sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Do Ponto De Vista Da Morte

 


Do Ponto de Vista da Morte



Um carro em alta velocidade passou espalhando para todos os lados a sujeira acumulada nos cantos da calçada. Uma folha inteira de jornal foi parar no rosto do morador de rua que dormia um sono pesado, encolhido no piso frio cimentado onde funcionava uma loja de utensílios para o lar. Ao despertar com aquele papel imundo colado em seu rosto também imundo, o tal sujeito ergueu-se num susto que a muito tempo ele não era acometido. Ao perceber que se tratava apenas de um jornal, Geraldo o amassou e depois o arremessou como um jogador de basquete para dentro da lata de lixo, ali ao lado.

— Cesta! – murmurou.

Ainda era bastante cedo. Sete horas talvez. Seu estômago já o havia alertado algumas vezes quanto ao jejum prolongado. Ele revirou algumas sacolas de lixo e o máximo que encontrou foram duas fatias de pão de forma mofadas. Lógico que Geraldo não arriscaria ter uma intoxicação alimentar ingerindo aquilo. Ele as guardou para mais tarde oferecer aos pombos da praça que fica um pouco mais adiante. O jeito foi continuar procurando.

Até que Geraldo não se encontra tão mal apresentado. Em vista de outras pessoas que vivem nas ruas. Na medida do possível, ele até anda bem vestido. Calça jeans alguns números a mais do seu manequim. Para que elas não venham a cair quando estiver andando, Geraldo a ajusta na cintura com um pedaço de barbante que achou na reciclagem onde às vezes consegue um trocado levando latinhas de cerveja e de refrigerante, papelão entre outras coisas. A camisa não está em ótimo estado, porém longe de ser considerada um pano de chão. Possuí alguns furos, o que é bom em dias de calor intenso segundo o próprio Geraldo. Os pés estão sempre cobertos por um par de botinas que lhe foram doadas por um dos moradores do bairro. Até então Geraldo andava descalço e isso lhe rendera alguns ferimentos nas solas dos pés.

Geraldo encontra-se em situação de rua a mais ou menos... Sabe-se lá desde quando. Ele parou de contar faz tempo. A fome apertou novamente e quando isso acontece toda vergonha pula pela janela. Hora de apelar para os transeuntes.

— Bom dia, a senhora teria alguma coisa pra me dar? Estou com fome.

Fingindo não estar falando com ela, a idosa passou batida. Geraldo não reclamou, está mais do que acostumado a ser ignorado.

— Bom dia, senhor, tem como me ajudar, não como nada desde ontem.

O homem alto, bem vestido interrompeu sua caminhada apressada.

— Eu não tenho nada de comer aqui.

— Ah, podem ser uns trocados.

— Tem certeza, e se for pra comprar drogas?

— Eu nunca usei essa porcaria. Pode acreditar.

O homem percebeu nos olhos castanhos claros de Geraldo uma sinceridade genuína, por isso sacou da carteira cinco reais.

— Vai lá comer alguma coisa.

— Deus te abençoe, tenha um ótimo dia.

Um joelho de queijo com presunto no capricho. O suco foi por conta da casa. Geraldo procurou um canto para degustar seu café da manhã riquíssimo tendo como vista os apartamentos de uma avenida principal da cidade. O suco de maracujá com certeza o fará pegar no sono novamente, mas o que importa de fato é encher a barriga.

*

Alguém o esbarrou com os pés. Geraldo acordou assustado pela segunda vez no mesmo dia. Era Nina, uma outra moradora de rua e usuária de drogas o chamando.

— Tem alguma coisa pra mim, Gegê?

— Poxa, Nina, isso é jeito de acordar alguém? O que você quer?

— Perguntei se você tem alguma coisa pra mim. Que estressadinho, hein. — Nina tem a voz rouca e alta. 

— Não! – sentou-se. — você sumiu, o que andou fazendo?

Nina se acomodou ao lado do companheiro. Seu hálito matinal era ainda pior que o habitual. Uma mistura de nicotina e bosta de vaca.

— Menino, acredita que um carinha prometeu me dar dois reais se eu chupasse ele.

— E você acreditou?

— Claro. Eu estava seca por uma pedra, então, lá fui eu.

Geraldo meneou a cabeça de forma negativa.

— Quando eu terminei o serviço, ele correu para dentro do carro e meteu o pé e eu fiquei sem meus dois reais e com a boca toda suja daquele porco. A hora que eu o encontrar vou cortá-lo todinho. — puxou o estilete do bolso da calça moletom cinza.

