sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Do Ponto De Vista Da Morte

 


Do Ponto de Vista da Morte



Um carro em alta velocidade passou espalhando para todos os lados a sujeira acumulada nos cantos da calçada. Uma folha inteira de jornal foi parar no rosto do morador de rua que dormia um sono pesado, encolhido no piso frio cimentado onde funcionava uma loja de utensílios para o lar. Ao despertar com aquele papel imundo colado em seu rosto também imundo, o tal sujeito ergueu-se num susto que a muito tempo ele não era acometido. Ao perceber que se tratava apenas de um jornal, Geraldo o amassou e depois o arremessou como um jogador de basquete para dentro da lata de lixo, ali ao lado.

— Cesta! – murmurou.

Ainda era bastante cedo. Sete horas talvez. Seu estômago já o havia alertado algumas vezes quanto ao jejum prolongado. Ele revirou algumas sacolas de lixo e o máximo que encontrou foram duas fatias de pão de forma mofadas. Lógico que Geraldo não arriscaria ter uma intoxicação alimentar ingerindo aquilo. Ele as guardou para mais tarde oferecer aos pombos da praça que fica um pouco mais adiante. O jeito foi continuar procurando.

Até que Geraldo não se encontra tão mal apresentado. Em vista de outras pessoas que vivem nas ruas. Na medida do possível, ele até anda bem vestido. Calça jeans alguns números a mais do seu manequim. Para que elas não venham a cair quando estiver andando, Geraldo a ajusta na cintura com um pedaço de barbante que achou na reciclagem onde às vezes consegue um trocado levando latinhas de cerveja e de refrigerante, papelão entre outras coisas. A camisa não está em ótimo estado, porém longe de ser considerada um pano de chão. Possuí alguns furos, o que é bom em dias de calor intenso segundo o próprio Geraldo. Os pés estão sempre cobertos por um par de botinas que lhe foram doadas por um dos moradores do bairro. Até então Geraldo andava descalço e isso lhe rendera alguns ferimentos nas solas dos pés.

Geraldo encontra-se em situação de rua a mais ou menos... Sabe-se lá desde quando. Ele parou de contar faz tempo. A fome apertou novamente e quando isso acontece toda vergonha pula pela janela. Hora de apelar para os transeuntes.

— Bom dia, a senhora teria alguma coisa pra me dar? Estou com fome.

Fingindo não estar falando com ela, a idosa passou batida. Geraldo não reclamou, está mais do que acostumado a ser ignorado.

— Bom dia, senhor, tem como me ajudar, não como nada desde ontem.

O homem alto, bem vestido interrompeu sua caminhada apressada.

— Eu não tenho nada de comer aqui.

— Ah, podem ser uns trocados.

— Tem certeza, e se for pra comprar drogas?

— Eu nunca usei essa porcaria. Pode acreditar.

O homem percebeu nos olhos castanhos claros de Geraldo uma sinceridade genuína, por isso sacou da carteira cinco reais.

— Vai lá comer alguma coisa.

— Deus te abençoe, tenha um ótimo dia.

Um joelho de queijo com presunto no capricho. O suco foi por conta da casa. Geraldo procurou um canto para degustar seu café da manhã riquíssimo tendo como vista os apartamentos de uma avenida principal da cidade. O suco de maracujá com certeza o fará pegar no sono novamente, mas o que importa de fato é encher a barriga.

*

Alguém o esbarrou com os pés. Geraldo acordou assustado pela segunda vez no mesmo dia. Era Nina, uma outra moradora de rua e usuária de drogas o chamando.

— Tem alguma coisa pra mim, Gegê?

— Poxa, Nina, isso é jeito de acordar alguém? O que você quer?

— Perguntei se você tem alguma coisa pra mim. Que estressadinho, hein. — Nina tem a voz rouca e alta. 

— Não! – sentou-se. — você sumiu, o que andou fazendo?

Nina se acomodou ao lado do companheiro. Seu hálito matinal era ainda pior que o habitual. Uma mistura de nicotina e bosta de vaca.

— Menino, acredita que um carinha prometeu me dar dois reais se eu chupasse ele.

