quarta-feira, 25 de março de 2026

Mão Negra


 Mão Negra



 
Olá, tudo bem? Sou o investigador da policia civil e me chamo João Antônio, mais conhecido como J.A, dentro e fora do departamento policial. Já atuo na área há mais ou menos vinte anos e a oito venho tentando capturar o maior e mais escorregadio ladrão de todos os tempos, Manuel Clemente, o famoso Mão Negra. Pois é, esse sujeito vem tirando meu sono e por causa dele o meu casamento foi a ruína. Espera aí! Não foi só culpa dele, mas digamos que Mão Negra contribuiu bastante para que o meu relacionamento fosse a falência, mas isso é uma outra história.
Manuel Clemente não é um ladrão de beira de estrada ou batedor de carteiras. Lógico que não. Mão Negra é profissional, é perigoso e sabe muito bem o que quer. Quando ele deixava o seu esconderijo para mergulhar em suas ações ele jamais voltava com trocadinhos ou relógios e joias. Claro que não. Clemente é ladrão, e dos bons. Você deve estar se perguntando; será que, em oito anos eu não tive a chance de colocá-lo na cadeia? E eu digo que sim. Claro que tive, mas como eu falei no início, Mão Negra é escorregadio demais, seu serviço é limpo e quando se via encurralado, ele atirava para matar.
Certa ocasião ele conseguiu fugir da cena do crime com todo o dinheiro que um certo político milionário tinha guardado no cofre dentro de sua residência. Mão Negra saiu pela porta da frente, sem ser incomodado, sem dar um tiro sequer. O tal político perdeu toda a grana da verba que ele desviava dos hospitais.
Oito anos correndo atrás do rato e o rato sempre se safando, sempre se desvencilhando da ratoeira. As vezes eu recebia ligações do meu chefe no meio da noite me dando ordens para ir até o local onde o malandro havia estado. Minha mulher nunca entendeu muito bem isso. Por mais que eu dissesse que tudo isso era parte do meu trabalho, ela nunca se esforçou para entender. Numa madrugada dessas o delegado Celso Amorim me ligou e aos gritos me informou que Manuel havia entrado no apartamento de um playboy e saiu de lá com cinquenta mil reais, fora os mil dólares que encontrou num pote de biscoito na cozinha. Eu me lembro que não fui direto para o endereço. Rodei os quarteirões ao redor e quase o prendi. Trocamos tiros no meio da rua e o persegui a pé, mas, como ando fora de forma, Mão Negra desapareceu levando toda a grana. Foi a pior noite da minha vida.
Mas graças a Deus tudo isso passou e eu consegui por as mãos no Mão Negra e estou aqui para lhes contar. Fácil não foi, mas é como eu sempre digo: nada dura para sempre. Tanto o bem como o mal, um dia acabarão. Então vamos nessa.

