sábado, 22 de março de 2025

Os Olhos Da Lua Cheia

 


Os Olhos Da Lua Cheia 


Vou direto ao assunto. Eu odeio o meu pai — Que o diabo o tenha. Quanto à minha mãe, tenho lá minhas reservas. Ela poderia muito bem ter me abortado ou sei lá o que, mas não. Ambos, imersos numa maldição e miséria infinda, decidiram pôr no mundo alguém inocente para sofrer junto com eles. Isso foi de uma ignorância sem tamanho.

 Seu Antônio Salgueiro, meu pai, ou melhor,(o cara que ejaculou dentro da dona Maura, minha mãe), sempre foi um homem pobre, daqueles que vendem o almoço para conseguir a janta. Seu Antônio conheceu Maura, uma mulher mais miserável que ele que, para conseguir ter um prato de sopa de mato precisou deitar-se com o porco do dono da vendinha do vilarejo, um coroa barrigudo que fedia a cigarro e a pinga de péssima qualidade. Antônio e Maura uniram-se e foram morar numa casa(se é que posso chamar aquilo de casa) no final do vilarejo, quase perto da mata. Ali viveram seus piores anos. Havia falta de tudo(tudo mesmo) segundo me foi relatado, ambos passaram um mês comendo calango e sobras que estavam nas latas de lixo dos vizinhos.

 Desesperado. Sem trabalho. Sem profissão e sem esperança. Certa noite, com o estômago encostando nas costas, seu Antônio resolveu sair pelas ruas em busca de algo para se alimentar. Minha mãe preferiu ficar rezando o terço debruçada na janela. Segunda ela, conversar com Deus a alimentava(mentira pura).

 O homem que me deu origem pegou um atalho o qual nunca tinha visto antes. Sua intenção era poder chegar até a cidade o mais rápido possível e catar nas latas de lixo dos restaurantes alguma “sobra boa”, mas tal atalho não o levou até o centro, mas sim a um tal de Valdo e uma tal de Tábata, que por sinal era uma mulher extraordinariamente linda. Eles estavam na beira da rua de barro, cada um segurando uma lamparina de querosene,(esqueci de falar que meus pais moravam na roça e na época ainda não haviam postes de iluminação).

— Estão perdidos? — Antônio perguntou.

— Não! — respondeu Valdo. — estávamos aguardando por você.

 O velho Antônio achou aquilo uma tremenda falta de respeito.

— Que conversa é essa? — rosnou.

— Não o leve a mal, Antônio. Valdo falou a verdade, nós estávamos mesmo esperando por você.

— Mas, eu nem sei quem são vocês…

— Nos perdoe a falta de jeito. Eu sou Tábata e este é meu companheiro Valdo e é verdade, queríamos falar com você e faz tempo.

— Se for para pedir dinheiro emprestado já vou logo dizendo, eu não tenho nem…

 A entidade masculina riu.

— Tá rindo do que? — Cruzou os braços.

— Sabemos disso. — Valdo seguia rindo. — Por isso queremos lhe fazer uma proposta.

 Antônio estreitou os olhos.

— O que acha de prosperar sem esforço algum? — Tábata abriu os braços.

— Prosperar, que diabo é isso? — enterrou as mãos nos bolsos.

— Prosperar, ter muita grana, poder viajar, comer do bom e do melhor. — Valdo continuou.

— Ah, sim. Eu acho bacana, mas…

— Então, Antônio. Mas para isso vamos precisar de uma assinatura sua…

— Como você sabe o meu nome?

 De repente a expressão de Valdo se tornou tão fria quanto a de um iceberg.

— Sabemos tudo sobre você, Antônio. Conhecemos o seu sofrimento, por isso estamos aqui para te ajudar. E aí, quer mudar de vida ainda esta noite? — Ele sorriu.

 Novamente a fome apertou e apertou pra valer e ante a isso Antônio não teve outra alternativa.

— O que tenho que fazer?

— Simples! Você só precisa beijá-la.  — Apontou para a mulher ao lado.

— O que? — Vociferou.

— O que ouviu, meu caro Antônio Salgueiro. Basta experimentar os lábios de minha companheira e serás próspero, agora. Já.

 Antônio tirou as mãos dos bolsos e em seguida cruzou os braços novamente olhando para a deusa parada ao lado do homem de cabelos muito bem penteados para trás. Não seria má ideia. Pensou.

— É só beijar e pronto, vou ficar rico?

