O PREDADOR DA RUA 6
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O obeso motorista da companhia de limpeza urbana estacionou mal e porcamente o caminhão no início do único caminho que leva a mata sob os protestos de seus colegas de empresa. Para eles, o veículo deveria ter seguido estrada a dentro a fim de conseguirem mais facilidade para a execução do trabalho.
— Esse gordão não é mole. — reclamou um dos operários. — Imagina ter que carregar todo o peso até aqui.
— Eu avisei que esse cara era ruim de trabalho. Assim que chegarmos a empresa vou pedir para me transferirem de equipe. — falou outro.
— Eu também.
A dupla de trabalhadores avançou pelo caminho de mato sulcado e cascalhos carregando o material de trabalho ainda reclamando da falta de profissionalismo do colega quando ambos sentiram um forte odor de carne podre.
— Deve ser um daqueles cachorros grandes. — disse se abanando.
— Só pode. — respondeu o outro cuspindo.
Eles andaram lado a lado por mais alguns metrôs quando deram de frente com dezenas de urubus rodeando um corpo iniciando seu processo de decomposição.
— Minha nossa! — exclamou o que carregava a ceifadeira.
— O que vamos fazer? — perguntou gaguejando dando dois passos para trás.
— Não tem outro jeito. Temos que avisar a polícia. — Sacou o celular.
*
Felipe tentava de todas as maneiras bloquear sua mente quanto ao clima instaurado naquela copa enquanto tomava seu café da manhã, porém Rosana o puxava de volta à dura realidade da crise conjugal. Eles não tiveram uma noite legal. Aliás, o mês inteiro vem sendo um verdadeiro campo de guerra com conflitos incessantes.
— Só lembrando que você aceitou a minha proposta. — disse Felipe após um longo período em silêncio.
— Não precisa ficar jogando essa merda na minha cara o tempo todo. Eu sei o que fiz. — Rosana enchia sua caneca de café.
— Então eu não entendo. — pegou o celular para conferir as horas. — eu só acho que estamos alimentando algo que, no final das contas, não merece tanta importância.
— É impressionante como vocês homens normalizam as coisas. Meu Deus! — Nesse momento o celular de Rosana tocou em cima da mesa. — Valle na escuta.
— Bom dia, Valle, surgiu uma ocorrência e preciso que você assuma.
Rosana olhou para o marido que vibrava com a interrupção da discussão, salvo pelo gongo. Pensou Felipe.
— Qual o endereço? — a policial fez uma careta provocando-o.
— Bairro Marçal, rua seis. Homicídio. Voe pra lá.
— Copiado, doutor.
Bolsa, chaves, distintivo e arma. Em tempo recorde tudo isso foi recolhido em meio ao silêncio. Rosana Valle engoliu o café e saiu sem se despedir, tão pouco olhou para Felipe que seguia verificando sua rede social.
*
Antes de descer do veículo, Rosana deu uma curta olhada no espelho e notou um certo envelhecimento principalmente na região dos olhos e percebeu também o quanto necessitava urgente de um trato nos cabelos. Ela havia agendado uma hidratação, mas com a correria do dia a dia tanto em casa quanto na delegacia, tal tarefa foi ficando para trás, caindo no esquecimento. Rosana Valle é uma mulher negra e alta. Não é tão bonita mas ainda assim consegue atrair olhares devido ao belo corpo esbelto que possui. Ela está casada com o músico violonista de estúdio Felipe Souza há quatro anos. Antes de adquirirem o sonho de morar num apartamento na zona sul da cidade, o casal vivia às voltas com um senhorio exigente pagando um aluguel altíssimo, algo que consumia boa parte da renda de ambos. Realmente o imóvel não valia o que era cobrado e isso fez com que eles juntassem suas economias para a compra de um empreendimento.
O casamento estava indo muito bem. Tudo acontecia em comum acordo. Felipe fazia questão de incluir sua jovem esposa até mesmo nas mínimas decisões e ela o mesmo. Tudo transcorria bem até que Felipe teve uma ideia infeliz. Há certas coisas na vida que simplesmente deveriam morrer com a gente. Há sonhos e desejos que definitivamente não podem ser expostos. No afã de realizar suas fantasias, Felipe fez uma proposta indecente para sua esposa, ela concordou e hoje, ambos vem pagando caro por isso.
*
Ainda tentando fingir que nada em sua vida particular vem interferindo na profissional, Valle caminhou a passos firmes mata adentro. O local é de difícil acesso, mas quando o assunto é “ o surgimento de um corpo no meio do mato” não há obstáculo certo que impeça os mais curiosos de saírem de suas casas para saciarem sua vontade de ver carne humana apodrecida. Mesmo sob as ordens dos PMs responsáveis por mantê-los afastados, os carniceiros de plantão insistem em registrar com seus celulares aquela cena tenebrosa.
— Vamos lá pessoal, colaborem por favor. — Rosana caminhava sem pedir licença erguendo seu distintivo.