Capítulo 1

Foi numa madrugada de sábado para domingo. Marlene e eu havíamos tido uma baita discussão sobre o fato de eu não lhe dar mais atenção devida. Ela foi a primeira a ir para cama e eu, como sempre, fiquei sentado na varando fumando e bebendo meu Bourbon pensando na vida. Pensando no Mão Negra para ser mais exato. Eu estava chateado demais, pensei em acender outro cigarro ou até mesmo pegar o carro e dar uma volta, respirar um pouco de ar fresco, mas eu não fiz isso. Apaguei o que restará do cigarro na sola do meu Havaianas e entrei. Marlene fingia dormir. Sentei-me na ponta da cama e comecei a acariciá-la por debaixo do cobertor. A princípio houve uma certa resistência, mas aos poucos ela foi cedendo.
— Vamos nos entender? – perguntei eu.
— Venha logo.
A alegria com minha mulher durou só vinte minutos. Fizemos amor como nos velhos tempos de namoro. Marlene estava sensacional naquela noite. Depois do banho eu já tinha relaxado na cama e o sono começava a dar as caras quando meu chefe me ligou. Marlene não disse nada, apenas murmurou baixinho, (me xingando provavelmente).
— J.A falando. – atendi.
— O ladrão atacou novamente, foi num motel bem próximo da sua casa, vá até lá agora.
Mais que merda! Pensei.
— Tudo bem. 
Encerrei a ligação e virei-me para minha mulher que já não queria mais assunto comigo.
— Tenho que sair.
Ela deu de ombros.
Eu amo ser policial, é o que eu sei fazer de melhor, mas confesso que tem dias – como esse por exemplo – que de verdade eu penso em jogar tudo para o alto e desistir. Mas não adianta. Tenho a lei correndo em minhas veias, minha missão ainda não acabou. Enquanto eu não puser às mãos no maldito do Manuel Clemente eu não vou me aposentar, não vou desistir. Foi o que fiz. Me vesti. Peguei as chaves, meu distintivo, minha arma e fui. Caí na madrugada.
*
Cheguei ao motel por volta das duas da manhã aborrecido e com sono. Desci do carro fechando o ziper da jaqueta e olhando ao redor buscando visualizar Amorim. Ele ainda não havia chegado, graças a Deus, porém minha animação durou pouco quando olhei para a recepção do estabelecimento e reconheci Pavanelli conversando com um suposto funcionário do lugar. Empurrei a porta e entrei.
— Grande João Antônio. – disse ele com aquele sorrisinho enviesado que tanto me irrita.
— Pavanelli. Como chegou tão rápido? – Coloquei as mãos nos bolsos da jaqueta.
— Sabe como são as coisas né, um jornalista precisa estar antenado, mesmo na madrugada. – mostrou o celular.
A minha vontade era de agredi-lo, mas verdade seja dita, Pavanelli querendo ou não já me foi muito útil em outros casos. O bicho é inteligente.
— O que temos aqui? – olhei ao redor.
— Mão Negra ataca novamente. – apontou para o cartão de visitas do ladrão em cima do balcão. Uma folha de A4 com uma mão negra xerocada toda amassada.
— Caramba! – exclamei cansado. – e quanto foi dessa vez?
— Hum, o grande J.A precisando da ajuda da imprensa? – desdenhou.
— Fala logo.
Pavanelli sacou seu bloquinho de anotações. Minhas pernas estavam bambas.
— Segundo me relatou o gerente, ele saiu daqui com 15 mil reais, fora os pertences dos clientes.
— Carambolas! – falei entre os dentes. Nesse momento, Amorim empurrou a porta da entrada furioso.
— O que ele faz aqui? – vociferou.
— Boa noite para o senhor também, delegado.
Celso Amorim odeia Pavanelli mais do que eu. Essa guerra já é antiga, desde quando estávamos atrás do “Piloto”, um traficante de drogas perigoso que, graças a intromissão de Pavanelli, um dos nossos policiais quase foi morto. Hoje o pobre agente vive numa cadeira de rodas sobrevivendo de uma aposentadoria de merda.
— Vou pedir uma vez só: saia. – falou Amorim com o rosto vermelho feito um pimentão.
— Mas... – encolheu os ombros. 
Amorim gesticulou para os dois PMs que o acompanhava e os mesmos avançaram para cima do jornalista indefeso.
— Isso é censura hein. – gritou.
— Tire esse bosta daqui.
Ele se virou para mim.
— Alguma pista?
— Acabei de chegar. – pigarreei. – só temos aquilo por enquanto. – lhe mostrei o papel.
Contei tudo o que Pavanelli havia me contado para o delegado. Andamos pelo motel, olhamos quarto por quarto atrás de uma pista que nós dois sabíamos que não existia. Conversamos com clientes, funcionários e chefia. Lá pelas tantas saímos do lugar ainda sem nada nas mãos. Amorim estava visivelmente frustrado.
— Ele se safou novamente. 
— Se o senhor quiser eu posso montar uma equipe de busca e...
— Não. Esse caso já era. – abriu a porta da viatura. – quero você às nove no meu gabinete. Temos que alinhar nossas ideias. Já passamos da hora de prendermos esse otário.
— Certo!
Os pneus da viatura deixaram poeira para trás e eu permaneci ali, parado olhando para o motel. Eu também estava frustrado querendo arrancar a cabeça do miserável, mas isso não me levaria a lugar algum. Ir para casa não era uma opção, então resolvi enfiar a cara no trabalho. Voltei para dentro do motel e fui até o gerente.
— Preciso das imagens das câmeras de segurança. Agora.

