A Bíblia do Assassino
Capítulo final
Parte 2
O relacionamento entre Ana Paula e Carlos Henrique sempre foi um barril de pólvora. É de se impressionar o tempo que durou o namoro. Ambas são pessoas dificílimas de se lidar. Carlos, um sujeito impetuoso e mimado. Ana Paula, uma chata de galocha. Ninguém apostava nesse namoro. Ana e Carlos provaram, mesmo aos trancos e barrancos que eles estavam errados, deixando claro que os totalmente opostos se atraem.
Assim que bateu seus olhos em Carlos, Ana Paula teve a confirmação de que o empresário a satisfaria em todos os sentidos — em todos mesmo. Alto, corpo atlético, saúde em perfeito estado, ela imaginou ter encontrado uma verdadeira máquina de fazer amor. Com o passar dos dias e meses e vendo que o namorado não tomava iniciativa de arrastá-la para cama, Ana praticamente o atacou dentro do carro. Naquela noite fria e chuvosa, finalmente Ana Paula pode sentir a pegada de seu homem. Não foi o esperado, mas pelo menos serviu para diminuir sua temperatura.
O corpo de Carlos foi sepultado na parte da manhã. Todos os amigos, sócios, familiares e conhecidos se fizeram presentes e pediram por justiça. De repente, o cemitério que na verdade mais parece um parque se transformou em uma praça onde somente vozes ecoavam por entre o arvoredo e sepulturas. Ana Paula voltou para o seu lar ainda mais destruída, ainda mais saudosa. Ela pegou o celular do falecido a fim de rever alguns lindos e breves momentos juntos, mesmo que por fotos. Tudo estava indo bem até que uma mensagem no WhatsApp do dia de sua morte a fez saltar da cama.
— Mas, que droga é essa?
*
Bem diferente de sua cabeça o café esfriou, e mesmo sabendo disso, Nato Pinheiro continua a girá-lo com a colher dentro de sua caneca de louça. O que eu fiz para merecer tantas tempestades em minha existência? A cada segundo sua mente é invadida tanto por questões familiares quanto profissionais. Jorge Gama voltava da recepção conferindo alguns documentos organizados em uma pasta, quando se deparou com a imagem de Renato parado perto da mesa onde fica a cafeteira e os potes com biscoitos.
— Hope! — o chamou antes de entrar em sua sala.
— Chefe, Gama.
— Como estamos?
O café foi provado e em seguida dispensado.
— Avançando.
— E a conversa com Tiago Garcia, ele soltou alguma coisa?
— Tiago Garcia pode ser qualquer coisa, mas maluco ele não é, então…
— Uma pomba e uma cruz. Que relação pode haver nisso? Uma seita satânica, talvez?
— Seita sim. Satânica não, talvez.
Ana Paula na companhia de uma agente adentrou ao corredor deixando ambos os policiais atônitos.
— Senhora Ana Paula? — disse Jorge.
— Quero que dêem uma olhada nisto. — entregou o celular na mão de Pinheiro.
*
Diferente das outras vezes, Arthur e Thais não estão escondidos entre as paredes daquela construção para se curtirem. Hoje o assunto é de extrema importância e caso se confirme o que ambos não querem, o que era para ser um simples namorico entre dois adolescentes, se tornará um pesadelo. Enquanto Thais, em outro cômodo realiza o processo do teste, Arthur sente suas vísceras se contorcerem dentro dele. Nada a ver um bebê agora.
O choro da garota ecoou nos ouvidos dele e tudo o que pensou foi: criança, fraldas, noites em claro, parar de estudar e trabalhar. Não havia outro jeito, o fim do mundo estava diante dos seus olhos segurando o teste.
— E aí? — Arthur tinha os olhos arregalados.
— Teremos que falar para os nossos pais que, netos, ainda não. — Jogou o teste para Arthur.
— Eu não estou acreditando. Negativo?
Thais voltou a chorar.
— Nossa, que sufoco. — a abraçou. — tomaremos mais cuidado das próximas vezes.
— Das próximas vezes? Nada disso. Quero que guarde isso de recordação. — apontou para o objeto na mão de Arthur. — Ficaremos só no beijinho mesmo.
— Beijinhos? É melhor do que nada.
*
A minha alma está inquieta e meu espírito perturbado. Eu não sei o que fazer. Quando acordei pela manhã e pude vislumbrar o mundo, ele simplesmente deu as costas pra mim. Qual a razão disso tudo? Na verdade eu sei o que vai acontecer, só não esperava que seria tão cedo.
