Detetive Mauro Lobato
1
Igor Xavier. O segundo investigador mais experiente do departamento de polícia de Parque São Lopes capitaneado por Bianca Godói, a mais nova delegada da cidade. Ele a serviu com uma generosa caneca de café enquanto que a mesma tem sua atenção voltada para o seu parceiro escrevendo na lousa branca. Lobato fez um círculo perfeito usando um piloto de cor vermelha em torno do nome do lugar onde possivelmente, Genivaldo Gomes, o Mexicano, fechará o acordo com o seu mais novo fornecedor de entorpecentes.
— Será no Cana Caiana. O senhor está certo disso, oficial? — Questionou Godói cruzando as pernas.
— Temos horas e mais horas de escutas, delegada. Mexicano conversa com esse tal de Zeus quase que diariamente e o Cana Caiana foi mencionado por ele. — Lobato cruzou os braços.
— Zeus? — Bianca tamborilou com os dedos na mesa.
— Pertence à mitologia grega — começou Xavier. — significa Pai dos Deuses, Rei do Olimpo.
— Putz! Essa raça de marginais não tem mais o que inventar quanto a vulgos não é? — seguia tamborilando com os dedos. — Ok, e qual o próximo passo?
— Xavier e eu faremos uma visita ao Cana Caiana e depois sim, iremos preparar a arapuca.
— Perfeito. — bateu forte na mesa. — Terminamos por aqui?
— Sim, senhora. — Disse Lobato.
Godói voltou rapidamente para o seu gabinete enquanto que os dois agentes seguiam na elaboração do plano de prisão do chefe do cartel de drogas de Parque São Lopes. Lobato vem em seu encalço não é de hoje. Desde quando surgiram os primeiros rumores sobre uma poderosa organização criminosa que tinha como intuito o domínio total das ruas desta pequena metrópole, Mauro e toda sua equipe se prontificaram em cortar o mal pela raiz. Das doze tentativas apenas três obtiveram sucesso, mas nada muito significativo. Na época Lobato evitou que uma caminhonete com quatrocentos quilos de maconha chegasse nas entranhas da principal comunidade da região. Houve uma intensa troca de tiros. Um policial acabou sendo ferido gravemente, mas sobreviveu, porém o bandido não teve a mesma sorte. Sucesso? Talvez para alguns. Lobato na verdade queria que Mexicano estivesse dentro daquele saco de corpos ou invés de seu soldado.
— Vamos mesmo ao Cana Caiana? Ouvi dizer que o prato mais barato de lá é o valor do meu soldo. — Xavier guardava as pastas no arquivo.
— Fique tranquilo. Não vamos comer ou beber nada naquele lugar. Só iremos conferir de perto onde possivelmente aquele merda será agarrado. Não vejo a hora desse dia chegar. — Esfregou as mãos.
— Pelo visto você o odeia com todas as suas forças. Cuidado. Não podemos levar nada do que acontece aqui para o lado pessoal. — Fechou o arquivo.
— Tem razão. Eu não deveria ter deixado esse ódio me dominar e agora é um pouco tarde para mudanças. Mexicano vem se safando todo esse tempo e isso ajudou a alimentar esse terrível sentimento que tenho por ele. — sentou-se na ponta da mesa.
— Bom. Nosso turno acabou de terminar. — conferiu às horas no relógio de pulso. — Vamos tomar uma breja?
— Hoje não vai dar. Vou direto para casa. Preciso ajustar algumas coisas por lá. Fica pra próxima.
— Show. Fui!
*
Bianca Godói chegou ao seu terceiro clímax depois de cavalgar durante dez minutos no colo de seu agente deitado naquela cama de motel de beira de estrada. Exausta, mas extremamente satisfeita, a delegada repousou seu corpo esbelto sobre o de Lobato que não teve como resistir a energia que emanava da mulher.
— Eita novinha, você está demais hoje.
— Novinha? Olha lá como fala com sua superior, hein. — O beijou na boca.
— Você precisa entender que eu não sou mais um garotão de vinte, trinta anos. — Lobato a acariciava nas costas.
— Esses moleques de hoje não estão com nada, prefiro coroas, vocês sim dão conta do recado.
— Obrigado pela parte que me toca. — esticou o braço até alcançar o celular. — mas agora preciso ir, está ficando tarde e você sabe como dona Denise é. O estresse em pessoa.
— Ah, sério? Queria brincar mais um pouco. — O abraçou forte.
— Vamos com calma doutora Godói. O meu santo é de barro.
— Está certo, mas, promete que da próxima vez vamos passar a noite toda juntos?
— Prometo! — a beijou na testa.
*
Por volta das vinte e duas e cinquenta Lobato deu as caras em sua residência que fica há alguns longos quilômetros do DPPSL, encontrando sua mulher quieta porém visivelmente irritada. Denise olhava para a programação na TV, sentada com as pernas em cima do sofá fingindo estar concentrada. Mauro a conhece bem e também sabe como esta história vai terminar, por isso ele evitou o confronto agindo naturalmente.
— Oi, Mozão? — Deixou seus pertences em cima da mesa.
— Olá! — ela mal olhou para ele.
— Comprei comida japonesa…
— Obrigado, eu já jantei.
Engoliu em seco.