Capítulo 2

Manuel Clemente chegou ao lugar onde se esconde suado, exausto e um pouco mais rico também. Quinze mil reais em uma só noite não é uma coisa que acontece com frequência. Ele abriu a outra bolsa e conferiu com cuidado o seu conteúdo. Celulares, anéis, tablets e relógios, tudo isso ainda deve-lhe render uma boa grana. Manuel é produto de uma família sem base alguma. Sua mãe foi uma mulher que, ainda na adolescência sofreu abuso sexual e acabou engravidando de seu agressor. Seu irmão mais velho cresceu assistindo as surras dadas pelo padrasto em sua mãe todos os dias. Mesmo em meio a esse inferno, sua mãe engravidou pela segunda vez. Aos sete meses de gravidez, seu padrasto a surrou tão violentamente que ela precisou ser hospitalizada, mas graças a Deus o pequeno Manuel não sofreu nada. Após uma semana de internação, sua mãe teve alta e infelizmente ela pôs em prática o que planejou enquanto estava naquele leito. Seu padrasto dormia no quarto quando foi esfaqueado até a morte aos gritos de “vai agredir mulher no inferno, seu covarde". A polícia chegou e não houve resistência. Sua jovem mãe foi levada algemada com o rosto sujo pelo sangue do miserável. Manuel Clemente nasceu na prisão e foi adotado por outra família. Clara Clemente se envolveu numa confusão entre as presas e acabou sendo estrangulada.
Nessa nova família Manuel não era bem vindo pelos filhos do casal. Sofria com chacotas e até humilhações. Quando atingiu a maioridade, ele resolveu sair de casa e construir sua vida sozinho. Foi quando conheceu o submundo do crime. A princípio Manuel agia com mais dois companheiros. Eles roubavam lotéricas e postos de gasolina, tudo era dividido em partes iguais até que um dia Clemente se viu sendo roubado pelos próprios amigos. Fora de controle, Manuel sacou sua arma e os matou ficando com todo o dinheiro do roubo.
Mão Negra. De onde ele tirou esse vulgo? Até hoje ele não sabe. Talvez ele tenha visto num filme ou notícia de um jornal qualquer. Ele apenas sabe que o apelido pegou. Mão Negra o maior ladrão da história. Age sem deixar rastros, é perigoso e se sentir acuado ele mata. 
*
O sono bateu forte quando eu ainda assistia as imagens das câmeras de segurança do motel. Não foi nada fácil ficar ali olhando a ação do Mão Negra sem poder fazer nada, não é possível que ele vá sair livre dessa mais uma vez. O sujeito é mesmo um cara de pau, age sem medo, de cara limpa, sem receio das câmeras. Assalta na maior tranquilidade. Escorregadio demais.
Eu havia pedido um café forte sem açúcar e enquanto aguardava algo me veio à mente.
— Os localizadores dos celulares. – esqueci o café e fui trabalhar.
Andei com pressa até a recepção onde os clientes ainda conversavam com o gerente. Interrompi a celeuma existente ali perguntando bem alto quem costumava manter o localizador ativado. Somente um rapaz disse que sim.
— E por um acaso o seu aparelho se encontra sincronizado com outro?
— Sim. Minha mãe faz questão de saber cada passo que dou.
— Legal. Obrigado a todos. – me despedi, mas levei o rapaz para fora comigo. 
*
Amorim havia começado a tal reunião às nove em ponto. Ele olhou em volta e não viu João Antônio na sala.
— Mais que merda, cadê o J.A?
— Ele me ligou dizendo que se atrasaria, senhor. – informou outro policial.
Após passar as mãos na cabeça de poucos cabelos o delegado resolveu seguir com o plano mesmo sem o seu investigador responsável pelo caso.
— Quero um pente fino nos arredores daquele motel. Mão Negra deve estar por perto. Vou manter as patrulhas circulando pra cima e pra baixo vinte quatro horas, enquanto isso quero vocês nas ruas, becos, vielas, bueiros, sei lá, mas peguem esse sujeito. 
O celular de Amorim tocou em cima da mesa. 
— Aonde você está que não se encontra em minha sala?
— A caminho da casa do Mão Negra. 
Amorim ficou boquiaberto. 