— E você acreditou?

— Claro. Eu estava seca por uma pedra, então, lá fui eu.

Geraldo meneou a cabeça de forma negativa.

— Quando eu terminei o serviço, ele correu para dentro do carro e meteu o pé e eu fiquei sem meus dois reais e com a boca toda suja daquele porco. A hora que eu o encontrar vou cortá-lo todinho. — puxou o estilete do bolso da calça moletom cinza.

Silêncio.

— Você precisa mudar de vida, Nina. O tempo está passando rápido demais.

— Eu preciso mudar de vida e você, não?

Geraldo olhou friamente para ela.

— Eu já sofri essa mudança. — Geraldo abaixou a cabeça.

— Cara, você é muito estranho. Apareceu aqui do nada. Não namora, não come ninguém, não se junta com a gente. Qual é a tua Gegê?

Geraldo abaixou a cabeça novamente e depois olhou para frente, na direção dos prédios. Bem que ele gostaria de saber responder a essa pergunta, mas...

— Nina, vou ficar te devendo mais essa. Tá bom? – bateu de leve em sua perna.

— Quer dar uma trepadinha? — O seduziu.

— Fica para uma próxima.

Nina levantou-se revoltada da vida.

— Quer saber o que eu acho, de verdade de você Gegê? – pôs às mãos na cintura.

— Já sei, e pode acreditar, não sou homossexual. – sorriu.

— Até mais, pangaré. – bufou.

 Ainda sob os efeitos do suco de maracujá, Geraldo deitou-se em posição fetal. Logo pegará no sono.

*

Ao meio-dia Geraldo abriu os olhos bem devagar. Ainda não estava com fome, mas nunca é cedo demais ir em busca de comida para uma pessoa em suas condições. De uma sacola com a logomarca de uma rede de supermercados famosa encontrada no pé de um dos postes, Geraldo achou restos de uma comida fina, um pouco mais sofisticada. Não estava azeda, porém nem um pouco convidativa a degustação. Melhor deixá-la para os roedores e pombos. Geraldo achou melhor seguir mais adiante aonde há um restaurante. Pode não ser um desses estabelecimentos premiados, mas ainda assim um ótimo lugar para se encher a barriga. O dono do local é uma pessoa de um coração gigante e generoso, sempre que pode ele reserva duas ou mais quentinhas para os menos favorecidos.

— Olá, boa tarde. O senhor Agenor se encontra?

— No momento ele conversa com um de nossos fornecedores. Vai aguardar? – informou o segurança na porta.

— Tudo bem. É que ele sempre reserva alguma coisa de comida pra gente e...

Nesse momento Agenor e mais dois sujeitos deixaram o restaurante conversando animadamente. Assim que o viu, o empresário abriu os braços.

— Já conhecem Geraldo?

Ambos os homens fizeram cara de poucos amigos. Geraldo também os fitou, permitindo que seu coração se enegrecesse.

— Carlão, vá até a cozinha e peça que façam uma quentinha no capricho para o meu querido aqui.

— Obrigado, seu Agenor, o mundo precisa de mais seres humanos como o senhor. – declarou olhando para os homens.

Geraldo deixou o restaurante levando consigo uma marmitinha bem servida da melhor comida caseira do bairro dentro de uma sacola. Hora de achar um bom lugar para o almoço. Quem sabe no parque debaixo das árvores?

Assim que sentou-se e encostou no tronco de uma goiabeira alguém o cutucou no ombro. Geraldo não se assustou.

— Diga logo o que quer e caia fora.

De trás da árvore saiu um rapaz mediano, loiro, terrivelmente bonito com seus olhos verdes, muito bem vestido socialmente.

— Então, quer dizer que seu nome agora é Geraldo? Que brega. – pôs às mãos na cintura.

— Brega, por que?

— Ah, sei lá. Seu nome original é bem mais bonito. O que você tem aí?

Geraldo olhou para a quentinha e depois para o loiro a sua frente.

— Não vai me dizer que você também foi destituído?

O rapaz pálido pôs uma das mãos no peito.

— Destituído, eu? Nunca.

— Então, o que quer de mim?