— Me desculpa a demora. Você sabe que eu estou encabeçando a operação, então…
Lobato acompanhou sua esposa se apossar de forma ríspida do controle remoto para aumentar o volume do aparelho de TV bufando sem parar. Era a hora de tirar seu time de campo.
Há trinta anos, durante as comemorações da conquista do tetracampeonato do mundial de futebol nos Estados Unidos, Denise e Mauro se olharam pela primeira vez e após este dia eles não se desgrudaram mais. Ao presenciar aquela belíssima morena de cabelos cacheados, olhos cor de caramelo balançando o quadril naquela roda de samba, o coração do então sargento das forças armadas Mauro Lobato o informou que ela seria a mulher da sua vida. Dito e feito. Vinte quatro meses após este encontro eles contraíram núpcias e foram morar a priori num sobrado no terreno da família da noiva.
O sonho de ambas as partes era e ainda é de uma certa forma, de serem pais de um casal de filhos. Após uma bateria de exames foi detectada a esterilidade de Denise e isso abalou e muito a união. Durante mais uma discussão sobre quem tinha culpa em toda essa história, surgiu um assunto sobre adoção, coisa que Lobato fez questão que ela esquecesse de uma vez por todas.
— Conheço casais que adotaram e hoje vivem um verdadeiro inferno. Eu não quero isso para nossa vida, Denise.
— É injusto da sua parte, isso não é uma via de regra. Há casais que adotaram e que hoje são felizes com seus filhos. — Declarou aos prantos.
O assunto adoção não terminou ali, ainda viriam outras pesadas discussões que alimentariam o desgaste da relação. Denise e Mauro já não se conhecem mais, não se confidenciam mais e o que é pior; foram vencidos pela dura rotina.
— Ok! Vou para o quarto. O plantão foi puxado. Boa noite.
— Boa! — mal deu para ouvir a resposta.
Assim que se viu sozinha, a dona de casa fez com que sua fragilidade aflorasse juntamente com a raiva. O celular foi resgatado em meio aos travesseiros onde a foto de perfil do Instagram de Bianca Godói saltava na tela.
*
Na mesa de café da manhã de Genivaldo Gomes não pode faltar: pão fresco, bolo de cenoura com cobertura de chocolate, ovos mexidos, queijo Minas, suco de laranja e é claro o pretinho que todo mundo ama. Durante o seu santo desjejum que acontece impreterivelmente às sete da manhã na cozinha de sua casa que fica na região de mata de Parque São Lopes, tanto dentro como fora da residência há homens circulando para cima e para baixo, portando armamento pesado fazendo a segurança do chefe. Mexicano, como é conhecido no meio do crime, não admite falhas no sistema de segurança que ele mesmo organizou. Muitos dos grandes líderes que ele conhece ou conheceu, foram presos ou mortos durante suas refeições por displicências de seus guardas costas.
— Com licença, senhor. Zeus no telefone. — Informou um comparsa saindo da sala e entrando na cozinha.
Antes de pegar o aparelho, Mexicano conferiu o horário em seu relógio digital em seu pulso. Pontualmente às sete e meia. Incrível.
— Fala! — olhou para seu soldado e o dispensou.
— Eu já estou na cidade. Vamos resolver logo este negócio ou não?
— Você já tem o material?
— Sim! Estou olhando para ele neste momento.
— Como eu falei. Gostaria muito que fosse no Cana Caiana…
— Você cismou com este restaurante. O que há de tão especial lá?
— Ambiente familiar, bom atendimento e uma comidinha caseira dos deuses. Você vai gostar.
— E a polícia?
— O que tem a polícia? — franziu o cenho.
— Se certificou de tudo, já mexeu os pauzinhos?
— Com quem pensa que está faltando? Eu não comecei ontem nesse negócio meu querido.
— Está certo. Podemos marcar nesse tal de Cana Caiana amanhã a noite então. Às vinte e duas em ponto.
— Já estarei lá.
A ligação foi encerrada.
Longe dali, no departamento de polícia, Lobato, Igor e Bianca comemoram em silêncio o sucesso de mais uma escuta.
2
Tentar proteger toda uma cidade de ações de marginais perigosos como Mexicano requer esforço, estratégia e também uma bela dose de boa vontade. Mauro Lobato, muito antes de ser chefiado por Bianca, precisou fazer uso desses requisitos para pôr as mãos no líder da família Soares. Foram anos de noites mal dormidas, intermináveis escutas e até confrontos diretos com seus membros. Numa dessas incursões, Igor Xavier por pouco não teve o braço dilacerado por um disparo de fuzil. Já Barbosa não teve a mesma sorte. O soldado foi alvejado duas vezes no peito e ainda caiu de uma altura de dez metros. Morte certa.
Com a prisão do chefe dos Soares, a captura do restante do bando foi uma questão de tempo. Nos interrogatórios o velho Agenor Soares só abria a boca na presença de seu advogado e mesmo quando falava não dizia nada muito importante. Lobato decidiu então sair à caça dos fugitivos. Demorou, mas ao final de cinco meses todos da família se encontravam trancafiados num presídio de segurança máxima fora de Parque São Lopes.