Capítulo 3

Eu na verdade estava em frangalhos pensando em minha Marlene o tempo todo. Pensando nos dias felizes que tivemos juntos no início do nosso relacionamento. Era bom demais. Lembro-me que ela sempre me recebia com um sorriso largo, cabelos molhados e uma pele fresca após tomar uma ducha demorada. Era a moça mais cheirosa daquela vila. Ficávamos horas grudados assistindo a TV e é claro, trocando deliciosos beijos. Até hoje somos assim, um apaixonado pelo outro, mas as circunstâncias da vida estão nos afastando a cada dia. Eu não posso perdê-la. Não consigo imaginar a minha vida sem a minha Marlene, minha cheirosa. Preciso prender logo o maldito do Mão Negra antes que ele destrua de vez o meu casamento.
Por ser ainda muito cedo a cidade que é considerada a mais movimentada do país se encontrava numa calmaria onde era possível ouvir ecos dos latidos dos cães do outro lado do bairro. Segundo o localizador, o Mão Negra havia estado numa das ruas mais perigosas daquela região. Antes de descer do veículo verifiquei minha arma. Estava tudo ok. Desci e percebi o quanto o estado havia abandonado aquele lado da cidade. A rua parecia ter sido bombardeada tamanho era o número de buracos ali. Alguns até com entulhos jogados pelos próprios moradores na vã tentativa de amenizar a situação. Celso Amorim deu-me ordens para que o aguardasse, mas sabe como são as coisas não é. Tenho a lei circulando nas veias, e além do mais ele demorou muito, o dia todo praticamente. Segundo ele, surgiram outros assuntos que eram de sua alçada. Caminhei com minha arma em punho e driblando os buracos. Passei por um monte de sacos e uma caçamba que transbordava de lixo. Uma voz pastosa me fez saltar.
— Passeando uma hora dessa, coroa?
— Merda! – girei nos calcanhares. – polícia fique parado.
De dentro da caçamba saiu um sujeito magro, mal vestido, mal cheiroso e com pouquíssimos dentes sadios.
— Opa, eu não fiz nada de errado não, autoridade. Eu só queria saber se o senhor tem fogo. – mostrou metade de um cigarro amassado.
— Não, eu não fumo. – menti e abaixei a arma. 
Dei as costas para o mendigo e retomei minha caminhada. Mais uma vez o sujeito fez meu coração disparar.
— Tá afim de comprar um celular?
— Não! – respondi ainda andando.
— Um sujeito me acertou com ele, mas o aparelho parece que foi atropelado por um caminhão.
Liguei meu alerta. Virei-me e lá estava o morador de rua segurando o telefone com a tela toda trincada.
— Você viu o cara, viu para onde ele foi?
O sujeito coçou algumas vezes a cabeça e a barba antes de me responder. Eu já estava irritado.
— Ele não é estranho. Raramente ele sai de casa e quando o faz, faz sempre a noite.
As viaturas chegaram jogando seus fachos de luz dos faróis iluminando nossos corpos. Só agora pude ver o quanto o sujeito era desnutrido.
— Você sabe onde é a casa dele?