Finalmente, lá estava o motivo de sua ida até aquele lugar de atração zero(pelo menos para ela) o corpo de um homem de idade avançada com várias incisões em determinadas partes do corpo.
— Caramba! — pôs as mãos na cintura. — Isso é realmente um trabalho para a polícia?
Um outro agente uniformizado que também se encontrava impressionado com o quadro a sua frente fez coro a inspetora.
— Olha, se não estivéssemos no século vinte um, eu diria que esse cara foi vítima de um…
— Ah, jura? Um lobisomem?
— Não sei, só pensei alto. Veja esses ferimentos. Golpes precisos, profundos, executados com bastante violência.
Valle tirou os olhos do colega e passou a analisar melhor o cadáver. Sim! Ele tinha razão. Quatro rasgos. Centímetros os separavam, semelhante a garras de um felino ou algo do tipo. Rosana sentiu que não seria um caso fácil de se resolver então, era a hora de colocar o cérebro para funcionar em sua capacidade máxima.
— Já sabemos quem ele é?
— Sim, senhora. Trata-se de Sebastião Guimarães. Ele é bem conhecido na região. Ganha a vida vendendo doces pelas ruas. — aproximou-se de Rosana.
— Ele tem alguém por ele ou está sozinho no mundo?
— Segundo me foi passado, ele mora com alguém! — o policial seguia intrigado com os ferimentos.
— Isso é tudo por enquanto? — Valle voltou a olhar para o colega de profissão.
— Positivo, senhora inspetora.
*
Um cão enorme faminto e furioso? Uma fera sobrenatural desconhecida? Um licantropo atacando em pleno 2026? Isso chega a ser ridículo. Enquanto aguardava o término do trabalho dos peritos, Rosana, apoiada em seu veículo, permite que sua mente produza pensamentos fantasiosos mesmo sabendo que nada disso somará na investigação. Então porque estou enchendo minha cabeça com isso? Até parece que ela não sabe. Nessa altura do campeonato, tudo é mais válido do que ficar se martirizando pensando em seu casamento com Felipe. Onde eu estava com a cabeça quando aceitei uma coisa como aquela? Estava na cara que nada seria como antes.
— Senhora inspetora? — disse uma perita loira descabelada.
— Oi, Michele? — Valle sacudiu a cabeça.
— Estamos recolhendo o corpo para uma análise mais detalhada. A senhora precisa de mais alguma coisa?
— Sim! Preciso saber o que minha perita favorita acha de tudo isso.
— Bom. Descartando a possibilidade da existência de um monstro, a pessoa que fez isso sabia exatamente o que estava fazendo. Pela natureza dos ferimentos, o atacante queria mesmo executar seu alvo, mas se divertiu antes.
— Perfeito! — abriu os braços.
— A senhora precisa de mais alguma coisa? — expirou.
— Não! Só peço que me mantenha informada de tudo o que descobrir, tudo bem, gata?
— Pode deixar e obrigada pelo “gata”. — se afastou.
*
Antes de voltar para casa, Rosana Valle teve uma breve reunião com Ronaldo Dias, seu delegado. Ela o deixou à pá de tudo o que aconteceu durante o dia e como era de se esperar, Dias lhe cobrou eficiência e fez questão de lembrá-la que, seres de outro mundo devem permanecer somente no imaginário humano e nas páginas de livros de terror. Outra vez ela se sentiu ridícula.
Já no mercado, no departamento de frios, a policial deu uma conferida nos valores dos queijos e em seguida andou até o corredor das bebidas. Lá estava ele, o vinho preferido de Felipe. Um pouco salgado o preço, mas... Quando esticou o braço para pegá-lo, sua mente a alertou, vocês não estão numa fase boa para uma noite regada a vinho de qualidade e queijo. Xingando mentalmente, a inspetora deixou o estabelecimento e voou para o apartamento.
Na hora de dormir, louca de vontade de fazer amor, Rosana apenas assistiu seu marido deixar o banheiro e ocupar o seu lugar na cama em silêncio.
— Boa noite. — ele disse bocejando.
— Meu Deus! Quatro anos de casados e já vivemos como se tivéssemos cem.
— Você vai mesmo querer começar uma briga agora? São quase meia-noite.
— Posso te fazer uma pergunta?
Felipe revirou os olhos.
— Quando você estava pegando a Carla daquele jeito que eu nunca vi você me pegar, você não tirava os olhos de mim, por que?
O músico precisou buscar rapidamente na memória tal momento.
— Lembra de como você estava vestida?
— Sim, com uma Maria Chiquinha falsa e colegial, como o senhor pediu.
— Então. Tesão. Era só isso. Tesão na minha mulher vestida daquela maneira.
— Tesão na sua mulher com outra em cima de você? Meu Deus. Homens! — se cobriu com o edredom.
Felipe desligou a luminária. Se virou ficando de costas para Rosana. O silêncio durou pouco até o mesmo soltar a bomba.
— Eu pensei o dia todo e cheguei a conclusão que ninguém é obrigado a viver desse jeito, então, acho melhor eu cair fora.

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