— Não fui claro o suficiente? — Valdo abriu os braços.

 O trio ficou em silêncio se olhando por um tempo até que o estranho homem se mostrou impaciente.

— Acho melhor irmos, Tábata. Há outros que adorariam receber a nossa ajuda.

— É verdade.

— Calma aí. Eu só estou confuso. É só beijar a moça e pronto?

 Tábata caminhou lenta e sedutoramente em direção a Antônio ficando cara a cara com ele.

— O que achou dos meus lábios?

 O homem parecia hipnotizado.

— Lindos. — expirou.

— Sinta como são mornos.

 O hálito de Tábata era semelhante ao cheiro da maçã verde. O velho  Tonho não resistiu.

— Isso mesmo, sinta o gosto dela. — Balbuciou o outro ser.

 Antônio estava totalmente envolvido por Tábata ao ponto de não sentir e nem saber o que se passava ao redor. 

— Ótimo, Tábata, acho que já deu.

— Já deu o que? — Antônio estava desnorteado e respirava com dificuldade.

— Parabéns, você agora é um homem próspero. — bateu palmas Tábata.

— Assim que você chegar em casa, corra direto para o quarto. Embaixo do colchão você vai encontrar várias notas de cem, são todas suas, faça bom uso delas. — Orientou Valdo.

— Mas, era só isso mesmo? Só um beijo… e o que vocês ganharam em troca?

 A dupla do inferno riu maliciosamente um para o outro.

— Vá para casa, bom homem. Divirta-se com Maura e seja feliz. — Os olhos do sujeito pareciam brasas vivas.

 Antônio seguiu as orientações de Valdo. Ao chegar em casa ele foi direto para o quarto. Maura já estava no décimo quinto sono roncando feito um trator.

— Levanta, mulher.

— Caramba, você me assustou. — protestou ajeitando as madeixas negras como a noite.

— Saia de cima da cama. — falou ofegante.

— Mas…

 Foi preciso empurrá-la. Assim que o caminho foi liberado, Antônio levantou o colchão e como Valdo havia falado lá estavam as centenas de notas de cem reais. Maura quase infartou.

— Jesus, Maria e José. De onde saiu isso?

— Vou te contar tin tin por tin tin.

 Mas é claro que o malandro não contou sobre o lance do beijo de língua que deu na gostosa da Tábata, caso contrário ele não teria me feito naquela mesma noite.

 Meus “queridos” pais prosperaram de fato. Eles compraram a melhor casa do vilarejo. Passaram a comer bem e mais de cinco vezes ao dia. Dona Maura conseguiu até alguns quilinhos, coisa que agradou e muito ao senhor Antônio. Compraram um carro e uma moto. Tudo estava indo muito bem até que mamãe anunciou a famigerada gravidez desse que vos conta esta história. O velho Antônio sentiu vontade de fugir, mas o pior ainda estava por vir.


*


Quando minha mãe completou oito meses de gestação, seu Antônio mexia na caixa de ferramentas na varanda de casa em busca de duas chaves da boca. Elas haviam desaparecido fazia algum tempo. Isso era por volta das vinte horas quando o mesmo começou a convulsionar. Dona Maura se desesperou.

— Meu Pai!

 Antônio salivava. Gritava. Se contorcia e não conseguia ficar de pé direito. Mamãe entrou em pânico.

— Socorro. Alguém me ajuda. — Berrou.

 O cara que pegou minha mãe tentou ficar de joelhos. Após muito esforço ele conseguiu, mas algo ainda pior estava para acontecer. Mamãe assistiu apavorada a pele do marido perder o tom de cor e dar lugar a pelos. Sim meus amigos. Pelos de fios grossos, negros, e não só isso; às unhas, tanto das mãos como dos pés caíram nascendo no lugar garras enormes. Seu Antônio se transformou num lobisomem bem ali na varanda de casa, na frente da esposa grávida. Dona Maura não suportou a bronca e apagou.

 Ao despertar sentindo uma terrível dor de cabeça, dona Mauro ainda pode ouvir gritos de horror e falatórios vindos de todo o vilarejo. Um dos poucos vizinhos que ainda falava com eles(sim, meus pais eram pessoas de poucos amigos), foi em auxílio a minha mãe com os olhos esbugalhados de pânico.

— Maura, Maura, a senhora está bem, viu o coisa ruim?

— É o Antônio. — Chorou. — ele se transformou naquilo bem aqui.

— Tá de brincadeira, sério? Temos que chamar as autoridades.