Silêncio.

— Você precisa mudar de vida, Nina. O tempo está passando rápido demais.

— Eu preciso mudar de vida e você, não?

Geraldo olhou friamente para ela.

— Eu já sofri essa mudança. — Geraldo abaixou a cabeça.

— Cara, você é muito estranho. Apareceu aqui do nada. Não namora, não come ninguém, não se junta com a gente. Qual é a tua Gegê?

Geraldo abaixou a cabeça novamente e depois olhou para frente, na direção dos prédios. Bem que ele gostaria de saber responder a essa pergunta, mas...

— Nina, vou ficar te devendo mais essa. Tá bom? – bateu de leve em sua perna.

— Quer dar uma trepadinha? — O seduziu.

— Fica para uma próxima.

Nina levantou-se revoltada da vida.

— Quer saber o que eu acho, de verdade de você Gegê? – pôs às mãos na cintura.

— Já sei, e pode acreditar, não sou homossexual. – sorriu.

— Até mais, pangaré. – bufou.

 Ainda sob os efeitos do suco de maracujá, Geraldo deitou-se em posição fetal. Logo pegará no sono.

*

Ao meio-dia Geraldo abriu os olhos bem devagar. Ainda não estava com fome, mas nunca é cedo demais ir em busca de comida para uma pessoa em suas condições. De uma sacola com a logomarca de uma rede de supermercados famosa encontrada no pé de um dos postes, Geraldo achou restos de uma comida fina, um pouco mais sofisticada. Não estava azeda, porém nem um pouco convidativa a degustação. Melhor deixá-la para os roedores e pombos. Geraldo achou melhor seguir mais adiante aonde há um restaurante. Pode não ser um desses estabelecimentos premiados, mas ainda assim um ótimo lugar para se encher a barriga. O dono do local é uma pessoa de um coração gigante e generoso, sempre que pode ele reserva duas ou mais quentinhas para os menos favorecidos.

— Olá, boa tarde. O senhor Agenor se encontra?

— No momento ele conversa com um de nossos fornecedores. Vai aguardar? – informou o segurança na porta.

— Tudo bem. É que ele sempre reserva alguma coisa de comida pra gente e...

Nesse momento Agenor e mais dois sujeitos deixaram o restaurante conversando animadamente. Assim que o viu, o empresário abriu os braços.

— Já conhecem Geraldo?

Ambos os homens fizeram cara de poucos amigos. Geraldo também os fitou, permitindo que seu coração se enegrecesse.

— Carlão, vá até a cozinha e peça que façam uma quentinha no capricho para o meu querido aqui.

— Obrigado, seu Agenor, o mundo precisa de mais seres humanos como o senhor. – declarou olhando para os homens.

Geraldo deixou o restaurante levando consigo uma marmitinha bem servida da melhor comida caseira do bairro dentro de uma sacola. Hora de achar um bom lugar para o almoço. Quem sabe no parque debaixo das árvores?

Assim que sentou-se e encostou no tronco de uma goiabeira alguém o cutucou no ombro. Geraldo não se assustou.

— Diga logo o que quer e caia fora.

De trás da árvore saiu um rapaz mediano, loiro, terrivelmente bonito com seus olhos verdes, muito bem vestido socialmente.

— Então, quer dizer que seu nome agora é Geraldo? Que brega. – pôs às mãos na cintura.

— Brega, por que?

— Ah, sei lá. Seu nome original é bem mais bonito. O que você tem aí?

Geraldo olhou para a quentinha e depois para o loiro a sua frente.

— Não vai me dizer que você também foi destituído?

O rapaz pálido pôs uma das mãos no peito.

— Destituído, eu? Nunca.

— Então, o que quer de mim?

Geraldo desfez o nó. Retirou a quentinha de dentro da sacola. Pegou a colher de plástico e começou o almoço sob os olhares de seu conhecido misterioso.

— Por que não volta? Diga a Ele que está arrependido.

— Não vai adiantar. O que Ele fez está feito e ponto final. Eu cometi um erro e devo pagar por isso.

O sujeito loiro acomodou-se ao lado de Geraldo que se mostrou incomodado com sua presença.

— Desde sempre, nos foi ensinado que só deveríamos levar quem Ele designou e você decidiu por si que levaria aquele infeliz. E assim você fez.

— Eu sei que ainda não era a hora dele, mas...

— Jamais podemos permitir que a nossa vontade assuma o controle. Eu também me revolto, sabia?

Geraldo deixou a comida de lado e passou a murmurar.

