segunda-feira, 27 de maio de 2024

A Bíblia do Assassino | Parte 2 | Capítulo final

 



A Bíblia do Assassino 

Capítulo final 

Parte 2 



 O relacionamento entre Ana Paula e Carlos Henrique sempre foi um barril de pólvora. É de se impressionar o tempo que durou o namoro. Ambas são pessoas dificílimas de se lidar. Carlos, um sujeito impetuoso e mimado. Ana Paula, uma chata de galocha. Ninguém apostava nesse namoro. Ana e Carlos provaram, mesmo aos trancos e barrancos que eles estavam errados, deixando claro que os totalmente opostos se atraem.

  Assim que bateu seus olhos em Carlos, Ana Paula teve a confirmação de que o empresário a satisfaria em todos os sentidos — em todos mesmo. Alto, corpo atlético, saúde em perfeito estado, ela imaginou ter encontrado uma verdadeira máquina de fazer amor. Com o passar dos dias e meses e vendo que o namorado não tomava iniciativa de arrastá-la para cama, Ana praticamente o atacou dentro do carro. Naquela noite fria e chuvosa, finalmente Ana Paula pode sentir a pegada de seu homem. Não foi o esperado, mas pelo menos serviu para diminuir sua temperatura.

  O corpo de Carlos foi sepultado na parte da manhã. Todos os amigos, sócios, familiares e conhecidos se fizeram presentes e pediram por justiça. De repente, o cemitério que na verdade mais parece um parque se transformou em uma praça onde somente vozes ecoavam por entre o arvoredo e sepulturas. Ana Paula voltou para o seu lar ainda mais destruída, ainda mais saudosa. Ela pegou o celular do falecido a fim de rever alguns lindos e breves momentos juntos, mesmo que por fotos. Tudo estava indo bem até que uma mensagem no WhatsApp do dia de sua morte a fez saltar da cama.

  — Mas, que droga é essa?

*


  Bem diferente de sua cabeça o café esfriou, e mesmo sabendo disso, Nato Pinheiro continua a girá-lo com a colher dentro de sua caneca de louça. O que eu fiz para merecer tantas tempestades em minha existência? A cada segundo sua mente é invadida tanto por questões familiares quanto profissionais. Jorge Gama voltava da recepção conferindo alguns documentos organizados em uma pasta, quando se deparou com a imagem de Renato parado perto da mesa onde fica a cafeteira e os potes com biscoitos.

  — Hope! — o chamou antes de entrar em sua sala.

  — Chefe, Gama.

  — Como estamos?

  O café foi provado e em seguida dispensado.

  — Avançando.

  — E a conversa com Tiago Garcia, ele soltou alguma coisa?

   — Tiago Garcia pode ser qualquer coisa, mas maluco ele não é, então…

  — Uma pomba e uma cruz. Que relação pode haver nisso? Uma seita satânica, talvez?

  — Seita sim. Satânica não, talvez.

  Ana Paula na companhia de uma agente adentrou ao corredor deixando ambos os policiais atônitos.

  — Senhora Ana Paula? — disse Jorge.

  — Quero que dêem uma olhada nisto. — entregou o celular na mão de Pinheiro.

*


  Diferente das outras vezes, Arthur e Thais não estão escondidos entre as paredes daquela construção para se curtirem. Hoje o assunto é de extrema importância e caso se confirme o que ambos não querem, o que era para ser um simples namorico entre dois adolescentes, se tornará um pesadelo. Enquanto Thais, em outro cômodo realiza o processo do teste, Arthur sente suas vísceras se contorcerem dentro dele. Nada a ver um bebê agora.

  O choro da garota ecoou nos ouvidos dele e tudo o que pensou foi: criança, fraldas, noites em claro, parar de estudar e trabalhar. Não havia outro jeito, o fim do mundo estava diante dos seus olhos segurando o teste.

  — E aí? — Arthur tinha os olhos arregalados.

  — Teremos que falar para os nossos pais que, netos, ainda não. — Jogou o teste para Arthur.