Geraldo desfez o nó. Retirou a quentinha de dentro da sacola. Pegou a colher de plástico e começou o almoço sob os olhares de seu conhecido misterioso.

— Por que não volta? Diga a Ele que está arrependido.

— Não vai adiantar. O que Ele fez está feito e ponto final. Eu cometi um erro e devo pagar por isso.

O sujeito loiro acomodou-se ao lado de Geraldo que se mostrou incomodado com sua presença.

— Desde sempre, nos foi ensinado que só deveríamos levar quem Ele designou e você decidiu por si que levaria aquele infeliz. E assim você fez.

— Eu sei que ainda não era a hora dele, mas...

— Jamais podemos permitir que a nossa vontade assuma o controle. Eu também me revolto, sabia?

Geraldo deixou a comida de lado e passou a murmurar.

— Ela era só uma criança. Não merecia morrer daquele jeito. Foi complicado levá-la, coitadinha. – fechou os olhos. — eu não aguentei vê-lo perambulando impunemente por aí. Eu me lembro que cheguei até Ele pedindo por justiça...

O loiro riu.

— A resposta foi a mesma de sempre. “minha é a vingança”.

— Sim. Mas o pior não foi isso. Eu tinha a certeza que aquele maldito cometeria outro crime. Então...

— Você, um mero serviçal decidiu levá-lo por sua conta.

— No meu lugar, o que você faria? – Geraldo criou coragem para olhar para o seu conhecido que emitia uma luz azulada ao redor do corpo.

— O ser humano criado por Ele é extremamente cruel e nunca está satisfeito com a bondade. Eu sei que aquele sujeito mataria outra criança, violentaria sua inocência, mas não cabe a nós tomar a decisão. Nossa função é conduzi-los ao além e só.

Geraldo entristeceu-se abaixando a cabeça. A fome já não era um problema.

— O que está feito, está feito. Eu errei e por isso estou aqui, pagando pelo meu erro.

O loiro se levantou e alongou sua lombar. Olhou ao redor do parque e avistou pessoas circulando por ali entretidas com suas conversas e gargalhadas.

— Eles podem até ser cruéis, mas são belos. Ele acertou em cheio quando os criou.

— Você não deveria estar levando alguém? – Geraldo voltou a mexer na comida.

— Sim, claro, e farei isso daqui a pouco. Está vendo aquela mulher vindo de bicicleta ali? – apontou.

— A morena clara?

— Ela mesma. Tão linda, tão jovem e forte. Terminou a universidade há poucos dias, mas infelizmente a hora dela chegou.

Geraldo rejeitou novamente a comida que a essa altura já havia se tornado uma pedra de gelo de tão fria.

— Poxa, mas a moça acabou de se formar, é bem provável que tenha feito projetos para uma vida inteira.

O loiro bonito cruzou os braços.

— Geraldo, Geraldo, desde quando você recebeu a essência humana se transformou em algo coberto de piedade. Eu estou aqui a mando Dele, você entende? Por favor! Quantas almas você conduziu ao além que também tinham planos iguais a essa pobre coitada? Milhares, suponho.

— Mas...

— Esquece, Geraldo, quanto a isso você não pode fazer nada. Agora com licença, tenho uma alma para conduzir.

A jovem morena atravessou o parque na intenção de seguir pela rua movimentada onde não há ciclovia. Geraldo acompanhou atônito todo o desenrolar da situação. Em questão de segundos, toda a vida pregressa da mulher se passou diante de seus olhos. Mulher guerreira, mãe de dois filhos, um casal pra ser mais exato. Casou-se duas vezes e somente com esse atual é que as coisas começaram a melhorar para ela. Com muita dificuldade e determinação ela conseguiu concluir sua faculdade de direito e agora luta para ingressar no mercado. Geraldo chorou. Um caminhão baú, um motorista desatento colocará um ponto final em toda sua história. 

Ela deixou o parque e atravessou a rua ainda com o sinal aberto, atrasada para algum compromisso pelo visto. O loiro se aproximou com sua luz azulada um pouco mais potente. O caminhão cruzou o semáforo a uma velocidade razoável tirando fino da bicicleta e sua condutora.