— Meu Deus, o que vão fazer com meu marido?

 O vizinho a levou para sua casa e enquanto isso, seu Antônio, ou melhor, o lobisomem seguia deixando seu rastro de sangue e de terror por onde passava. Somente naquela noite foram mais de dez vítimas, todas devoradas até os ossos. Não só o vilarejo como o restante da região não foram mais os mesmos após esse incidente.

 Quando finalmente a lua cheia desapareceu, o lobisomem ainda mastigava parte de um intestino quando Antônio ressurgiu.

— Maura, cadê você amor? — disse segurando o órgão.

— Ela está bem, Antônio. — respondeu Valdo.

 Por incrível que pareça seu Antônio não se assustou. Ele apenas deixou cair o seu alimento e olhou para aquela figura estranha logo atrás dele.

— O que aconteceu comigo?

— Você prosperou, meu querido. Já se esqueceu? — sorriu.

— Sim, mas, se eu soubesse que iria me tornar num bicho…

 A criatura fez sinal de silêncio.

— Você aceitou a proposta, beijou a Tábata e diga-se de passagem, você gostou do beijo dela. Não foi?

 O licantropo abaixou a cabeça admitindo.

— Então, seja homem e assuma as consequências de seu ato. — olhou para o céu e viu as nuvens descobrindo a lua. — Hora do show.

— O que? De novo NÃO…

 O uivo foi tão alto e tão perturbador que Valdo precisou aplaudi-lo.

— Que belo animal, o mais belo que eu já vi. — o acariciou no focinho. — ainda com fome?

 Outro uivo.

— Certo! Não vou tomar seu tempo. Vá caçar, vai.


*


Após três noites de puro inferno naquela região abandonada pelo resto do mundo, finalmente a lua cheia desapareceu de vez e o pobre Antônio pode voltar para casa. Estranhamente minha mãe o acolheu. Ele se encontrava sujo, ferido e com o seu emocional abalado exalando um mal cheiro fazendo arder as narinas. Maura o levou até o banheiro e o ajudou a se banhar. O cheiro era de embrulhar o estômago, mas ela suportou mesmo perto de dar a luz.

— Eles estão vindo. — falou se enxugando.

— Eles quem?

— As autoridades. Eles virão me prender e eu não vou resistir.

— Mas, como assim…

— Maura, eu sou um criminoso, um assassino, você testemunhou o que aconteceu comigo, isso não pode continuar assim.

— Eu sei, mas o que será do nosso bebê.

 Boa pergunta, dona Maura. O que seria de mim? Claro que o covarde do Antônio não tinha essa resposta e minha mãe precisou se virar nos trinta para seguir com a vida.

 Dito e feito. O delegado e sua equipe foram lá e sem dificuldade alguma algemaram Antônio e o levaram para prisão. Lá ele foi humilhado. Surrado e hostilizado por outros detentos e graças a isso ele foi posto numa espécie de solitária onde por alguns dias pode se recuperar das surras e humilhações. Certa noite, quando já dormia profundamente, meu “father” recebeu a inesperada visita de Tábata que apareceu do nada dentro daquele espaço turvo e abafado.

— Parabéns, papai do ano. Que belo garoto você fez, hein!

— Jura, você o viu? Correu tudo bem com a Maura?

— Ela está bem. Sentindo muito a sua falta, mas está bem.

 Antônio pode reparar na vestimenta da mulher. Um vestido vermelho sangue vivo justo ao corpo e um delicioso decote em “V”. Isso aguçou sua curiosidade.

— Quem é você, o que você é?

— Ainda não é a hora de você tomar ciência disso.

— E quando será?

 Tábata deu as costas para Antônio exibindo sua linda protuberância.

— Menos do que você imagina. Eu só vim lhe informar sobre o nascimento do Pedrinho. — falou seguindo para o fundo da cela.

— Espere, aonde você vai?

 Tábata girou nos calcanhares.

— Valdo e eu estaremos à sua espera lá fora para lhe contar toda a verdade. Beijos! — Acenou e desapareceu em sequência.

 Pois é meus amigos. E assim aconteceu. A lua cheia apareceu novamente e o velho Antônio se transformou lá dentro da solitária quase destroçando as grades de ferro. Vendo que a fera estava quase conseguindo rompê-las, o delegado pegou seu fuzil de mira largando o dedo uma dúzia de vezes até o bicho parar de uivar de vez. Foi triste, mas fazer o quê? No chão banhado de sangue a criatura infernal deu lugar ao homem dilacerado pelos disparos.