  — Eu não estou acreditando. Negativo?

  Thais voltou a chorar.

  — Nossa, que sufoco. — a abraçou. — tomaremos mais cuidado das próximas vezes.

  — Das próximas vezes? Nada disso. Quero que guarde isso de recordação. — apontou para o objeto na mão de Arthur. — Ficaremos só no beijinho mesmo.

  — Beijinhos? É melhor do que nada.

*


 A minha alma está inquieta e meu espírito perturbado. Eu não sei o que fazer. Quando acordei pela manhã e pude vislumbrar o mundo, ele simplesmente deu as costas pra mim. Qual a razão disso tudo? Na verdade eu sei o que vai acontecer, só não esperava que seria tão cedo.

  O casal atendido por Felipe Corrêa analisava com cuidado cada cláusula do contrato do aluguel de um Tiggor vermelho quando dois homens se aproximaram juntamente com o vice-presidente da empresa.

  — Olá, senhores. Devo informá-los que quem irá assumir a partir daqui é o nosso gerente. O vendedor Felipe precisa resolver algo.

  O olhar de Felipe para Nato já dizia tudo. Pânico. 

  Nato, Felipe e o vice-presidente deixaram o casal sob os cuidados do gerente e se locomoveram até uma sala à parte. O jovem vendedor tinha os cabelos empapados na parte de trás da cabeça devido ao suor excessivo.

 — Muito bem, senhor Felipe Corrêa, certo?

  — Certo! — engoliu seco.

  — O senhor esteve no apartamento do Carlos Henrique no dia de seu assassinato?

  Felipe olhou para o seu superior.

  — Não sei do que está falando…

 — Veja bem, Felipe, que tal começar a falar logo. As provas contra você são bem convincentes.

  — Provas contra mim? — abaixou a cabeça.

  — É! O Carlos lhe convidou para assistir a partida de futebol no apartamento dele um dia antes e vocês saíram daqui juntos. Verdade?

  Silêncio. O vice-presidente estava perplexo com o desenrolar da situação.

  — Vocês chegaram ao apartamento juntos, e pouco tempo depois o senhor, vestido com as roupas da namorada do Carlos, evadiu-se do lugar achando que enganaria a polícia. Agora a questão é: porque o matou?

  Às primeiras gotas das lágrimas já molhavam o piso. Muito sensibilizado, o vice-presidente tomou a palavra.

  — Felipe. O detetive Renato já sabe de tudo, então, acaba logo com esse sofrimento.

  Não suportando mais segurar seu emocional o vendedor caiu num pranto onde suas pernas fraquejaram.

  — O senhor Carlos Henrique me assediou. Ele fez isso algumas vezes aqui na empresa também e eu nunca lhe dei confiança.

  — Meu Deus, como assim? O Carlos Henrique… — o vice presidente se apoiou na mesa.

  — Ele era bissexual, vivia me cantando.

 — E por que aceitou ir para o apartamento dele? — Nato pôs às mãos nos bolsos.

  — Ele me enganou. Ninguém apareceu lá. Então…

  Silêncio.

  — Ele me assediou de novo. Fez isso várias vezes. Meu negócio é mulher. Ele insistiu, falou até que me pagaria, que me daria aumento e…

  — Vocês chegaram às vias de fato? — Nato tirou as mãos dos bolsos e cruzou os braços.

  — Sim. Eu fiquei furioso e me armei com uma faca e… cortei a garganta dele. Quando eu saí do prédio joguei a faca fora.

  — Este mundo está perdido mesmo. — exclamou o executivo.

  O lado profissional de Renato permitiu que o lado humano lhe sobressaísse ao ver tamanha angústia e arrependimento escoando pelos poros daquele jovem de boa aparência e postura exemplar.

  — O senhor pode nos deixar a sós? — se dirigiu ao vice.

  Assim que a porta foi fechada, Nato pigarreou aguardando o restabelecimento do emocional de Felipe.

  — Me diga só mais uma coisa, Felipe…

 — Qual a razão da cruz que desenhei na testa do Carlos. É isso? — se antecipou Felipe.