— Desgraçado, não me viu aqui não? – gritou a mulher.

O loiro iluminado girou nos calcanhares na direção de Geraldo e o mesmo encontrava-se incandescente com os braços estendidos na direção da mulher.

— Você é mesmo um tolo, Geraldo. Usar seu último recurso em favor de um ser finito. Agora de fato você se tornou um deles. Você me verá novamente, mas não para uma visita, mas sim para conduzi-lo. Até mais. – desapareceu.

Geraldo olhou para a mulher que ainda discutia com o caminhoneiro. De repente, algo dentro dele começou a pulsar. Ele pôs às mãos no peito e chorou.

— Coração. Eu agora tenho um coração. – contemplou o céu. — o Senhor me presenteou com um coração. Sou como eles e morrerei como eles. Honrarei isso até o fim.

Geraldo viveu ainda por mais trinta anos. Deixou às ruas. Conseguiu um emprego no mesmo restaurante que o ajudou durante o tempo que passou na sarjeta. Conheceu uma moça e constituiu família com ela. Foi um pai maravilhoso e um marido apaixonado pela esposa. Morreu de causas naturais e foi conduzido ao além pelo loiro bonito. FIM



sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Marcos e Bianca

 




Seu pai passou pela triste experiência do divórcio no passado e há três anos sua irmã também. Agora chegou sua vez. Seria isso uma maldição? Estariam todos da família Fernandes fadados ao fracasso amorosamente falando? Marcos não tem uma resposta certa a ser dada no momento, mas tudo o que ele sabe é que seu casamento com Bianca terminou e da pior maneira possível. Enquanto dirige em direção ao bairro onde morou com ela durante quinze anos, o chefe de produção de uma fábrica de móveis remói dentro de si os bons e os maus momentos vividos como casal. Bianca não era perfeita, e na época de namoro ela já havia dado diversas provas disso e mesmo assim ele decidiu apostar no relacionamento. Tudo era motivo para o início de uma discussão que duraria dias. A principal delas era o fato das roupas serem bastante chamativas e boa parte delas curtas demais. 

— Você não acha que esse shorts está curto demais para uma visita ao meu pai no hospital?

— Nada a ver. – disse se admirando no espelho.

— Pode trocá-lo por algo mais decente? – Marcos estava sem paciência. 

Eles não foram mais ao hospital. A discussão tomou caminhos perigosos, próximos das agressões tanto verbais quanto físicas. O mais estranho de tudo isso foi que a noite eles fizeram amor intensamente no sofá com a TV ligada. Essa lembrança sim o fez rir. O trânsito não estava ruim, porém longe do que os motoristas gostariam que estivesse. Perto da entrada que dá acesso ao bairro onde morou, a via parou de vez.

— Porcaria! – bateu no volante.

*

Para fazer com que o tempo passasse ou que pelo menos a pressão diminuísse, Marcos ligou o rádio e o sintonizou numa emissora onde a maior parte da programação as canções românticas dos anos 70 e 80 são executadas em sequência. De cara ele foi pego pela bela voz de Whitney Houston cantando exatamente a música a qual Bianca entrou com seu pai no dia da cerimônia. Ela estava perfeita naquele vestido. Marcos sempre foi um sujeito durão. A última vez em que chorou foi quando soube do falecimento de sua avó materna. Agora ao ouvir a linda melodia, Marcos não segurou a onda de choro que o acometeu. O trânsito começou a mostrar sinais de melhora com os carros saindo de seus lugares. Marcos segue chorando recordando-se de sua lua de mel na região litorânea. Foram duas semanas maravilhosas com direito a sexo a todo momento. Banho de mar e comida boa. Como segurar a emoção ao lembrar disso?

O carro entrou na rua sete de Setembro. Tantas foram às vezes em que ele entrou ali às 19h voltando de mais um dia de trabalho duro na fábrica. Marcos podia estar exausto e esgotado devido às pressões vividas durante o expediente, mas ao ver sua bela esposa arriscando uma nova receita preparada com carinho assando no forno, todo o cansaço se dissipava.