Hoje a realidade é mais ou menos parecida. A prisão de Mexicano significa menos drogas circulando nas ruas e comunidades. Menos assaltos a caminhões com cargas milionárias nas estradas e menos homicídios em confrontos.
— Caracas, eu não estou acreditando. Falta pouco para tudo isso acabar. — Igor praticamente jogou os fones de ouvido para o alto.
— Belo trabalho, rapazes. Será uma noite e tanto. — disse Godói olhando para Lobato.
— Obrigado, doutora. Igor e eu vamos ao Cana Caiana, temos muito o que fazer ainda.
— Positivo! Mas antes preciso falar com o senhor em particular. — apontou a porta para Mauro.
*
O lugar é apertado e abafado, onde somente o irritante ruído do motor da velha geladeira é ouvido dentro daquele cubículo que chamam de depósito. Bianca deu um jeito de arrastar seu subordinado até lá e o atacou.
— Menina, você é louca, transar no meio do plantão? — falou enquanto tinha o zíper da calça jeans sendo aberto por sua chefe.
— Toda essa tensão me deixou pegando fogo. Preciso relaxar.
— Não tem como esperar até mais tarde?
— Não deixe para depois o que você pode fazer agora.
*
Minutos depois, um pouco mais relaxada, Bianca, a filha caçula do ex policial Marcos Godói e da enfermeira Núbia Lira, relembra com saudade de seu passado marcante enquanto reorganiza sua mesa. Ela se recorda do tempo em que era somente uma universitária sonhando com os dias nos quais hoje ela vivencia. Dona de uma beleza única, a jovem delegada de trinta e quatro anos já experimentou uma meia dúzia de relacionamentos e nenhum deles lhe trouxe satisfação plena. Alta, branca, cabelos negros, lisos e bem tratados, há quem fale de sua semelhança com atriz Flávia Alessandra, coisa que a deixa no mínimo envaidecida. Mas fato é que Godói nunca encontrou felicidade em seus romances e para compensar essa falta, ela prefere embarcar em aventuras perigosas que podem acabar destruindo outros relacionamentos já estruturados, como o de Lobato e Denise.
*
Sem dúvidas o Cana Caiana é o que se pode chamar de referência da alta gastronomia. No estacionamento já é possível ter esta sensação. Igor olhou para sua fachada e por um momento o policial se perdeu no meio de tanta informação.
— Nossa! Como se faz para entrar neste lugar? — Disse boquiaberto.
— Calma. Logo logo seremos recepcionados por uma funcionária linda e sorridente. — Lobato se ajeitou.
Dito e feito. Uma mocinha devidamente uniformizada apareceu lhes dando as boas vindas. Ela os conduziu até o interior do estabelecimento onde o movimento já era grande naquele horário da tarde.
— Fiquem à vontade senhores. O nosso garçom irá atendê-los. — falou antes de se afastar.
Bonito, espaçoso, bem iluminado, do jeito que Mauro Lobato imaginou que seria. Ele também reparou no bom número de câmeras de segurança estrategicamente instaladas no salão e fora dele também. Mexicano está no papo, pensou vendo o garçom se aproximar.
— Boa tarde. Já querem fazer os pedidos?
— Boa tarde. Sim. Qual o prato do dia? — Lobato esfregou as mãos.
— Nós temos três opções. — Lhes mostrou no menu.
Mauro optou pelo número três que seria o macarrão penne com legumes. Igor odiou a escolha do parceiro.
— Vir ao Cana Caiana para comer macarrão com brócolis, cenoura e ervilhas é fogo, hein.
— Não se esqueça, o nosso objetivo aqui é planejar a prisão do Mexicano e não um jantar a luz de velas. Já fez suas anotações?
— Claro que já. Será preciso um volume maior de homens aqui dentro e lá fora. Fecharemos um perímetro de pelo menos uns dezesseis quilômetros também.
— Ótimo! Será a noite das noites.
*
Genivaldo desceu do carro vestindo seu traje habitual. Calça jeans, camisa azul claro de mangas compridas e sapatos marrons bem engraxados. No rosto a serenidade de quem tem o domínio total da situação. O lugar é um armazém desativado onde os antigos proprietários armazenavam de tudo, até combustível. Mexicano o adquiriu para fins nada convencionais. Juntamente com meia dúzia de capangas ele adentrou ao lugar tremendamente incomodado pelo volume de poeira e o cheiro insuportável de desinfetante barato no ar. Do bolso da calça foi sacado um pequeno lenço branco para a proteção de suas vias respiratórias.
— Temos que acabar logo com isso. — tossiu seco. — Cadê o desgraçado?
— Lá trás, senhor. — respondeu um sujeito negro de feição bem raivosa.
Sim, na parte de trás onde a poeira e o cheiro já eram menos agressivos havia um cidadão amarrado a uma cadeira de ferro com sérios hematomas por todo o corpo. Ao ver o bandido chefe cruzar os portões, ele não conseguiu conter a urina. Agora eu morro.
— Me perdoe os maus tratos, é que meus homens não sabem diferenciar um simples aviso de uma punição severa para uma menos severa, mas eu acho que você vai ficar bem, não é?
— Assim espero. — cuspiu sangue.
— Então. Depois de tudo o que passou, você ainda quer seguir medindo forças comigo? Já aviso logo, essa é uma guerra perdida.