  — Você conhece Tiago Garcia?

  De repente, em sinal de desespero, Felipe pôs as duas mãos na cabeça e sua respiração se tornou pesada.

 — Jesus, quando isso vai acabar. — gritou.

  — Felipe, calma. — pôs a mão em seu ombro. — que ligação tem isso com Tiago…

  — Eu falei. Eu avisei que daria merda. — seguia com as mãos na cabeça.

  — Falou o quê, Felipe? Por favor, fale comigo. Eu posso te ajudar.

  — Ele vai vir. Ele vai vir pra cima de mim. Não, não, não. — se encolheu batendo os pés no chão.

  O vice presidente e mais dois funcionários invadiram a sala.

  — Detetive Pinheiro, o que aconteceu?

 — Ele não está bem. Chamem uma ambulância.

*


  Não foi nada fácil. Diga-se de passagem, foi uma semana bem trabalhosa, estressante e desgastante. Chegou um momento em que Nato achou que sucumbiria ao cansaço, mas a vontade de vencer foi ainda maior. Para começar, Arthur e Thais estiveram frente a frente com Regina e ele e revelaram que tudo não passara de um grande susto. Tanto Nato quanto Regina puderam respirar aliviados, mas antes disso um sermão lhes foi aplicado.

  Felipe Corrêa passou dois dias internado sem poder receber visitas e assim que recebeu alta chefe Jorge Gama e ele conversaram durante horas e o jovem nada falou de muita importância, apenas disse que sim, conhecia Tiago Garcia e que ele viria com fúria.

  — Quem será ele? — pensou alto Nato.

  Uma pomba e uma cruz. Sofia Cury e Carlos Henrique. Duas vidas que se foram por mãos de loucos. Loucos mesmo? O que Tiago e Felipe tanto temem? Melhor dizendo, de quem eles tem tanto medo?

  Agora que a correria do dia a dia de um policial deu uma trégua, chegou o momento dele resolver questões pessoais. Renato deu uma de investigador particular e descobriu aonde Júnia e Regina se encontrariam e vinte minutos antes ele entrou e se acomodou dentro daquela casa noturna escura feito uma caverna. Pediu um guaraná com gelo e laranja e aguardou. Júnia Lemos foi a primeira a chegar. Cinco minutos depois Regina. Linda e maravilhosa. De cara elas trocaram um beijo tão suculento deixando o agente sem fôlego. Em seguida Júnia pegou o menu. Entre risos, carícias e longos beijos elas fizeram o pedido.

  — Por enquanto é só isso, senhoras? — perguntou o garçom.

  — Só, meu anjo. — respondeu Regina bastante animada.

  Pouco a pouco a casa foi enchendo. Gente que Nato nunca viu na vida empesteiaram o estabelecimento com cheiros, conversas altas e gargalhadas irritantes. Regina, você é uma mulher casada, mãe de filho, o que está fazendo num lugar como este? Pensou.

  Regina alisava as coxas grossas de Júnia por debaixo da mesa e a beijava quando o mesmo garçom chegou com os pedidos. Frutos do mar, cervejas e uma garrafa de vinho tinto.

  — Meu amor, não pedimos vinho. — disse Regina acariciando os cachos de sua amiga.

  — Eu sei. Foi o senhor ali, da mesa oito quem pediu para as senhores. Bom apetite.

  Regina e Júnia se olharam sorrindo.

  — Que tal uma festinha a três logo mais? — sugeriu Regina.

  Com a intenção de agradecer, Regina olhou na direção da mesa oito e seus olhos contemplaram Renato, seu marido, sentado erguendo seu copo de guaraná. Júnia também olhou e o viu. De repente, do ponto de vista de Regina, todos os outros clientes desapareceram da boate, permanecendo somente os dois. Era o fim.

  Nato voltava para casa e por incrível que pareça ele estava aliviado. Dentro do carro o som do Indie rock do The Smith ajudava a deixar aquela noite enluarada ainda mais leve. Ao parar no semáforo ele abriu o porta-luvas e pegou o pedaço de papel. Pegou também o celular e digitou rapidamente os dígitos escritos ali. Aguardou e ao terceiro toque a voz de Joicinha invadiu seus tímpanos.