— Aquela. – apontou para uma verde claro com muros médios e portão de madeira.
Amorim parou bem próximo de nós dois. Sua expressão não era nada boa.
— Resolveu parar e fazer uma caridade, cadê o Mão Negra?
Eu também estava de saco cheio do Amorim, as vezes penso em meter uma bala na cara dele.
— Aquele é o esconderijo dele. – tomei o celular das mãos do mendigo. – esse era o celular que estava com o localizador ativado. Provavelmente ele sacou isso e destruiu o aparelho.
— Sacanagem! – abriu o paletó e colocou as mãos na cintura. – Atenção pessoal, vasculhem aquela casa. Venha comigo J.A
Andamos até a outra ponta da rua, numa esquina de onde era possível ver os primeiros brilhos do sol despontando do outro lado da cidade. Lindo visual. Celso guardou sua arma no coldre por dentro do blazer.
— Por hoje chega.
— O que? – franzi a testa.
— João, estamos cansados, você está cansado. Vamos para casa. Vou marcar uma reunião no próximo plantão.
— Mas chefe, Manuel Clemente pode estar por perto. 
— Mão Negra não está mais aqui, aonde quer que ele esteja agora, ele sabe que estamos aqui. Vá para casa J.A. é uma ordem. – bateu em meu peito.
Eu tive que acatar suas ordens. Era verdade! Amorim estava coberto de razão, eu me encontrava morto de cansado, com sono e não é pra menos. Já não sou aquele mesmo policial de vinte poucos anos que virava a noite atrás de vagabundo. Com a graça de nosso Senhor cheguei aos 53, mas confesso que meu corpo já não suporta mais tantas emoções.
Voltei com Celso para a frente da casa de Manuel onde o restante do nosso pessoal já o aguardava.
— Nada senhor. – informou um sargento.
— Positivo. Vamos embora.
Eu entrei em meu carro ainda tentando engolir as ordens do meu chefe. Me olhei no retrovisor e vi um homem acabado. Barba por fazer, bolsas se formando embaixo dos olhos e a cada dia que se passa minha calvície se torna mais acentuada. Complicado. Mas eu creio que envelhecer é pra quem pode e não pra quem quer, então vamos nessa.
Quando parei de me “admirar” no espelho só restará eu no local. Olhei para a casa do Mão Negra. Respirei fundo e desci, dane-se as ordens. Não sei porque cargas d'água Amorim não deixou ninguém de guarda e nem a isolou. Ele realmente deve ter tido um dia daqueles. Eu só agradeci por isso. Entrei na casa e simplesmente me surpreendi. Sem móveis, sem quadros, luz fraca e um cheiro horrível de comida estragada, além de ladrão é porco. Fui até o quarto e lá só havia um colchão de solteiro. Pois é, realmente o nosso querido Mão Negra manteve a regularidade. Sem pistas.
Revistei todos os cômodos da resistência, mas foi no banheiro que a minha sorte começou a mudar. Assim como a cozinha, o banheiro fedia bastante, meu estômago queria sair pela boca, mas eu precisava seguir com a busca. No local tudo estava em ordem; sabonete, papel higiênico, barbeador barato e...
— Quem procura acha.