— Prefiro morrer do que me juntar a você. — cuspiu outra vez.
— Você é durão, hein. — olhou para os ferimentos. — Veja bem, meu chapa, Parque São Lopes é pequena demais para nós dois e infelizmente para você, eu estou na vantagem. Eu estou lhe dando a oportunidade de viver. Trabalhe para mim.
— Meus companheiros foram todos mortos. Acha mesmo que vou conseguir viver bem sob seu comando?
Mais dois passos e Mexicano ficou frente a frente com seu rival. Foi possível ver o desespero da morte nos olhos dele.
— É a sua última palavra? — Acocorou-se.
O hálito de uísque e nicotina de Genivaldo foi respirado por seu inimigo que nada respondeu.
— Quem cala consente. — Ergueu-se.
Ao dar as costas, Mexicano autorizava a execução de um de seus principais rivais em Parque São Lopes. Enquanto caminhava em direção a saída, seus ouvidos captaram o som do disparo explodindo o crânio do sujeito. Esta cidade é pequena demais para dois chefões.
*
Mauro e Bianca se divertem como dois pervertidos entre quatro paredes sob a luz fraca de um quarto de motel zero estrelas. Quem mais perde a linha na hora da sacanagem, por incrível que pareça é a delegada que faz de seu policial gato e sapato.
— Vamos mudar de posição…
— Mas meu bem, eu não aguento ficar de ponta cabeça por muito tempo, vai atacar minha labirintite.
A festa no apê seguia cada vez mais quente enquanto que na calçada do outro lado da rua, Denise tentava adivinhar qual das janelas pertence ao quarto onde seu marido transa com sua chefe.
3
Foi uma noite e tanto. Bianca e Lobato se divertiram bastante ao ponto de ambos terem uma espécie de overdose de seus corpos. Para a delegada, passar várias horas fora de casa não gerará tantos estragos. Na verdade, ela não sofrerá consequência alguma, porém para o seu parceiro, elas virão de forma devastadora. Mauro deixou aquele motel xexelento já formulando a mentira que contaria para Denise enquanto seu carro semi-novo cruzava a estrada em direção a sua residência. Pode não parecer, mas Denise ainda representa muita coisa
em sua vida e ter que mentir para ela lhe causa sérios danos psicológicos. Mauro a ama de todo o coração, ele só não sabe como administrar muito bem tudo isso direito.
Denise separava algumas roupas para colocá-las na máquina quando Mauro chegou em silêncio com a típica cara de culpado.
— Oi, Mozão, tudo bem?
— Tudo! — esvaziou o cesto.
— Eu demorei por que…
— Deixa eu adivinhar. Você estava muito envolvido com a operação do tal de Mexicano. Acertei?
— Exatamente! Amor, estamos muito próximos de pegar esse cara. Se Deus quiser vai dar tudo certo. — esfregou as mãos.
— Que bom pra você. — pegou as roupas sujas.
Ao vê-la passar segurando aquele monte de roupas, Lobato foi acometido por uma onda de paixão que o incendiou de dentro para fora. Apesar de estar se aproximando dos sessenta anos, Denise esbanja uma saúde e sensualidade encontradas em poucas. Como um lobo capturando sua presa, Mauro a segurou por trás a deixando desconcertada.
— O que é isso, Mauro?
— Ah, sei lá, eu não resisti te ver assim. — a beijou no pescoço.
— Assim como?
— Assim, bonita, cheirosa, gostosa…
Deus sabe o quanto Denise Lobato tentou evitar com que os beijos do marido não lhe causassem efeitos dos quais a fariam terminar com ele na cama, mas foi maior do que ela. Enquanto era despida, a imagem de Bianca em sua mente era quase palpável e isso de maneira alguma lhe causou embaraço. Pelo contrário, tal sentimento só ajudou. Quero que ele me pegue do mesmo jeito que ele pega aquela vagabunda.
*
Xavier abriu passagem entre os curiosos em meio ao capim ainda úmido pela brisa da madrugada sem muita paciência. Ao ser notificado sobre a aparição do corpo incendiado do suposto líder de uma facção criminosa jogado às margens de uma autoestrada, Igor não teve tempo nem de reclamar. Muito sonolento, ele alcançou seu parceiro que também não estava lá essas coisas.
— Rapaz, eu pensei que eu estivesse mal, mas acho que você ganhou de sete a um igual a Alemanha da seleção brasileira. — Disse Igor bocejando.
— Preciso urgente de um café forte. — Disse Lobato também aos bocejos.
— Percebe-se. — olhou para o corpo. — É ele mesmo, o Jackson?
— Sim! E pelo visto, antes de partir dessa para melhor ele foi torturado.
Igor tirou o boné para coçar a nuca revelando um belo corte de cabelo.
— Você fica melhor sem esse boné. — colocou Lobato.
— Minha mãe vive me falando isso, mas eu me amarro em bonés. — Falou observando as mãos e os pés do cadáver. — Acha que tem o dedo de Mexicano nessa história?
— Não só os dedos como as duas mãos. Genivaldo quer dominar Parque São Lopes, ser absoluto.
— E se essa parceria com Zeus não for impedida, as coisas ficarão difíceis.
— Tem razão. Hoje o dia vai render. — olhou mais adiante e viu jornalistas chegando.
