por desobedecer suas ordens, chefe. Mas, eu acho que estamos perto de pegar o cara.
Eu pude ouvir a respiração do delegado se tornar ofegante.
— Depois conversamos sobre isso. Diz o que achou?
— Mão Negra segue uma linha de pontos a serem atacados e eu tenho quase certeza que sei onde será o próximo ponto.
— Segue...
— Conhece a Tempo dos Lírios?
— Sim, a maior e mais cara loja de produtos de higiene pessoal da cidade.
— Isso mesmo. Esse é o próximo ponto a ser roubado. 
— Pelo amor de Deus, J.A, como você sabe disso?
— Ele esteve lá e ainda fez uma pequena compra. 
Nesse momento eu olhava para o pequeno frasco de sabonete líquido, produto exclusivo da tal loja que coloquei em cima do painel do meu carro.
— Certo! Me encontre em uma hora lá no departamento.
*
O ser humano nunca está satisfeito com nada, quanto mais tem, mais quer. Os quinze mil reais que pegou do motel ainda não foi o bastante e por isso Manuel Clemente já se prepara para o próximo “trabalho”. Mas ele também sabe que a polícia anda atrás dele, o Mão Negra se tornou uma figura carimbada em toda região e isso é péssimo. Ser um criminoso procurado é viver cada dia entre dois caminhos: prisão ou morte. Nenhuma das duas lhe agrada. Mão Negra — segundo ele próprio, nasceu para ser livre, nasceu para viver, então que seja assim. Ao trabalho. 
*
Eu aproveitei esse intervalo de uma hora dada por Amorim para passar em casa e beijar minha mulher. Ela me recebeu surpresa. Marlene não esperava me ver ali. Nos beijamos na porta da cozinha durante um bom tempo, me senti um garoto apaixonado abraçado a menina amada da escola. Marlene fez café, pão fresco e ovos mexidos. Comemos e conversamos bastante. Ela estava linda, um doce de pessoa como sempre foi.
— Que tal quinze dias no Sul? – sugeri. Ela não acreditou.
— Tá falando sério?
— Sim! Minha aposentadoria está pertinho e para comemorar, que tal quinze dias fora dessa cidade, sem Amorim e é claro, sem Mão Negra?
— Ai amor, acho ótimo. 
Ela me beijou outra vez. 
— Já pode ir fazendo as malas.
— É pra já. 
*
Entrei na sala do chefe Amorim e o mesmo demonstrava um cansaço quase palpável. A vida do meu delegado também não tem sido nada fácil. Ele divorciou-se há dois anos e nesse tempo conheceu uma mulher a qual faz de sua existência um inferno. Celso nunca foi de verdade apaixonado por ela, tudo o que ele queria era curtição e causar ciúmes na ex. Pobre coitado.
Na sala já haviam cinco outros agentes aguardando o início da reunião. Ao me ver, Amorim não esboçou qualquer expressão. 
— Pessoal, é o seguinte; o Mão Negra vai atacar novamente e o nosso colega J.A sabe aonde será. Temos uma chance e eu a quero aproveitar. Já estou de saco cheio dessa história. Por isso vamos montar guarda disfarçada no local e pegar o safado. É simples. 
— Terá que ser uma operação limpa, ninguém precisa sair ferido. – falei.
— Exatamente. – bateu palmas. — Valeu pessoal. Dispensados. Menos você, João Antônio. 
Nessa hora eu perdi o chão. Assim que se viu sozinho comigo, Amorim ocupou uma das cadeiras e desabafou.
— Sabe porque não deixei ninguém guardando o esconderijo do Mão Negra? Porque eu sabia que você não cumpriria minhas ordens de ir embora. Você é um baita profissional, João, e pode não parecer, mas eu o admiro muito. Sabia que você entraria naquele lugar e encontraria algo que os outros não seriam capazes de encontrar. J.A, o melhor investigador que já trabalhei. Fará muita falta, pode acreditar.
Eu queria chorar, mas me segurei.
— Obrigado, chefe. – apertamos as mãos. 
— Vá lá prender o Mão Negra.  