  — Oi, Joicinha. Sou eu, detetive Nato.

*


  Tiago tentava a duras penas controlar o tremor das mãos e das pernas. Sem sucesso. Ele sabia que, quando a porta da sala de visitas fosse aberta ele estaria cara a cara com ele. Não muito tempo depois aconteceu. A porta foi aberta e ele entrou. O mesmo rosto. O mesmo jeito de andar. O mesmo cheiro insuportável de perfume amadeirado.

  — Como vai?

  O mesmo tom imponente de voz.

  — Nada bem. — respondeu Tiago com os olhos esbugalhados.

  — Eu disse que não seria uma boa ideia contar com o Felipe. — continuava de pé.

  — Pois é. — Abaixou a cabeça olhando para o seu par de tênis. — E agora?

  — E agora? Vamos ver. Vou limpar a merda deixada por vocês dois. O que acha?

  — Só me resta lhe pedir desculpas. — voz embargada.

  — Temos que seguir com o pacto. Pare de chorar e me fale o nome do verme que te colocou aqui.

  — Nato. Nato Pinheiro.

  — Ele tem família, naturalmente.

  — Sim.

  Ele pressionou o botão ao lado da porta a destravando.

  — Vai mesmo limpar a nossa merda?

  — O que você acha.

  Sumiu da vista de Tiago.


Fim da segunda parte.


  



  


 

terça-feira, 21 de maio de 2024

A Bíblia do Assassino | Parte 2 | Capítulo 3



 A Bíblia do Assassino 

Capítulo 3 

Parte 2 


  A CHD aluguel de veículos cresceu muito e com isso adquiriu relevância financeira. Só em Porto Celeste ela possui mais de quinze unidades e dias antes de ser assassinado, Carlos Henrique Dias havia se reunido com seus conselheiros a fim de chegarem a uma conclusão quanto a possibilidade de expandir o negócio para o norte e nordeste do país. Tudo ficara acertado e ajustado para que no próximo semestre a CHD estivesse presente nestas regiões do país.

  Com a morte brutal de seu dono, a CHD encontra-se na direção de seu vice-presidente que conta com a experiência de seus conselheiros. Nato Pinheiro foi recebido pelo próprio vice-presidente que o levou para conhecer as dependências da empresa. Nato estava estarrecido com as instalações do lugar.

  — Carlos Henrique poderia ser o que fosse: Chato, exigente, mas tudo isso faz parte do contexto. Porém dê só uma olhada ao seu redor.

  — Pois é. Eu visitei o site e vi as fotos. Percebi também que é algo padrão, todas as lojas são iguais. Difícil isso não é?

 — E não só neste quesito. Carlos Henrique fazia questão de treinar seus gestores pelo menos uma vez por mês.

  No pátio coberto onde estão armazenados os automóveis, Nato foi mais uma vez nocauteado pela qualidade e organização.

  — E o faturamento anual? — Pinheiro enterrou as mãos nos bolsos da calça.

  — Varia entre dois milhões a três e meio.

  Nato assoviou.

  — Me diz uma coisa, você o conhecia bem, ele tinha um bom relacionamento com os funcionários, sabe da existência de algum desafeto?

  O vice-presidente sorriu e abaixou a cabeça.

  — Apesar da chatice, Carlos Henrique era extremamente profissional, sabia separar as coisas. Você pode perguntar a qualquer um aqui. Se ele tinha desafetos? Talvez, mas não ao ponto de lhe cortar a garganta. — sua fala era carregada de emoção. — eu quero justiça, detetive Pinheiro. Carlos Henrique não merecia isso.

 — Ninguém merece. Só mais uma pergunta. O Carlos pertencia a alguma religião?

  — O Carlos? — riu. — Carlos Henrique era o católico mais mundano que já vi, nunca foi a uma missão sequer. Pode perguntar para aquele vendedor ali. Eles eram bem chegados. — o chamou.