*
O crime não compensa. Nenhuma forma de delito vale a pena. Mas afinal de contas, o que faz com que homens como Genivaldo Gomes insistam em se manter às margens da lei, em ser a escória da sociedade? Poder! Quanto mais se tem, mais se quer. Ganância. Soberba. No início, Mexicano era um simples estelionatário tentando ganhar a vida dando golpes em idosos nos calçadões dos grandes centros. Certa ocasião, quando pensou que conseguiria de uma só vez pôr as mãos numa bolada aplicando o famoso boa noite cinderela, Genivaldo foi capturado por um grupo criminoso que o sequestrou e torturou por dois dias até ele aceitar ser um deles. Foi aí que tudo começou. Por possuir um aspecto e aparência de um típico mexicano, o líder desse grupo o batizou com o vulgo que é conhecido hoje. Mexicano.
Aos poucos Genivaldo foi conquistando a confiança de todos da organização e em menos de dois anos ele já era o segundo na hierarquia, mas tudo fazia parte de um plano. Para assumir de fato o controle, Mexicano simulou uma intensa troca de tiros e numa rica oportunidade enfiou um bala de 45 no crânio do chefe se apossando de vez do trono do submundo.
Hoje, no auge dos seus 68 anos, sem mulher ou filhos, tudo o que lhe restou foram os horrores de uma vida cheia de incertezas. Só o que sobrou foram as cinzas de uma esperança que um dia brilhou. Genivaldo não possui amigos. Não acredita nem mesmo em sua própria sombra, tudo gera nele desconfiança e dúvida. Mas acima de tudo isso, há dentro dele uma incrível vontade de ser grande, ser o maioral. Poder e mais poder. Por isso ele irá se juntar a Zeus e quem sabe tomar o que é dele também. Parque São Lopes corre perigo como nunca correu antes.
*
Estar a frente de um departamento policial não é uma coisa simples e ainda mais se tratando de um DP localizado numa cidade como Parque São Lopes que a cada segundo alguém tenta infligir a lei. Deus sabe o quão Bianca lutou para alcançar esse posto, mas há certos dias em que ela preferiria estar simplesmente dentro de uma viatura patrulhando as ruas. Com a morte de Jackson, o segundo mais procurado da cidade, o que já era ruim ficou insuportável.
— Então foi o Mexicano, isso é oficial? — falou se dirigindo a Igor parado perto da porta.
— Tudo leva a crer que sim, doutora.
— Sabe quantos telefonemas recebi da equipe do governador só hoje de manhã? — Esfregou o rosto.
— Imagino! — disse Lobato na outra ponta do gabinete.
— Cobranças atrás de cobranças. Todos querem a cabeça de Genivaldo, mas ninguém quer assumir a operação. Ninguém quer vir aqui e fazer o trabalho sujo. Tá brabo, viu.
— Pelos meus cálculos, Jackson era o último rival a ser aniquilado. — Igor olhou para Mauro que mexia no telefone.
— Sim, mas, Zeus é a bola da vez. Mexicano fechará parceria e depois de um tempo dará um fim nele. — Lobato seguia olhando para o celular.
— Nada disso vai acontecer. Nós vamos entrar no Cana Caiana e enjaular tanto um como o outro. — Bianca falou rápido demais.
— Positivo! — emendou Xavier. — Com licença, senhora, vou ao IML acompanhar a liberação do corpo para o sepultamento. Você vem comigo, Lobato?
— Não! Tenho algumas coisas para resolver com a doutora.
Assim que se viram a sós, os dois se olharam e ambos sorriram um para o outro. Bianca se encontrava linda vestida com uma calça jeans colada ao corpo e uma camisa social preta com as mangas dobradas na altura dos cotovelos.
— Quer dar uma fugidinha só para aliviar o estresse? — propôs Mauro.
— E para onde iríamos?
— Eu conheço um lugar onde podemos ficar à vontade e não é tão longe daqui.
— Ótimo! Me passa pelo WhatsApp. Vai na frente.
*
Denise estava agitada, batendo às portas do armário da cozinha a procura de algo que ela não sabia direito o que era. Como são as coisas. Ela e Mauro tiveram uma noite de amor pra lá de espetacular onde ambos se experimentaram como nunca antes, mas pelo visto não foi o suficiente para fazê-la acalmar. A minha vontade é de juntar minhas coisas e cair fora. O coração de uma mulher traída é terra onde homem algum conhece, Denise não deixará isso barato. Ele pagará por tudo o que vem fazendo.
4
Equipe motivada e pronta para embarcar na missão. As expectativas estão lá no alto, assim como a adrenalina. Mauro Lobato ao lado de Igor acompanha o desenrolar dos últimos preparativos no Cana Caiana para a emblemática prisão do maior chefão do cartel de drogas de Parque São Lopes. Nada pode ficar fora do lugar, nem mesmo um mísero copo de whisky ou guardanapo. Mexicano é uma raposa velha, basta alguém respirar errado para que ele ordene o início de um massacre.
— Tudo pronto, senhor. — Informou um agente de óculos fundo de garrafa.
— Tem certeza? Tudo revisado e pontuado?
— Sim! Revisamos meia dúzia de vezes. Todo o restaurante está coberto. Sem chance de fuga.