Final

No início da profissão eu duvidava da minha capacidade. Nunca imaginei que me tornaria o policial que sou hoje. Eu sei que, assim como eu, existem milhares, mas o que estou dizendo é que, quando ingressei na polícia civil, minhas pretensões não eram tão ousadas assim. Hoje estou aqui, perto de me aposentar, satisfeito com o que fiz até agora e com a prisão do miserável do Mão Negra isso será selado de vez. Fizemos o que Amorim mandou. Montamos guarda secreta nos arredores da loja de produtos de higiene pessoal e nos revestimos de paciência. Um bom policial precisa saber esperar. Esse plano tinha que dar certo.
*
Manuel Clemente verificou se não havia esquecido de nada. Por via das dúvidas ele resolveu tirar tudo de dentro da bolsa e conferir item por item. O principal se encontrava em sua cintura, uma pistola calibre 45. Ele fechou a bolsa. Ajustou o relógio e saiu. No bolso do casaco a folha de A4 com uma mão xerocada, isso sim chega a ser mais importante que sua própria arma. Manuel faz questão que todos saibam que foi ele quem cometeu tal crime. O Mão Negra precisa assinar seu feito. Ele deixou o apartamento de um prédio caindo aos pedaços e sem elevador com a noite saudando seus admiradores.
*
Eu sabia que demoraria, por isso fui prevenido. Eu não estava sozinho, no local onde estávamos havia mais dois comigo. A fome bateu forte, então decidi sacar meu sanduíche de queijo mussarela sob os olhares dos meus companheiros.
— Eu só tenho este. – os alertei.
— Quer dizer que vamos ficar aqui dentro desse carro esperando até sabe-se lá quando e com fome? – disse Ramiro.
— E por falar em esperar. – falou o Silva. – O Mão Negra virá hoje mesmo?
— Hoje eu não sei, mas essa loja é o próximo alvo dele, disso eu tenho certeza. – mordi o lanche.
— Por quanto tempo essa operação deve seguir? – perguntou Ramiro.
— Até sairmos com o Mão Negra algemado. Nós temos uma chance e eu não vou desperdiçá-la, mas se vocês quiserem desistir é só falar que eu ligo para o delegado.
Ouve-se um silêncio dentro do veículo. 
— Legal! Agora foquem na missão.
Ele apareceria, eu tinha certeza. Não sei o que, mas algo me dizia que Mão Negra não passaria daquela noite. Eu estava no banco do carona olhando para fora, de uma certa forma eu admirava a noite. Sempre gostei da paisagem noturna e nunca tentei entender, mas eu sempre adorei. Ele virá. Celso Amorim chamou no rádio.
— Como vão as coisas por ai?
— Estão indo. – respondi.
— Se quiser eu posso trocar o turno.
— Eu vou ficar. – respondi por mim. Ninguém me tiraria da li.
Ramiro e Silva disseram que também ficariam até o amanhecer se caso precisasse.
— Bom trabalho, rapazes.
Voltamos ao silêncio. Ramiro bocejava o tempo todo enquanto que Silva enviava mensagens cretinas para sua namorada pelo Whatsapp. Por volta das duas da manhã vi uma movimentação estranha perto da loja. Era ele. Mão Negra. Chamei atenção dos meus companheiros dentro do carro e também dos que estavam fora.
— Atenção rapazes, o nosso alvo chegou. Ao meu comando somente. – disse eu ao rádio. 
Lá estava ele, o ladrão. Calça jeans, botas, casaco cinza e uma bolsa de viagem atravessada no tronco. Mão Negra. O sujeito era audacioso, mal se preocupou com as câmeras ou se havia seguranças dentro ou ao redor da loja. Rapidamente ele sacou uma ferramenta e já a introduzindo na fechadura. Meu sangue ferveu nessa hora. Quanta sensação de impunidade, que certeza é essa de que nunca será pego? Essa farra terá fim hoje e agora. Foi o que pensei.
— Atenção tropa, me dêem cobertura, vou descer.
Ramiro me segurou no ombro direito.
— Tenha cuidado!
Desci do carro. Caminhei com minha arma em punho e com o coração batendo na garganta. Ele ainda tentava abrir o portão de ferro quando falei.
— Quer uma mãozinha, amigo.
*
Aconteceu como se eu tivesse visto tudo em câmera lenta. Mão Negra girou o corpo sacando sua arma. Eu apontei e atirei ao mesmo tempo que ele. Senti medo de morrer, de deixar minha Marlene viúva, da nossa segunda lua de mel no Sul do país. Manuel Clemente não poderia se safar dessa vez. Eu senti o calor da bala passando a centímetros da minha cabeça e vi o Mão Negra cair batendo as costas no portão de ferro segurando o ferimento no ombro esquerdo. Ele me xingava horrores.
— Você está preso, Mão Negra. – eu disse com meus companheiros correndo em meu auxílio. 
— Mas que merda foi essa J.A? Você está bem? – gritou Silva.
Eu não respondi, apenas permaneci ali parado assistindo o maldito ser algemado. Missão cumprida.

Tempos depois, em meu último dia como agente da polícia civil, eu terminava de empacotar minhas coisas quando Silva chegou em minha mesa correndo. 
— Amorim solicitou sua presença na sala dele.
— Putz!
Deixei a caixa com meus pertences em cima da mesa e fui. Silva foi atrás de mim me dando apoio psicológico. Abri a porta do gabinete do meu chefe raivoso e vi todos do departamento aglomerados lá dentro.
— Parabéns, grande J.A. – berrou Celso. 
Ruborizei e não segurei a emoção. Os aplausos ecoaram naqueles poucos metros quadrados. Amorim foi para trás de sua mesa. Abriu a gaveta e tirou de lá um quadro.
— Mandamos fazer pra você. 
Amorim passou as minhas mãos a folha de A4 com a mão negra emoldurada. Muitos não entenderão, afinal, o que o cartão de visitas de um ladrão tão perigoso e que quase destruiu o meu casamento faz pendurado na sala de minha casa? Pois é, mas para mim significa muito. Depois desse dia fui pra casa, para os braços da minha Marlene e como o prometido, fomos para o Sul curtir nossa segunda e mais longa lua de mel. FIM.