Capítulo 4

Ladrão que é ladrão não fica por ai tomando trocados ou pegando celulares de transeuntes desprevenidos nas ruas. Se for para assaltar, correr risco de morte, que seja por algo grande, que valha a pena. Manuel Clemente é bom no que faz e nunca se arriscou por pouca coisa. O “trabalho” dessa noite foi como tomar doce da boca de criança. Fácil demais. As sete da manhã ele dorme tranquilamente em outro esconderijo, numa casa que fica exatamente no centro da cidade, num bairro onde ninguém sequer pode imaginar que o famoso Mão Negra possa estar. Sujeito esperto. Às nove ele acordou, tomou um banho ligeiro. Engoliu algumas torradas com café puro e saiu afim de se livrar dos bens materiais roubados no motel.
O lugar onde Manuel costuma negociar seus produtos fica num conjunto habitacional há algumas longas quadras de onde ele se encontra escondido. O lugar é perigoso e sujo conhecido como “A Teia”. Lá dentro existe um tipo de mercado negro onde até vidas humanas são negociadas. Mão Negra tocou duas vezes no portão de ferro. Do outro lado uma voz rouca soou aterrorizante.
— A senha!
— Não há senha. 
O portão foi aberto. Um sujeito negro, alto com cara de maluco surgiu o saudando.
— Ora, ora, se não é o Mão Negra. O que manda meu velho?
— Negócios. – Manuel não estava suportando o hálito podre do segurança.
— Ah tá. O chefe está lá dentro. Boa sorte. 
O tal chefe é um senhor de no mínimo 70 anos que não consegue se locomover sem o auxílio de sua inseparável bengala. Ele mesmo a fez e dizem que nela há poderes mágicos.
— Poderoso Rufino. – saudou Mão Negra. 
— Mão Negra. Vamos entrando. O que tem pra mim?
A sala é escura, abafada, suja e fede a urina de rato.
— Celulares, relógios e joias. 
— Deixe-me ver. – pegou seus óculos de grau fortíssimo. Manuel colocou a bolsa em cima da mesa e a abriu. – hum, beleza. Quanto quer por isso?
— Vinte mil. 
Rufino tossiu. Uma tosse típica de idoso encatarrado.
— Acho que não. Que tal cinco?
Mão Negra arqueou as sobrancelhas e olhou para a bengala mágica.
— Sete?
Rufino o encarrou com sua expressão fantasmagórica por alguns segundos. Pegou a bengala e a mostrou para o ladrão. 
— Ela está mandando você pegar os cinco e cair fora daqui.
Tá amarrado!
— Negócio fechado. 