— E o perímetro? — Igor tomou a frente.
— Nossos homens já estão posicionados, caso queira solicitá-los, é só chamar no rádio. — Lhe entregou o aparelho.
— Show, Guilherme. — Lobato guardou o rádio no bolso da calça.
Para que não fosse levantado nenhum tipo de suspeita, os ajustes da operação foram feitos de forma bem sútil e durante o expediente do estabelecimento, com agentes disfarçados de clientes e até como funcionários. Tudo transcorreu conforme o planejado, os únicos que ficaram sabendo do esquema foram os proprietários.
— Então, meu belíssimo restaurante servirá de cenário para uma operação de alto risco? — soltou o dono.
— Desde já agradeço sua compreensão e cooperação. — Lobato e ele apertaram as mãos.
— E quanto aos clientes? Creio eu que nesse horário a casa estará lotada.
— Não se preocupe, já cuidamos disso também. — Disse Igor. — fechamos o perímetro, ninguém entra ou sai num espaço de dez quilômetros.
— Todos que estarão aqui no momento serão policiais. — Completou Mauro.
— É pra isso que eu pago impostos. — Brincou o empresário.
— Pode crer. — falou Lobato.
*
A noite não estava tão escura. A lua nova observava lá do alto cada movimento feito pelos agentes ao redor do restaurante assim como o restante da população daquela cidade monumental. São Lopes, o santo padroeiro dos costureiros e alfaiates. Uma cidade onde todos amam a noite e o que ela pode proporcionar. O Cana Caiana é um daqueles lugares onde somente a nata privilegiada consegue desfrutar da boa e velha gastronomia mundial pode oferecer. Lá dentro, onde o luxo e o glamour são respirados o tempo todo, o clima aparentemente é de paz com mais de vinte agentes disfarçados. Logo atrás da bem montada cozinha em aço inox, Lobato e sua equipe improvisaram uma sala de monitoramento com mais cinco policiais equipados com armamento pesado. Tudo minuciosamente coberto.
— É isso aí pessoal, agora é só aguardar. — Disse Lobato estalando os dedos.
Às vinte e uma e quarenta e cinco, uma SUV preta parou bem na frente da porta do estabelecimento e antes que Mexicano pudesse dar as caras, o seu guarda costas desceu com seu olhar frio focando as laterais. Com um gesto sutil de cabeça a autorização do desembarque do chefe foi dada. Genivaldo Gomes, o Mexicano, muito bem vestido com um blazer preto, camisa branca sem gravata e sapatos de couro legítimo.
— Vamos! — disse o segurança.
A mesa escolhida foi a número doze, localizada entre a estação de frios e o bar. Na sala de monitoramento Igor Xavier roe o que sobrou da unha do polegar direito enquanto que Mauro Lobato nem consegue piscar observando as imagens no monitor.
— Mantenha o foco, parceiro. — Sussurrou.
— Estou tentando. — expirou Xavier.
Vinte e duas horas em ponto. Às portas do melhor restaurante da cidade se abriram para a entrada de um sujeito branco feito uma vela, longilíneo, careca e sem sobrancelhas. Óculos de aros finos e uma tatuagem discreta de uma borboleta nas costas da mão esquerda. Zeus.
— Putz! — Lobato balbuciou. — é muita merda junto.
— Se é… — respondeu Igor colocando a aba do boné para trás.
*
— Como tem passado, senhor Genivaldo?
— Bem, na medida do possível. E o senhor?
— Ando trabalhando demais. Acho que esse será meu último negócio, pelo menos este ano. Pretendo tirar uns três meses de férias, mas, para que isso aconteça vou precisar de recursos.
— Ótimo! E o que quer beber?
— Hoje ficarei só com uma água mineral com gás mesmo. Estou tomando alguns remédios. — Zeus olhou ao redor. — belo lugar.
— Um lugar especial para um encontro especial. — Mexicano deu um meio sorriso.
— Me sinto lisonjeado. — silêncio. — Então meu querido Genivaldo, podemos finalizar os nossos negócios, somos finalmente sócios?
— Claro, claro. Terei o prazer de ser um de seus braços aqui em Parque São Lopes. Juntos somos mais fortes, porém com uma pequena ressalva.
Zeus perscrutou-se.
— Não é pelo fato de você ser o sócio majoritário que eu terei o dever de lhe chamar de patrão, certo?
— Uau! Ufa! Era só isso? — pôs a mão no peito. — Fique tranquilo quanto a esse fato, o meu negócio aqui está em boas mãos.
— Ótimo! E o meu material de trabalho, trouxe?
— Como combinamos. — consultou o horário. — o material está sendo descarregado em seu armazém neste exato momento.
Lobato olhou para Igor que imediatamente sacou o rádio fazendo contato com agentes que cobriam o perímetro.
— Alguma movimentação por aí?
— Positivo, zero dois, três caminhonetes deixando a estrada e seguindo para o armazém desativado.
— Ok! Assim que eles chegarem ao local os senhores estão autorizados a agir.
— Copiado!
Xavier fez sinal de positivo para Mauro. No salão a conversa entre os tubarões do crime segue pra lá de animada com Mexicano enchendo os ouvidos de seu mais novo sócio com histórias tão verídicas quanto dizer que elefante consegue voar. Igor sussurrou.