  Meio receoso o jovem vendedor se aproximou mexendo bastante as mãos.

  — Felipe, este é o detetive Pinheiro, veio saber um pouco mais sobre o Carlos. Nós estávamos falando sobre ele ser o católico mais mundano que já existiu, não é mesmo?

  — Prazer, sou Felipe Corrêa. — estendeu a sua mão fria para o policial. — É verdade. O senhor Carlos Henrique era tudo, menos religioso.

 — Pelo visto vocês eram bastante chegados mesmo. Achei legal essa relação patrão e funcionário.

  Silêncio.

  — É! Infelizmente alguém destruiu um futuro promissor. — declarou o vice-presidente. — Desejo sucesso em sua investigação, Pinheiro.

  — Obrigado. Vamos nessa.

*


  Arthur precisou deixar a difícil tarefa de química para mais tarde assim que recebeu o telefonema de Thais o que é incomum. Normalmente ela lhe envia mensagem. Pelo tom de voz, sua namorada parecia apreensiva ou que havia chorado. Pedalando sem parar e com várias coisas se passando em sua mente, o único filho de Nato e Regina partiu para o ponto de encontro onde Thais já o aguardava.

  — Oi?

 — Oi! — Thais seguia navegando na internet pelo celular.

  — O que aconteceu?

  — O que vai acontecer seria a pergunta certa. Minha menstruação ainda não veio.

  Arthur deu de ombros.

  — Eu sabia que esse lance de transar sem camisinha daria merda.

 — E o que você tanto procura no telefone? — se aproximou.

  — O que você acha? Vou pedir um teste pra tirar logo essa droga de dúvida.

 — Fique calma, quanto mais ansiosa mais a menstruação atrasa.

  — Falou o expert em círculo menstrual.

  Arthur tomou o aparelho das mãos de Thais e depois a abraçou abafando seu choro.

  — Eu estou falando pra você se acalmar, tudo ficará resolvido. Não é o fim do mundo.

  — Arthur, nós só temos dezesseis anos, uma criança agora seria péssimo…

  — Eu sei, só que nós pagamos pra ver. Pode deixar, se você realmente estiver grávida eu me comprometo a ir lá e falar com seus pais.

  Thais limpou as lágrimas. Um homem de verdade!

*


  Nato Pinheiro começou como sendo um incômodo para Ana Paula Figueira. Mesmo sabendo que o mesmo só está no exercício de sua função, como dizia os mais antigos, o meu santo não bateu com o dele. Com o passar dos dias e os encontros sendo mais frequentes ela já o começa ver com outros olhos, prova disso foi ter aceitado voltar ao apartamento do falecido namorado.

  — Meu Deus, nunca pensei que sentiria isso aqui. — sentou-se na ponta do sofá.

  — Quer água?

  — Não, estou bem. Eu era e ainda sou apaixonada por ele.

  — Eu sinto muito. Prometo ser rápido.

  Nato aguardou que ela se recuperasse da onda de choro.

  — Qual o plano, detetive?

  — Se não era você no vídeo e se o que eu vi era um homem vestido de mulher, quero que veja se não há alguma roupa sua faltando.

  — Vai ser fácil. Eu nunca deixei mais do que três peças de roupa aqui. — correu até o quarto.

  Nato verificava outras coisas quando recebeu um telefonema de Fagundes.

  — Pode passar aqui ainda hoje, acho que chegamos a uma conclusão.

  O coração do policial gelou.

  — Ótimo! Assim que eu terminar aqui vou direto pra aí.

  — Meu querido, tenha a cabeça no lugar. Eu sei que é difícil, mas…

  — Valeu.

  Ana Paula voltou do quarto já alarmando.

  — Meu vestido azul, minhas sandálias e o meu chapéu de praia sumiram.

  — Você tem certeza? — voltou com o celular para dentro do bolso.

  — Absoluta.

  — Vamos sair daqui.