— Oi, amor. – o beijou.

— Oi. – deixou a mochila na cadeira. – E os meninos?

— No banho, como você exigiu.

— Ótimo.

E assim acontecia todos os dias. Na época ele achava tudo isso um porre, uma rotina pra lá de enfadonha. Hoje Marcos daria tudo o que há de mais precioso para ter esses dias de volta. Poxa vida!

Aí está ela. A casa número dez. O lar dos Fernandes Dias. A casa de Bianca e Marcos. Antes de descer ele conferiu seu estado no espelho. Há outro veículo estacionado em frente ao portão o qual deduziu ser do advogado. Vida que segue! Ao abrir o portão ele deu de frente com Bianca de braços cruzados olhando friamente para ele.

— Aqui estou. – disse voltando com as chaves para dentro do bolso.

— Me passe as chaves, por favor. – disse ríspida.

Marcos a encarou.

— Tudo bem. – as entregou. – podemos resolver logo isso?

— O atrasado aqui é você e não eu. – entrou.

Lá dentro um sujeito bem acima do peso vestindo um terno preto já bastante gasto pelo tempo analisa pela última vez os papéis através de seus óculos de leitura.

— Como vai, senhor Marcos?

— Bem! – puxou a cadeira. – tudo certo?

— Sim! – passou uma cópia para Marcos e outra para Bianca. – leiam com bastante atenção.

Marcos pigarreou ao começar a ler mentalmente. Bianca olhou para seu ex. Ela se fez de forte o dia todo, mas agora, bem ali diante dele tudo se transformou em tristeza profunda. O nó formado na garganta é mais forte do que ela.

— Dona Bianca, a senhora está bem? – perguntou o advogado retirando os óculos.

Marcos parou a leitura. 

— Vou pegar um copo d'água.

— Não precisa. – limpou às lágrimas. – assina logo isso, Marcos.

O clima ficou chato demais. Marcos queria chorar também. Bianca levantou-se e foi até o banheiro lavar o rosto. Lá a gerente de supermercado lembrou-se do dia em que viu seu futuro marido pela primeira vez. Ele havia comprado um produto cujo valor havia sofrido erroneamente um reajuste.

— Preciso falar com o gerente. – disse ele para a moça do caixa.

— Vou chamá-la.

Bianca apareceu esbanjando simpatia e principalmente tranquilidade e isso ajudou muito na resolução do fato. Marcos saiu daquele lugar com o produto cobrado um valor justo e também com o número de telefone da gerente. Uma semana depois eles namoravam apaixonados no portão da casa dela. Uma pena, pensou jogando mais água fria no rosto.

Bianca voltou para a cozinha. Ela já não era a mesma pessoa. 

— Vamos acabar logo com isso. – bateu palma.

*

Simultaneamente ambos terminaram de ler os documentos. Graças a Deus, pensou o advogado.

— E agora, doutor? – Bianca pegou a Bic azul dentro do porta canetas.

— Se não há dúvidas, só restam as assinaturas mesmo.

— Lembrando que aos finais de semana os meninos ficarão comigo. Certo? – olhou para ela.

— Marcos, o juiz decidirá isso. Agora assine logo e vá embora. 

Engolindo seco ele pegou a outra esferográfica no porta canetas. Retirou a tampa. Olhou para ela. Bianca tinha sua respiração pesada e os olhos marejados olhando para ele. Marcos permitiu que a emoção o dominasse. Ele deixou a caneta em cima do papel e esticou o braço. 

— Amor, não precisa ser assim.

Fala sério, pensou o doutor.

Marcos estava ali, com seu braço estendido sobre a mesa, aguardando que a mulher de sua vida retribuísse seu gesto, mas Bianca se encontrava irredutível. Ela olhou outra vez para o rosto de seu marido e ele tinha no olhar uma pequena palavra. Esperança. Mesmo de maneira tímida e hesitante ela lhe deu a mão, coisa que mexeu com o advogado do outro lado da mesa também. 

*

O primeiro a deixar a casa foi Júlio, o advogado. Em seguida Marcos com o rosto ruborizado e olhos inchados. Bianca o acompanhou até o portão de braços cruzados. Vez por outra ela os descruzava a fim de tirar os cabelos do rosto devido ao vento. Na rua ele parou ficando de frente para ela.