— Vamos acabar logo com isso ou não?
— Calma, ainda falta ele dizer que é o principal responsável pelos assassinatos de rivais e também de policiais. Esse merda vai apodrecer na cadeia.
Zeus se mostrava impressionado com os casos muito bem contados pelo velho meliante quando o mesmo resolveu gabar-se das execuções de seus inimigos.
— Tinha que ter visto quando peguei o Jackson, ele até mijou nas calças quando me viu. — riu.
— E quanto aos nossos amigos da lei? Conta-me tudo.
Isso mexeu com todos os presentes e principalmente com quem se encontrava à frente da operação. Mauro Lobato estava a ponto de sofrer um infarto a cada detalhe contado por Mexicano. O rádio de Xavier chamou.
— Tudo certo por aqui. Não houve resistência e estão todos sob custódia, zero dois.
— Ciente! — olhou para Lobato que gesticulou apontando na direção do salão.
— Vamos!
*
A mão tatuada levava o copo com a água gaseificada até a boca do jovem criminoso que não conseguia tirar os olhos cinzentos do veterano do submundo quando Lobato e Cia surgiu apontando sua arma lhe dando voz de prisão. Tanto Genivaldo quanto Zeus assistiram a tudo como se fosse em câmera lenta.
— Mexicano, você está preso. — Berrou Mauro.
Zeus deu um salto da cadeira na intenção de sacar sua pistola e ordenar que seus homens atirassem também, porém ele não contava com a agilidade e precisão dos “clientes” os abordando.
— Larguem as armas, agora. — gritou um policial.
Mexicano sentado estava, sentado permaneceu diante do descontrole de seu quase novo sócio que insistia em desafiar a polícia mesmo em desvantagem.
— Solte sua arma, Zeus. — Pediu Igor.
— Eu não vou cair. Não hoje.
Sentindo que a coisa poderia fugir do controle, Mauro Lobato se antecipou disparando duas vezes contra o bandido. Zeus caiu sobre a mesa perante um Genivaldo que não esboçou qualquer reação.
— Coloque suas mãos sobre a mesa. — Ordenou Lobato.
Fim da linha. Fim de operação. Ao redor do Cana Caiana só se via e ouvia viaturas com os giroflexs ligados e burburinhos dos agentes levando os suspeitos algemados para o interior dos carros policiais. Igor e Lobato conversavam animadamente na saída do restaurante quando Bianca Godói apareceu ainda mais bonita com as luzes azuis e vermelhas batendo em seu rosto.
— Parabéns, rapazes. Fizeram um bom trabalho. O governador já me ligou rasgando em elogios a todos envolvidos.
— Merecemos um aumento depois disso, não acha parceiro? — Igor o cutucou com o cotovelo.
— Também acho. — Cruzou os braços.
— Vou ver o que posso fazer.
Já era bem tarde quando todo o trabalho foi finalizado no restaurante e mesmo assim Lobato e Bianca deram um jeito de ficarem juntos por pelo menos meia hora dentro do carro da delegada. Mauro viajou pelas galáxias com a desenvoltura de sua superior dentro do HB20 preto.
— O que foi isso, mulher? — perguntou ofegante.
— Seu prêmio. — respondeu limpando os cantos da boca.
— Desse jeito vou querer prender o Mexicano todos os dias. Uau! — subiu o zíper.
*
Denise ouviu o som do motor do carro do esposo e se preparou psicologicamente para o que estava por fazer. A uma e meia Lobato adentrou a penumbra da sala ainda com a adrenalina circulando a todo vapor comemorando a maior de suas vitórias.
— O que faz sentada sozinha aqui no escuro, Mozão?
Denise não respondeu.
— Pegamos o Mexicano. — esfregou as mãos. — posso acender a luz?
— A vontade.
Assim que as lâmpadas foram acesas, o policial pôde ver uma dúzia de fotos espalhadas pela mesa de centro. Fotos comprometedoras que o deixaram sem ação. O olhar de Denise para Mauro era um misto de ódio, decepção e tristeza.
— Sente-se aí, detetive Mauro Lobato. A noite vai ser longa.
Final
Não havia como escapar e nem mesmo elaborar uma desculpa, por mais estapafúrdia que fosse, Mauro não tinha as mínimas condições de reverter aquele quadro. As provas eram cabais. Denise já havia tomado sua decisão, ele teria que deixar a casa, o lar, o refúgio construído pedra por pedra com dedicação e suor de ambos. O pacto feito ali dentro era o de envelhecerem juntos, mas pelo visto apenas uma das partes levou isso a sério.
— Pode começar a se justificar, detetive. — Cruzou os braços.
— Não há o que justificar, tão pouco explicar. Vacilei mesmo e estou disposto a sofrer as consequências. — sentou-se na ponta do sofá.
— Trocou a velha caquética aqui por uma menina de trinta e poucos.
Lobato abaixou a cabeça.
— A pergunta é: quando eu deixei de ser o suficiente para você?
Não houve resposta.
— A minha vontade era de te expor. Eu pretendia correr para as redes sociais e falar tudo, postar as fotos, mas pensei, refleti e cheguei a uma conclusão; a vida vai ensiná-los, Deus é justo.