Capítulo 5

Ao despertar antes mesmo do horário habitual, Marlene deu uma rápida olhada para o lado direito da cama e não viu seu marido. Ao se dar conta de que havia mais uma vez dormido sozinha, a esposa de J.A pensou em pegar o celular e descarregar toda sua fúria sobre ele, mas hesitou. João Antônio pode ser qualquer coisa, mas nunca foi um mau marido. “Uma mulher sábia edifica sua casa e a tola a destrói com suas mãos” foi o que ela aprendeu lendo os sagrados textos bíblicos. Marlene pegou o celular sim, mas não para atear mais gasolina na fogueira.
— Oi, querida?
— Oi. Como vão as coisas?
— Acho que dessa vez eu consigo pôr as mãos no desgraçado.
— Ótimo. Você é o meu herói. Vá pegá-lo, por mim.
— Deixa comigo, princesa.
— Eu te amo. – um nó se formou em sua garganta.
— Também te amo querida.  
*
Estou velho, meio barrigudo, mas nunca cansado. Confesso que o sono de uma madrugada inteira sem dormir já começara a me debilitar, mas eu precisava manter o ritmo. O meu próximo plantão seria dali a vinte quatro horas, tempo o suficiente para que o Mão Negra conseguisse escapar. Eu não poderia esperar. Eu estava motivado, minha mulher me colocou outra vez em combate. Liguei sem receios para Amorim.
— Celso Amorim falando.
— Fala chefe! Encontrei uma parada importante no esconderijo do Mão Negra.
— O que, como assim, você ainda está aí?
Engoli seco.
— Me perdoe por desobedecer suas ordens, chefe. Mas, eu acho que estamos perto de pegar o cara.
Eu pude ouvir a respiração do delegado se tornar ofegante.
— Depois conversamos sobre isso. Diz o que achou?
— Mão Negra segue uma linha de pontos a serem atacados e eu tenho quase certeza que sei onde será o próximo ponto.
— Segue...
— Conhece a Tempo dos Lírios?
— Sim, a maior e mais cara loja de produtos de higiene pessoal da cidade.
— Isso mesmo. Esse é o próximo ponto a ser roubado. 
— Pelo amor de Deus, J.A, como você sabe disso?
— Ele esteve lá e ainda fez uma pequena compra. 
Nesse momento eu olhava para o pequeno frasco de sabonete líquido, produto exclusivo da tal loja que coloquei em cima do painel do meu carro.
— Certo! Me encontre em uma hora lá no departamento.
*
O ser humano nunca está satisfeito com nada, quanto mais tem, mais quer. Os quinze mil reais que pegou do motel ainda não foi o bastante e por isso Manuel Clemente já se prepara para o próximo “trabalho”. Mas ele também sabe que a polícia anda atrás dele, o Mão Negra se tornou uma figura carimbada em toda região e isso é péssimo. Ser um criminoso procurado é viver cada dia entre dois caminhos: prisão ou morte. Nenhuma das duas lhe agrada. Mão Negra — segundo ele próprio, nasceu para ser livre, nasceu para viver, então que seja assim. Ao trabalho. 
*
Eu aproveitei esse intervalo de uma hora dada por Amorim para passar em casa e beijar minha mulher. Ela me recebeu surpresa. Marlene não esperava me ver ali. Nos beijamos na porta da cozinha durante um bom tempo, me senti um garoto apaixonado abraçado a menina amada da escola. Marlene fez café, pão fresco e ovos mexidos. Comemos e conversamos bastante. Ela estava linda, um doce de pessoa como sempre foi.
— Que tal quinze dias no Sul? – sugeri. Ela não acreditou.
— Tá falando sério?
— Sim! Minha aposentadoria está pertinho e para comemorar, que tal quinze dias fora dessa cidade, sem Amorim e é claro, sem Mão Negra?
— Ai amor, acho ótimo. 
Ela me beijou outra vez. 
— Já pode ir fazendo as malas.
— É pra já. 
*
Entrei na sala do chefe Amorim e o mesmo demonstrava um cansaço quase palpável. A vida do meu delegado também não tem sido nada fácil. Ele divorciou-se há dois anos e nesse tempo conheceu uma mulher a qual faz de sua existência um inferno. Celso nunca foi de verdade apaixonado por ela, tudo o que ele queria era curtição e causar ciúmes na ex. Pobre coitado.
Na sala já haviam cinco outros agentes aguardando o início da reunião. Ao me ver, Amorim não esboçou qualquer expressão. 
— Pessoal, é o seguinte; o Mão Negra vai atacar novamente e o nosso colega J.A sabe aonde será. Temos uma chance e eu a quero aproveitar. Já estou de saco cheio dessa história. Por isso vamos montar guarda disfarçada no local e pegar o safado. É simples. 
— Terá que ser uma operação limpa, ninguém precisa sair ferido. – falei.
— Exatamente. – bateu palmas. — Valeu pessoal. Dispensados. Menos você, João Antônio. 
Nessa hora eu perdi o chão. Assim que se viu sozinho comigo, Amorim ocupou uma das cadeiras e desabafou.
— Sabe porque não deixei ninguém guardando o esconderijo do Mão Negra? Porque eu sabia que você não cumpriria minhas ordens de ir embora. Você é um baita profissional, João, e pode não parecer, mas eu o admiro muito. Sabia que você entraria naquele lugar e encontraria algo que os outros não seriam capazes de encontrar. J.A, o melhor investigador que já trabalhei. Fará muita falta, pode acreditar.
Eu queria chorar, mas me segurei.
— Obrigado, chefe. – apertamos as mãos. 
— Vá lá prender o Mão Negra.  