— Meu Pai amado. — disse o delegado fazendo o sinal da cruz.

 Lá fora, a dupla de entidades aguardava o espírito de Antônio deixar a delegacia. De sorrisos e braços abertos eles o receberam.

— Como se sente, Antônio? — Perguntou o estranho homem.

— Não sei lhe dizer.

— Vai se acostumar. — Valdo tocou em seu ombro. — Quer saber quem é ela?

 Antônio anuiu.

— Apresente-se, Tábata.

— Prazer, sou a Morte. Irei conduzi-lo ao seu destino final.

— Não tem outro jeito, não é?

— Não! — Foi categórica.

— E você, Valdo, quem você é?

 Desdenhando, ele olhou para a Morte.

— Preciso mesmo responder? Para onde ele vai os outros irão falar para ele.

Tábata deu de ombros e Antônio abaixou os olhos.

— Nem é preciso responder mesmo.

— Então fim da linha. — começou Valdo. — Leve-o e não demore muito tempo por lá, certo?

 Tábata assentiu.

 Pois é, o senhor Antônio Salgueiro foi conduzido para o inferno de mãos dadas com a Morte e não pode reclamar. Minha mãe foi notificada de sua morte ainda na unidade de saúde e quase morreu também. Mulher, pobre, viúva e com um bebê recém nascido para cuidar. Algo complicado de aceitar. Por não saber lidar, dona Maura gastou todo o dinheiro e permitiu ser enrolada por seres aproveitadores da ignorância alheia.

 Fui criado como uma criança normal, mas no fundo, tanto eu como minha mãe sabíamos que eu carregava uma porção daquele fatídico beijo em Tábata. Em noites de lua cheia era comum a minha fome por carne crua aumentar ao ponto de eu desejar devorar algumas das criações dos vizinhos. Eu não sabia, mas a minha hora estava chegando.


*


 Dona Maura partiu quando eu já trabalhava como ajudante de padeiro na cidade. Foi horrível vê-la sofrer e pior ainda assisti-la indo embora. Aos 18 anos eu já era independente morando sozinho em um casebre tenebroso. Quando eu completei vinte anos e já como um padeiro profissional disputado a tapas pelas maiores e melhores panificadoras da região, eu namorava com Solange, uma garota grande, negra, dez quilos a mais que eu e dona dos beijos mais enlouquecedores do mundo. Eu era louco por ela. Nós estávamos fazendo amor em meu sofá quando Valdo apareceu na sala sem mais nem menos.

— Preciso falar com você. É importante. — Entrelaçou os dedos.

— CARAMBA! — Vociferei. Solange achou que fosse devido a nossa transa que estava pra lá de boa. Por isso ela intensificou os movimentos.

— Ok! Termine aí. — Evaporou-se.

 Meia hora depois Solange dormia profundamente esparramada no sofá e eu conversava seriamente com aquela entidade parada no meio da sala. Valdo era muito estranho de fato. Possuía uma coloração de olhos jamais vista e também uma expressão de fazer congelar a espinha dorsal.

— Um lobisomem? Quer dizer que eu herdei esta merda do meu pai?

 Valdo anuiu.

— E quando irei me transformar?

— Na próxima lua cheia. Daqui a uma noite. E se eu fosse você dispensaria a Solange, caso contrário, ela será sua primeira vítima.

 Engoli seco por duas vezes.

— Eu não quero viver assim. Como faço para quebrar esta maldição.

 Valdo pôs a mão esquerda no queixo e passou a andar em círculo.

— Não há como quebrá-la.

— E se eu pular de um prédio ou coisa parecida?

 A gargalhada do sujeito foi tão sombria que até eu fiquei com medo.

— Você se transformaria antes de atingir o chão. Não tem como escapar disso, Pedro Salgueiro.

— Mesmo durante o dia, sem a lua cheia? — Gaguejei.

— Bingo! — Estalou as falanges. — Lembre-se que eu estou no controle. — Abriu os braços. — eu já vou indo. Só vim lhe informar sobre sua transformação daqui a uma noite. Forte abraço! — Sumiu.

 E assim aconteceu. Eu me transformei numa fera assassina. Eu não tenho lembranças do que aconteceu depois disso, mas segundo o que eu vi e li nos noticiários o lobisomem causou uma carnificina horrível e o que é mais triste. A minha querida Solange não sobreviveu. FIM.