O casal atendido por Felipe Corrêa analisava com cuidado cada cláusula do contrato do aluguel de um Tiggor vermelho quando dois homens se aproximaram juntamente com o vice-presidente da empresa.
— Olá, senhores. Devo informá-los que quem irá assumir a partir daqui é o nosso gerente. O vendedor Felipe precisa resolver algo.
O olhar de Felipe para Nato já dizia tudo. Pânico.
Nato, Felipe e o vice-presidente deixaram o casal sob os cuidados do gerente e se locomoveram até uma sala à parte. O jovem vendedor tinha os cabelos empapados na parte de trás da cabeça devido ao suor excessivo.
— Muito bem, senhor Felipe Corrêa, certo?
— Certo! — engoliu seco.
— O senhor esteve no apartamento do Carlos Henrique no dia de seu assassinato?
Felipe olhou para o seu superior.
— Não sei do que está falando…
— Veja bem, Felipe, que tal começar a falar logo. As provas contra você são bem convincentes.
— Provas contra mim? — abaixou a cabeça.
— É! O Carlos lhe convidou para assistir a partida de futebol no apartamento dele um dia antes e vocês saíram daqui juntos. Verdade?
Silêncio. O vice-presidente estava perplexo com o desenrolar da situação.
— Vocês chegaram ao apartamento juntos, e pouco tempo depois o senhor, vestido com as roupas da namorada do Carlos, evadiu-se do lugar achando que enganaria a polícia. Agora a questão é: porque o matou?
Às primeiras gotas das lágrimas já molhavam o piso. Muito sensibilizado, o vice-presidente tomou a palavra.
— Felipe. O detetive Renato já sabe de tudo, então, acaba logo com esse sofrimento.
Não suportando mais segurar seu emocional o vendedor caiu num pranto onde suas pernas fraquejaram.
— O senhor Carlos Henrique me assediou. Ele fez isso algumas vezes aqui na empresa também e eu nunca lhe dei confiança.
— Meu Deus, como assim? O Carlos Henrique… — o vice presidente se apoiou na mesa.
— Ele era bissexual, vivia me cantando.
— E por que aceitou ir para o apartamento dele? — Nato pôs às mãos nos bolsos.
— Ele me enganou. Ninguém apareceu lá. Então…
Silêncio.
— Ele me assediou de novo. Fez isso várias vezes. Meu negócio é mulher. Ele insistiu, falou até que me pagaria, que me daria aumento e…
— Vocês chegaram às vias de fato? — Nato tirou as mãos dos bolsos e cruzou os braços.
— Sim. Eu fiquei furioso e me armei com uma faca e… cortei a garganta dele. Quando eu saí do prédio joguei a faca fora.
— Este mundo está perdido mesmo. — exclamou o executivo.
O lado profissional de Renato permitiu que o lado humano lhe sobressaísse ao ver tamanha angústia e arrependimento escoando pelos poros daquele jovem de boa aparência e postura exemplar.
— O senhor pode nos deixar a sós? — se dirigiu ao vice.
Assim que a porta foi fechada, Nato pigarreou aguardando o restabelecimento do emocional de Felipe.
— Me diga só mais uma coisa, Felipe…
— Qual a razão da cruz que desenhei na testa do Carlos. É isso? — se antecipou Felipe.
— Você conhece Tiago Garcia?
De repente, em sinal de desespero, Felipe pôs as duas mãos na cabeça e sua respiração se tornou pesada.
— Jesus, quando isso vai acabar. — gritou.
— Felipe, calma. — pôs a mão em seu ombro. — que ligação tem isso com Tiago…
— Eu falei. Eu avisei que daria merda. — seguia com as mãos na cabeça.
— Falou o quê, Felipe? Por favor, fale comigo. Eu posso te ajudar.
— Ele vai vir. Ele vai vir pra cima de mim. Não, não, não. — se encolheu batendo os pés no chão.
O vice presidente e mais dois funcionários invadiram a sala.
— Detetive Pinheiro, o que aconteceu?
— Ele não está bem. Chamem uma ambulância.
*
Não foi nada fácil. Diga-se de passagem, foi uma semana bem trabalhosa, estressante e desgastante. Chegou um momento em que Nato achou que sucumbiria ao cansaço, mas a vontade de vencer foi ainda maior. Para começar, Arthur e Thais estiveram frente a frente com Regina e ele e revelaram que tudo não passara de um grande susto. Tanto Nato quanto Regina puderam respirar aliviados, mas antes disso um sermão lhes foi aplicado.