— É que…
Denise não permitiu que ele seguisse.
— Eu só quero que você saia dessa casa. Já, hoje, agora. E leve as fotos de recordação da sua cagada. Vai.
— Denise, por favor, vamos conversar melhor…
De olhos fechados, mantendo a mesma postura, a dona de casa reafirmou.
— Vá embora da minha vida, detetive Mauro.
Irreversível, esta é a palavra certa quanto à decisão de Denise. Lobato juntou suas coisas e as pôs no carro prometendo voltar no outro dia para buscar o restante. Que noite. Com o que tinha na conta ele alugou um quarto num hotel ali perto. Cansado mas não querendo se deitar, Mauro ocupou a pequena mesa perto da janela onde é possível ver o vai e vem dos veículos na autoestrada passando a conferir as fotos.
— Mandei mal. — sussurrou olhando para a imagem do seu carro deixando o motel.
O experiente policial civil ganhou ou perdeu alguns longos minutos sentado, agora analisando foto por foto até que uma delas lhe fez pensar melhor. Estava mais claro do que água. Não havia como Denise descobrir a traição. Tudo era feito com muito cuidado, pensou pegando outra foto.
A mente não estava lá essas coisas para uma análise mais aprofundada, mas Mauro precisava tirar toda essa história a limpo, por isso ele ativou o modo investigador debruçando-se sobre as evidências.
*
Bianca entrou na sala onde são feitas as refeições e reuniões com ótimas notícias para toda equipe. O governador não concedeu o reajuste, mas prometeu premiar financeiramente cada um que compôs a operação.
— É disso que eu estou falando. — vibrou Lobato.
— E aí, vamos comemorar? — propôs Xavier. — Inaugurou uma choperia nova no centro. “Bora” lá?
Todos toparam exceto Godói e Lobato.
— Lobato e Xavier. — informou Bianca. — O advogado do Mexicano os aguarda lá na sala de interrogatórios. Sejam firmes, segundo o que dizem ele consegue desfazer vários nós num pingo d'água.
Eles entraram juntos na sala refrigerada com a tensão esbarrando no limite. Igor era o mais pilhado ali. De acordo com sua experiência, conversas com advogados de chefes de cartel não costumam ser nada amigáveis.
— Ué, cadê o cara? — Igor olhou ao redor.
— Entre aí e cale a boca. — Mauro o empurrou e depois trancou a porta.
— O que tá rolando, Mauro?
— O que tá rolando? Você é quem deve me dizer o que está rolando. — abriu a jaqueta retirando do bolso as fotos. — parabéns pelo belo trabalho de merda que você fez.
Tremendo o investigador as pegou.
— Lobato, eu…
— Vamos vê se eu entendi: você queria ficar com a Godói, se declarou para ela e ela não correspondeu. Você desconfiou do nosso envolvimento e passou a nos seguir e a registrar tudo em imagens só para me ferrar com Denise não é?
Ruborizado, Igor sentou-se em uma das cadeiras de aço.
— Na verdade eu as usaria para fazer chantagem com a Bianca.
Lobato cerrou os punhos.
— Vendo que não mudaria em nada, eu decidi tirar você de jogada. Comecei a enviar as fotos para sua esposa secretamente e assim foi.
— E é BURRO ainda por cima. O que pretendia fazer? Expor a delegada nas redes, imprensa, levaria o caso à secretaria de segurança? Fazendo isso você iria prejudicar meio mundo e mesmo assim não alcançaria o seu objetivo. Sabia disso?
Xavier apertou os lábios e os olhos.
— Me perdoe. Eu sou louco pela Godói. Dói demais saber que vocês se divertem…
— Cala a boca moleque. Agora é o seguinte. Se eu sair daqui sem lhe dar pelo menos um soco eu não vou conseguir dormir à noite.
— O que? — ficou de pé.
— O que ouviu. Meu casamento acabou e eu preciso descontar minha raiva. E aí, qual vai ser, na cara, estômago ou um chute nas bolas?
— Você não pode estar falando sério, Mauro? — pôs as mãos na cintura.
— Fique tranquilo. Não seremos mais parceiros , tão pouco colegas de departamento, a Bianca já agilizou sua transferência para o Rio de Janeiro. Estou esperando sua decisão.
Igor olhou fixo para Lobato com os olhos marejados.
*
Bianca aninhou-se o máximo que pode junto ao corpo do detetive depois de um hora de sexo intenso com Lobato agora sim no quarto de seu apartamento.
— O que faremos a partir de hoje? — Perguntou Bianca.
— Quanto ao que?
— Quanto a nós dois. Seu casamento já era e eu me sinto responsável por isso. Você é bem mais velho e…
— E?
Silêncio.
— Pensou em dar um tempo? — começou Mauro. — Pode ser, eu vou entender.
— Sabe de uma coisa? — Se ergueu. — enquanto pensamos, que tal experimentarmos aquela posição que vimos no vídeo?
— Só se você se expressar igual a atriz.
— Oh yes! — simulou.
Rodoviária Novo Rio. O coletivo abriu a porta e após as quarenta e cinco pessoas desembarcarem, foi a vez de Igor Xavier descer e contemplar o caos da cidade maravilhosa com o olho direito roxo.
FIM.

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