— Lembre-se. Você fez e ainda faz parte da minha história. Você me deu dois lindos presentes que são nossos filhos. Você sempre terá o meu respeito, minha consideração e principalmente, meu amor. Não se esqueça disso.

Bianca colocou a mão na frente da boca impedindo o choro. Ela anuiu.

— Que tal um abraço para fecharmos com chave de ouro?

Um abraço, apenas um abraço, pensou Bianca abrindo os longos braços. Eles se abraçaram e ambos puderam sentir pela última vez o calor que emana um do outro.

— Fica com Deus, Bianca. No final de semana estarei aqui para pegar os meninos. Tá bom?

— Tá bom. Venha para o almoço. Farei aquele frango assado recheado. Lembra? – disse rindo e chorando ao mesmo tempo.

— Combinado. 


NOITES EM CLARO 


Mais um bocejo. Os olhos estão pesados e ardem como se alguém tivesse despejado ácido neles. Bianca não pode dizer que acordou, mesmo porque ela sequer dormiu. Mais que droga! Ela está péssima, um caco como diria sua irmã mais nova, Bárbara. Engraçado! Bianca nunca foi muito fã de acordar cedo. Em tempos de paz, a briga entre o despertador e ela era ferrenha e quase sempre Marcos se colocava como aliado do aparelho. Na atual conjuntura, abrir os olhos antes do despertador já não lhe causa tanto desconforto e raiva. Na verdade, é até bom que seja assim. Ela retirou o edredom e se espreguiçou emitindo os famosos “gemidinhos de gato” como seu ex marido costumava chamá-los. E por falar em Marcos, Bianca está usando seu moletom cinza. O moletom cinza. Marcos não suportava a ideia de sua mulher dormir vestida daquele jeito.

— Fala sério, amor. Isso inibe toda e qualquer sensualidade de uma mulher. É até broxante.

Agora que Marcos saiu de casa, nada a impede de dormir com a indumentária. Ela conferiu o horário no celular. Cinco e cinquenta da matina. Aos bocejos ruidosos ela foi até o banheiro esvaziar sua bexiga. Feito isso, a melhor coisa a ser feita para espantar o maldito sono é tomar um banho frio e depois jogar pra dentro um café forte sem açúcar. Vamos nessa, dona Bianca.

*

Depois de deixar os filhos na escola Bianca foi direto para o trabalho ainda com sono. Vez por outra ela se estapeia na tentativa inútil de se manter acordada. Nada disso adianta muito. Antes de descer do carro ela retocou sua maquiagem. Calçou os sapatos e pronto. Hora de matar o primeiro leão do dia.

— Olá, bom dia. – disse aos rapazes que cuidam dos carrinhos de compra.

Um deles não consegue tirar os olhos da protuberância coberta pela calça social. Bianca realmente enche os olhos masculinos dentro e fora do local de trabalho.

— Gente! Qualquer coisa estou em minha sala.

Seria muita ingenuidade da parte de Bianca achar que todos ali já não tenham conhecimento do término de seu relacionamento. Os olhares e as conversas ao pé dos ouvidos nos corredores denunciam isso. A nova membro do clube das mulheres divorciadas acaba de chegar: Bianca Dias. Dane-se! Pensou entrando em sua sala. Divorciada sim, morta nunca. Sim! Claro que existe vida depois do fim de um casamento. Evidente que existe esperança depois de Marcos Fernandes. O casamento acabou, porém a beleza da vida continua firme e forte.

Durante o expediente o sono e o cansaço bem que tentaram abatê-la, mas nada como um bom pepino – e daqueles – que não resolva. Bianca precisou usar de toda sua experiência e jogo de cintura para tentar contornar a situação. E conseguiu.

— Resolvido, senhor? – entrelaçou os dedos.

— Sim! Muito obrigado.