Felipe Corrêa passou dois dias internado sem poder receber visitas e assim que recebeu alta chefe Jorge Gama e ele conversaram durante horas e o jovem nada falou de muita importância, apenas disse que sim, conhecia Tiago Garcia e que ele viria com fúria.
— Quem será ele? — pensou alto Nato.
Uma pomba e uma cruz. Sofia Cury e Carlos Henrique. Duas vidas que se foram por mãos de loucos. Loucos mesmo? O que Tiago e Felipe tanto temem? Melhor dizendo, de quem eles tem tanto medo?
Agora que a correria do dia a dia de um policial deu uma trégua, chegou o momento dele resolver questões pessoais. Renato deu uma de investigador particular e descobriu aonde Júnia e Regina se encontrariam e vinte minutos antes ele entrou e se acomodou dentro daquela casa noturna escura feito uma caverna. Pediu um guaraná com gelo e laranja e aguardou. Júnia Lemos foi a primeira a chegar. Cinco minutos depois Regina. Linda e maravilhosa. De cara elas trocaram um beijo tão suculento deixando o agente sem fôlego. Em seguida Júnia pegou o menu. Entre risos, carícias e longos beijos elas fizeram o pedido.
— Por enquanto é só isso, senhoras? — perguntou o garçom.
— Só, meu anjo. — respondeu Regina bastante animada.
Pouco a pouco a casa foi enchendo. Gente que Nato nunca viu na vida empesteiaram o estabelecimento com cheiros, conversas altas e gargalhadas irritantes. Regina, você é uma mulher casada, mãe de filho, o que está fazendo num lugar como este? Pensou.
Regina alisava as coxas grossas de Júnia por debaixo da mesa e a beijava quando o mesmo garçom chegou com os pedidos. Frutos do mar, cervejas e uma garrafa de vinho tinto.
— Meu amor, não pedimos vinho. — disse Regina acariciando os cachos de sua amiga.
— Eu sei. Foi o senhor ali, da mesa oito quem pediu para as senhores. Bom apetite.
Regina e Júnia se olharam sorrindo.
— Que tal uma festinha a três logo mais? — sugeriu Regina.
Com a intenção de agradecer, Regina olhou na direção da mesa oito e seus olhos contemplaram Renato, seu marido, sentado erguendo seu copo de guaraná. Júnia também olhou e o viu. De repente, do ponto de vista de Regina, todos os outros clientes desapareceram da boate, permanecendo somente os dois. Era o fim.
Nato voltava para casa e por incrível que pareça ele estava aliviado. Dentro do carro o som do Indie rock do The Smith ajudava a deixar aquela noite enluarada ainda mais leve. Ao parar no semáforo ele abriu o porta-luvas e pegou o pedaço de papel. Pegou também o celular e digitou rapidamente os dígitos escritos ali. Aguardou e ao terceiro toque a voz de Joicinha invadiu seus tímpanos.
— Oi, Joicinha. Sou eu, detetive Nato.
*
Tiago tentava a duras penas controlar o tremor das mãos e das pernas. Sem sucesso. Ele sabia que, quando a porta da sala de visitas fosse aberta ele estaria cara a cara com ele. Não muito tempo depois aconteceu. A porta foi aberta e ele entrou. O mesmo rosto. O mesmo jeito de andar. O mesmo cheiro insuportável de perfume amadeirado.
— Como vai?
O mesmo tom imponente de voz.
— Nada bem. — respondeu Tiago com os olhos esbugalhados.
— Eu disse que não seria uma boa ideia contar com o Felipe. — continuava de pé.
— Pois é. — Abaixou a cabeça olhando para o seu par de tênis. — E agora?
— E agora? Vamos ver. Vou limpar a merda deixada por vocês dois. O que acha?
— Só me resta lhe pedir desculpas. — voz embargada.
— Temos que seguir com o pacto. Pare de chorar e me fale o nome do verme que te colocou aqui.
— Nato. Nato Pinheiro.
— Ele tem família, naturalmente.
— Sim.
Ele pressionou o botão ao lado da porta a destravando.
— Vai mesmo limpar a nossa merda?
— O que você acha.
Sumiu da vista de Tiago.
Fim da segunda parte.