Final

No início da profissão eu duvidava da minha capacidade. Nunca imaginei que me tornaria o policial que sou hoje. Eu sei que, assim como eu, existem milhares, mas o que estou dizendo é que, quando ingressei na polícia civil, minhas pretensões não eram tão ousadas assim. Hoje estou aqui, perto de me aposentar, satisfeito com o que fiz até agora e com a prisão do miserável do Mão Negra isso será selado de vez. Fizemos o que Amorim mandou. Montamos guarda secreta nos arredores da loja de produtos de higiene pessoal e nos revestimos de paciência. Um bom policial precisa saber esperar. Esse plano tinha que dar certo.
*
Manuel Clemente verificou se não havia esquecido de nada. Por via das dúvidas ele resolveu tirar tudo de dentro da bolsa e conferir item por item. O principal se encontrava em sua cintura, uma pistola calibre 45. Ele fechou a bolsa. Ajustou o relógio e saiu. No bolso do casaco a folha de A4 com uma mão xerocada, isso sim chega a ser mais importante que sua própria arma. Manuel faz questão que todos saibam que foi ele quem cometeu tal crime. O Mão Negra precisa assinar seu feito. Ele deixou o apartamento de um prédio caindo aos pedaços e sem elevador com a noite saudando seus admiradores.
*
Eu sabia que demoraria, por isso fui prevenido. Eu não estava sozinho, no local onde estávamos havia mais dois comigo. A fome bateu forte, então decidi sacar meu sanduíche de queijo mussarela sob os olhares dos meus companheiros.
— Eu só tenho este. – os alertei.
— Quer dizer que vamos ficar aqui dentro desse carro esperando até sabe-se lá quando e com fome? – disse Ramiro.
— E por falar em esperar. – falou o Silva. – O Mão Negra virá hoje mesmo?
— Hoje eu não sei, mas essa loja é o próximo alvo dele, disso eu tenho certeza. – mordi o lanche.
— Por quanto tempo essa operação deve seguir? – perguntou Ramiro.
— Até sairmos com o Mão Negra algemado. Nós temos uma chance e eu não vou desperdiçá-la, mas se vocês quiserem desistir é só falar que eu ligo para o delegado.
Ouve-se um silêncio dentro do veículo. 
— Legal! Agora foquem na missão.
Ele apareceria, eu tinha certeza. Não sei o que, mas algo me dizia que Mão Negra não passaria daquela noite. Eu estava no banco do carona olhando para fora, de uma certa forma eu admirava a noite. Sempre gostei da paisagem noturna e nunca tentei entender, mas eu sempre adorei. Ele virá. Celso Amorim chamou no rádio.
— Como vão as coisas por ai?
— Estão indo. – respondi.
— Se quiser eu posso trocar o turno.
— Eu vou ficar. – respondi por mim. Ninguém me tiraria da li.
Ramiro e Silva disseram que também ficariam até o amanhecer se caso precisasse.
— Bom trabalho, rapazes.
Voltamos ao silêncio. Ramiro bocejava o tempo todo enquanto que Silva enviava mensagens cretinas para sua namorada pelo Whatsapp. Por volta das duas da manhã vi uma movimentação estranha perto da loja. Era ele. Mão Negra. Chamei atenção dos meus companheiros dentro do carro e também dos que estavam fora.
— Atenção rapazes, o nosso alvo chegou. Ao meu comando somente. – disse eu ao rádio. 
Lá estava ele, o ladrão. Calça jeans, botas, casaco cinza e uma bolsa de viagem atravessada no tronco. Mão Negra. O sujeito era audacioso, mal se preocupou com as câmeras ou se havia seguranças dentro ou ao redor da loja. Rapidamente ele sacou uma ferramenta e já a introduzindo na fechadura. Meu sangue ferveu nessa hora. Quanta sensação de impunidade, que certeza é essa de que nunca será pego? Essa farra terá fim hoje e agora. Foi o que pensei.
— Atenção tropa, me dêem cobertura, vou descer.
Ramiro me segurou no ombro direito.
— Tenha cuidado!
Desci do carro. Caminhei com minha arma em punho e com o coração batendo na garganta. Ele ainda tentava abrir o portão de ferro quando falei.
— Quer uma mãozinha, amigo.
*
Aconteceu como se eu tivesse visto tudo em câmera lenta. Mão Negra girou o corpo sacando sua arma. Eu apontei e atirei ao mesmo tempo que ele. Senti medo de morrer, de deixar minha Marlene viúva, da nossa segunda lua de mel no Sul do país. Manuel Clemente não poderia se safar dessa vez. Eu senti o calor da bala passando a centímetros da minha cabeça e vi o Mão Negra cair batendo as costas no portão de ferro segurando o ferimento no ombro esquerdo. Ele me xingava horrores.
— Você está preso, Mão Negra. – eu disse com meus companheiros correndo em meu auxílio. 
— Mas que merda foi essa J.A? Você está bem? – gritou Silva.
Eu não respondi, apenas permaneci ali parado assistindo o maldito ser algemado. Missão cumprida.

Tempos depois, em meu último dia como agente da polícia civil, eu terminava de empacotar minhas coisas quando Silva chegou em minha mesa correndo. 
— Amorim solicitou sua presença na sala dele.
— Putz!
Deixei a caixa com meus pertences em cima da mesa e fui. Silva foi atrás de mim me dando apoio psicológico. Abri a porta do gabinete do meu chefe raivoso e vi todos do departamento aglomerados lá dentro.
— Parabéns, grande J.A. – berrou Celso. 
Ruborizei e não segurei a emoção. Os aplausos ecoaram naqueles poucos metros quadrados. Amorim foi para trás de sua mesa. Abriu a gaveta e tirou de lá um quadro.
— Mandamos fazer pra você. 
Amorim passou as minhas mãos a folha de A4 com a mão negra emoldurada. Muitos não entenderão, afinal, o que o cartão de visitas de um ladrão tão perigoso e que quase destruiu o meu casamento faz pendurado na sala de minha casa? Pois é, mas para mim significa muito. Depois desse dia fui pra casa, para os braços da minha Marlene e como o prometido, fomos para o Sul curtir nossa segunda e mais longa lua de mel. FIM.


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