Às 15 horas Bianca passava o bastão para a gerente da tarde decidida a chegar em casa e dormir sem culpa alguma. Na volta para o conforto do lar um pouco mais cansada e sonolenta, ela preferiu seguir por outra via a fim de não pegar trânsito. Péssima ideia. Bem a frente, ao lado de um posto de combustível há um motel três estrelas, o mesmo frequentado por Marcos e ela no início do namoro. Tirando Bianca, Marcos adorava a comida servida ali e fazia questão de escolher sempre a mesma. Lógico que as idas àquele lugar eram feitas às escondidas. Caso o pai da menina soubesse que sua filha andava transando num quarto de motel de beira de estrada, era arriscado o velho Dias ter um infarto na mesma hora. O casal só deu um tempo nas “travessuras" quando Bianca suspeitou de uma gravidez deixando Marcos sem chão.

— Meu Deus! E se você estiver mesmo grávida? – disse se descabelando.

— O jeito será casar.

Bianca não estava grávida, mas bem que gostaria que estivesse. Época boa! Por que a vida gosta de aprontar poucas e boas com as pessoas? Por que gente como ela precisa seguir em frente mesmo sem forças para reagir?

*

Crianças devidamente alimentadas e limpas brincam num dos cômodos da singela casa espalhando seus brinquedos e bloquinhos com desenhos para colorir em toda parte. Bianca aproveitou o raro momento de trégua das atividades do lar para tirar pelo menos uma hora de sono atrasado. E assim foi.

Perto das 19 horas ela acordou com o alarme do telefone berrando embaixo do travesseiro. Achando em se tratar de um sonho, a gerente soltou um grito estridente chamando pelo nome  de cada um dos filhos. Como num passe de mágica, os rebentos surgiram no quarto da mãe reivindicando o atraso do lanche da tarde. O celular segue tocando.

— A mamãe já vai preparar o jantar. – atendeu a ligação. – oi, amiga. Não, acabei de acordar. O que foi?

— A fila andou.

Bianca sentou-se na cama.

— O que?

— O seu ex.

— O que tem o Marcos? - levantou-se. 

— Ele está aqui na praça de alimentação do shopping tomando um chopp com uma loira artificial. Quer que eu lhe mande uma foto?

De repente Bianca se viu acometida por diversos sentimentos. O ódio era o principal deles.

— Pode mandar. Quero ver a cara dessa vaca.

Dez segundos depois a foto chegou. Rapidamente Bianca a abriu.

— O pior é que a filha da mãe é bonita. FIM. 


Os Novos velhos caminhos


Marcos estacionou seu veículo bem a frente da centenária amendoeira que fica na calçada da casa onde morou. Vale lembrar quantas foram às vezes em que ele ligou para a companhia de parques e jardins para a remoção da mesma, uma vez que suas raízes já danificaram bastante o calçamento. O sábado começou bonito. O Sol não está tão forte. Vento fraco a moderado e muitas boas expectativas brotando dentro dele para o fim de semana com seus filhos. Pela manhã um futebol na pracinha. Almoço no shopping e à tarde um cineminha com direito a pipoca, refrigerantes e sorvetes à vontade. Hoje tem tudo para ser um dia especial. Duas batidas no portão e logo se ouviu a voz do menino mais velho anunciando a chegada do papai.

— Olá, filhão! – abriu os braços assim que o menino escancarou o portão. 

— Pai! – o abraçou segurando a bola. – já podemos ir?

— Só vou acertar algumas coisas com sua mãe e já vamos. – apertou o nariz do rebento.

Logo na entrada era possível notar diversas mudanças e até a presença de outros móveis novos. Marcos não sabe explicar o porquê do incômodo uma vez que já não tem mais nada a ver com aquela velha realidade, mas ele ficou bem desconfortável. Bianca estava na cozinha, em pé, terminando de preparar algo como frango ou qualquer outra coisa parecida. Shortinho jeans curto e justo e uma blusa solta, aparentemente sem sutiã.

— Opa! – disse ruborizado. 

— Bom dia. – seguia mexendo a panela.

— Eu já vou indo com os meninos. 

— Divirtam-se.

Silêncio. O que está acontecendo?

Ele coçou o alto da cabeça criando coragem para perguntar. 

— Algum problema, Bianca?