*


 Uma a uma e bem lentamente. Renato não estava acreditando no que seus olhos estavam vendo naquelas meia-dúzia de fotos.

  — Meu Jesus. — sussurrou.

  Arnaldo Fagundes nada falava, apenas observava as reações de seu cliente. Para um profissional do quilate de Fagundes deveria ser algo normal assistir ele ou ela vendo através de uma filmagem ou foto o princípio da destruição de um lar, mas não. Arnaldo sempre achou e foi educado de que com família não se brinca.

  — Se você quiser eu posso montar o flagrante, mas só se você quiser mesmo.

  — Vai acreditar se eu disser que não estou com raiva?

  Arnaldo assentiu.

  — Se eu fui trocado por outra mulher, significa que eu sou um bosta como homem.

  — Vai ver ela sempre foi lésbica. Isso acontece.

  Nato olhou para Fagundes e depois para as fotos. Ele não estava se sentindo bem, seu estômago necessitava urgente de um antiácido.

  — Não! Nada de flagrante. Às fotos já falam por si. Vamos acertar o restante do pagamento.

*


  Devido às náuseas, Nato não quis jantar, preferiu abrir uma lata de cerveja e ficar sentado na varanda olhando o movimento da rua. Regina limpava a mesa do jantar ajudada por Arthur.

  — Meu pai está bem?

  — Sei lá. Nem jantar ele quis. Depois eu converso com ele.

  Lua, estrelas, vento, que noite agradável, propícia para casais apaixonados se amarem. Nato queria chorar, mas se controlou. Arthur ocupou o banco a seu lado, permanecendo em silêncio durante alguns segundos.

  — Pai, posso conversar com o senhor?

 — Fala filhão. — bateu na perna do garoto.

  — Lembra da Thais?

  — Sim! E aí, já deu uns beijinhos nela? — tomou mais um gole.

 — Até mais do que isso, pai.

  Nato olhou na direção da cozinha, Regina seguia lavando as louças.

  — Como assim até mais do que beijos, Arthur? Não me diga que você já comeu essa guria?

  O estudante abaixou a cabeça.

  — Cara, eu espero que pelo menos vocês tenham se protegido…

  — Ela acha que está grávida.

  Nato olhou de novo e Regina já não se encontrava na cozinha.

  — Caraca, vocês só fazem merda. E agora, Arthur? Vocês ainda são adolescentes. Putz?

  Silêncio.

  — E o que você quer que eu faça? Quer que eu vá lá e converse com os pais dela? Você foi homem para transar, mas para assumir suas merdas chama o papai…

  — Calma, pai…

  — Calma o cacete. Não me peça calma.

  Regina chegou segurando outra lata de Heineken e a entregou a Nato.

  — O que está havendo aqui?

 — Esse irresponsável engravidou a namorada.

  Boquiaberta Regina olhou para o filho.

  — Eu falei que ela acha que está grávida. Não tem nada confirmado ainda.

  — A minha vontade é de quebrar a sua cara… — Nato vociferou.

  — Fica calmo, Renato…

  — Escute bem o que vou dizer. Se essa menina estiver realmente grávida, o senhor vai arrumar um trabalho e seguir estudando a noite, se vira. Assuma o B.O.

 — Pode deixar, pai. Eu já havia me prontificado a ir lá e conversar com os pais dela. — se levantou. — Boa noite.

  — Meu Deus, aonde foi que eu errei? — arremessou a lata contra o muro.

  Nato foi abraçado pelas costas por Regina e não esboçou reação. Não deveria, mas ele estava com nojo dela.

  — Com licença. — Nato se retirou.

*


  Ele pegou uma caneta e destacou do pequeno caderno metade da folha e com mãos trêmulas desenhou uma cruz. Apesar da dificuldade, até que não saiu mal. Eu não deveria estar com medo, mas estou. Ele ficou ali, sentado à meia luz com seus olhos soturnos fixos no desenho. Aonde eu estava com a cabeça quando aceitei tudo isso? A noite só estava começando e a sua vida parecia um trem sem freio. Tiago está pagando caro. Serei eu o próximo?