— Ela era só uma criança. Não merecia morrer daquele jeito. Foi complicado levá-la, coitadinha. – fechou os olhos. — eu não aguentei vê-lo perambulando impunemente por aí. Eu me lembro que cheguei até Ele pedindo por justiça...

O loiro riu.

— A resposta foi a mesma de sempre. “minha é a vingança”.

— Sim. Mas o pior não foi isso. Eu tinha a certeza que aquele maldito cometeria outro crime. Então...

— Você, um mero serviçal decidiu levá-lo por sua conta.

— No meu lugar, o que você faria? – Geraldo criou coragem para olhar para o seu conhecido que emitia uma luz azulada ao redor do corpo.

— O ser humano criado por Ele é extremamente cruel e nunca está satisfeito com a bondade. Eu sei que aquele sujeito mataria outra criança, violentaria sua inocência, mas não cabe a nós tomar a decisão. Nossa função é conduzi-los ao além e só.

Geraldo entristeceu-se abaixando a cabeça. A fome já não era um problema.

— O que está feito, está feito. Eu errei e por isso estou aqui, pagando pelo meu erro.

O loiro se levantou e alongou sua lombar. Olhou ao redor do parque e avistou pessoas circulando por ali entretidas com suas conversas e gargalhadas.

— Eles podem até ser cruéis, mas são belos. Ele acertou em cheio quando os criou.

— Você não deveria estar levando alguém? – Geraldo voltou a mexer na comida.

— Sim, claro, e farei isso daqui a pouco. Está vendo aquela mulher vindo de bicicleta ali? – apontou.

— A morena clara?

— Ela mesma. Tão linda, tão jovem e forte. Terminou a universidade há poucos dias, mas infelizmente a hora dela chegou.

Geraldo rejeitou novamente a comida que a essa altura já havia se tornado uma pedra de gelo de tão fria.

— Poxa, mas a moça acabou de se formar, é bem provável que tenha feito projetos para uma vida inteira.

O loiro bonito cruzou os braços.

— Geraldo, Geraldo, desde quando você recebeu a essência humana se transformou em algo coberto de piedade. Eu estou aqui a mando Dele, você entende? Por favor! Quantas almas você conduziu ao além que também tinham planos iguais a essa pobre coitada? Milhares, suponho.

— Mas...

— Esquece, Geraldo, quanto a isso você não pode fazer nada. Agora com licença, tenho uma alma para conduzir.

A jovem morena atravessou o parque na intenção de seguir pela rua movimentada onde não há ciclovia. Geraldo acompanhou atônito todo o desenrolar da situação. Em questão de segundos, toda a vida pregressa da mulher se passou diante de seus olhos. Mulher guerreira, mãe de dois filhos, um casal pra ser mais exato. Casou-se duas vezes e somente com esse atual é que as coisas começaram a melhorar para ela. Com muita dificuldade e determinação ela conseguiu concluir sua faculdade de direito e agora luta para ingressar no mercado. Geraldo chorou. Um caminhão baú, um motorista desatento colocará um ponto final em toda sua história. 

Ela deixou o parque e atravessou a rua ainda com o sinal aberto, atrasada para algum compromisso pelo visto. O loiro se aproximou com sua luz azulada um pouco mais potente. O caminhão cruzou o semáforo a uma velocidade razoável tirando fino da bicicleta e sua condutora.

— Desgraçado, não me viu aqui não? – gritou a mulher.

O loiro iluminado girou nos calcanhares na direção de Geraldo e o mesmo encontrava-se incandescente com os braços estendidos na direção da mulher.

— Você é mesmo um tolo, Geraldo. Usar seu último recurso em favor de um ser finito. Agora de fato você se tornou um deles. Você me verá novamente, mas não para uma visita, mas sim para conduzi-lo. Até mais. – desapareceu.

Geraldo olhou para a mulher que ainda discutia com o caminhoneiro. De repente, algo dentro dele começou a pulsar. Ele pôs às mãos no peito e chorou.

— Coração. Eu agora tenho um coração. – contemplou o céu. — o Senhor me presenteou com um coração. Sou como eles e morrerei como eles. Honrarei isso até o fim.

Geraldo viveu ainda por mais trinta anos. Deixou às ruas. Conseguiu um emprego no mesmo restaurante que o ajudou durante o tempo que passou na sarjeta. Conheceu uma moça e constituiu família com ela. Foi um pai maravilhoso e um marido apaixonado pela esposa. Morreu de causas naturais e foi conduzido ao além pelo loiro bonito. FIM



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