Ela apenas meneou a cabeça. 

— Tudo bem com os garotos?

— Graças a Deus. – respondeu sem vontade. 

Outro silêncio. Ah, dane-se, pensou atravessando a porta da cozinha. 

— Ela vai estar? — Bianca desdenhou.

Marcos foi obrigado a cessar os passos em direção a sala ao ouvir tal pergunta. 

— O que? – levantou as sobrancelhas. 

— Ela, sua namorada. – falou experimentando a comida. 

— Do que está falando, Bianca, que namorada? – cruzou os braços. 

Bianca tampou a panela e desligou o fogo. 

— Marcos, na boa, relaxa. Eu só quero saber com quem meus filhos ficarão o dia inteiro. Só isso.

— Comigo. E...

Bianca olhou para ele aguardando a conclusão. 

— Eu pensei em você vir junto também. Vamos ao cinema à tarde. 

— Hum!

— Seria bom. Os meninos sempre perguntam por que você nunca vem com a gente...

Bianca abaixou a cabeça segurando o riso.

— Que filme vão assistir?

— Top Gun, Mavericks. 

Ela estava louca para assistir. Já havia inclusive combinado com Bárbara para irem juntas.

— Certo!

— Legal! Vou esperar lá fora com os moleques. – bateu palmas.

— Espere, Marcos. – Agora foi a vez de Bianca ruborizar.

— Sim? – girou nos calcanhares. 

— Você não está namorando?

— Não! – franziu a testa. – de onde tirou essa ideia?

Minhas amigas estão de olho em você por mim, ela pensou.

— Uma das meninas te viu no shopping com uma garota.

Marcos foi obrigado a gargalhar, isso deixou sua ex irritada e sem jeito ao mesmo tempo.

— Vou te falar uma coisa: da fruta que eu gosto, a Raquel come até o caroço. – outra palma. – estou lá fora aguardando. 

Como um balão esvaziando assim era o corpo da gerente reagindo depois dessa declaração de Marcos, não é preciso acreditar em tudo que falam pra você. Com as pernas moles, ela foi se trocar para encarar o melhor sábado de sua vida depois do divórcio. 

*

Foi mesmo especial como Marcos havia previsto. Brincaram na praça. Jogaram futebol. Correram. Almoçaram no shopping. Foram ao cinema. Durante a sessão, vez por outra eles trocaram olhares. Marcos sentia o coração bater na garganta e não era diferente com Bianca. Após o cinema eles lancharam no BK e pronto. Fim de sábado. 

Às 22:20 Bianca deixava o quarto dos filhos de forma silenciosa. Marcos mexia no celular em pé perto da porta da sala.

— Dormiram. – disse ela.

—Tadinhos, brincaram bastante hoje. Eu também vou bater na cama e apagar.

Bianca sorriu.

— Acabei de fazer o Pix da mensalidade da escola deles, certo? – bocejou.

— Porque não dorme aqui.

O que? Marcos ficou em choque.

— Se você quiser, é claro. – cruzou os braços. 

Ele olhou para o sofá. 

— Porque não, né?

Mais tarde o chefe de produção conferia suas redes sociais estirado no sofá-cama na penumbra da sala. De repente a luz da cozinha acendeu. Era Bianca. Ela vestia uma roupinha de dormir um pouco mais comportada, mas ainda sim sexy. Luz desligada e passos deixando a cozinha em direção ao quarto. Marcos segue mexendo no telefone. 00:58 mais uma vez a luz da cozinha se acendeu. Bianca abriu a geladeira e pegou um suco. Disfarçou olhando para seu ex deitado e ainda acordado.

— Perdeu o sono, quer suco?

— De boa. Valeu.

Luz desligada. O sono já começava a querer dominá-lo. Excitado, Marcos se tocou, mas não passou disso. 01:35 ele ouviu passos e aguardou a luz da cozinha se acender, mas isso não aconteceu. Ao retirar o celular da frente do rosto ele pode ver Bianca segurando o edredom e vestida com outra roupa de dormir e dessa vez ela não estava nem um pouco comportada.

— Tem espaço para mais um ai?

FIM