O Sol além da Chuva
Capítulo 5
O alcoolismo é sem sombra de dúvidas um dos fatores que mais destrói uma família. Por mais estruturada que ela seja, uma pessoa alcoólatra tem a capacidade de abalar os pilares que mantêm um lar de pé. O alcoolismo no caso só perde para as drogas. Seu efeito, tanto dentro como fora do organismo humano é devastador. Hortência nunca passou por isso na família, mas conheceu uma que se definhou por causa de uma única pessoa, no caso o filho do casal. Assim como Milena, o rapaz de quinze anos deu os primeiros passos com a maconha e terminou drasticamente no Crack até ser morto tentando assaltar um coletivo. Foi uma tragédia.
— Fique calma. Se você quiser eu posso passar aí. — Disse Gilson.
— Não precisa, meu querido. Não quero atrapalhar. Você deve estar no trânsito.
— Acertou em cheio. Estou terminando uma corrida. Daqui a pouco apareço por aí.
Nessas horas o que verdadeiramente importa é a salvação de sua menina. Quando tinha a idade de Milena, Hortência junto com outras duas garotas viviam dizendo uma para outra o quanto seria legal e ao mesmo tempo complicado a criação de uma criança.
— Quantos filhos pretende ter, Hortência? — perguntou uma de suas colegas da rua onde morava.
— Eu sempre sonhei em ter quatro.
— Nossa! Quatro? Você não deve estar falando sério. — Questionou outra.
— Mas eu estou falando sério. Quanto mais filhos melhor para cuidar de mim quando eu estiver velha.
Claro que, com o passar dos anos esse número caiu vertiginosamente. Primeiro que Hortência parou nas mãos de um cara egoísta e que não ligava para os sonhos dela. E segundo, Milena nasceu de parto normal e Hortência não curte muito a ideia de sentir dor, então…
— Oi! Entre. — O beijou duas vezes.
— Como você está? — Gilson não tirava os olhos do decote em “V” que ela usava.
— Agora estou melhor. Milena foi para a escola e eu não sei se ela vai voltar. — Sentou-se no sofá.
— Como assim, não sabe se ela vai voltar?
— Eu a xinguei de maconheira de merda.
O olhar de Gilson para ela disse muitas coisas.
— Tá bom! Eu errei, mas se coloca em meu lugar.
Agora o olhar do motorista já era um pouco mais condescendente.
— Sua filha quer sua atenção e a única forma que ela encontrou de fazer isso é se rebelando. Entendeu?
— Entendi.
— Ela vai voltar. E quando ela chegar vocês terão uma conversa.
— Eu chamei o pai dela. Teremos essa conversa juntos.
Ao saber que Magno estaria presente, Gilson se mostrou desconfortável, mas entendeu a posição da colega de curso.
— Vou estar torcendo por vocês. — Se levantou.
— Ah, não me diga que já vai embora? — Hortência quase o segurou pelo braço. — fique para o almoço.
— Não quero atrapalhar.
— Você não me atrapalha, senhor Gilson Santos. Pelo contrário, sua presença me faz muito bem. Vamos para cozinha.
*
Já haviam passado algumas horas desde quando Gilson deixara a casa de Hortência, mas a sua presença ainda era sentida por ela intensamente. Nem mesmo a figura desagradável de seu ex marido foi capaz de fazer com que a dona de casa parasse de pensar nele.
— Maconha, Jota, malcriações, o que mais eu preciso saber, Milena?
Silêncio.
— Seu pai lhe fez uma pergunta. — falou sem tirar os olhos da estampa da mesa da cozinha.
— Por que devo responder algo que ele já sabe?
Magno e Hortência se olharam.
— É desse jeito que você fala com sua mãe?
— Posso fazer uma pergunta? — Milena mexia nas unhas sem parar.
Hortência e Magno anuíram.
— Por que se separaram?
Os ex cônjuges voltaram a se olhar.
— O amor acabou. — Magno começou.
— Na verdade ele NUNCA existiu. Mas nós não estamos aqui para falar de nós dois e sim de você…
— Estão vendo agora? Vocês me deixaram de fora de todas as decisões que tomaram. Nunca pediram a minha opinião nem mesmo para saber se eu queria mudar de colégio e agora estão aqui dando uma de pais presentes e preocupados. Caiam na real.
Silêncio constrangedor. Hortência teve vontade de voar para cima da filha e finalmente lhe aplicar aquela tão prometida surra, mas no fundo Milena estava certa.
— Não vai falar nada, doutor Magno Leite?
— Ah, tá. Legal. Agora a culpa é minha? Eu não errei sozinho. — Vociferou.
— Eu admito que errei, mas você nunca se preocupou com o futuro dela. Nunca foi a uma consulta, nunca deixou o seu escritório para levá-la na emergência quando precisou, nunca…
Milena se levantou, mas foi repreendida pelo pai.
— Não vou e nem quero passar por isso de novo. Boa noite pra vocês. Se matem aí.
Em silêncio a adolescente deixou a cozinha. Seus pais seguiam se encarando como violentos lutadores de UFC.
— O que faremos? — Magno abaixou a cabeça.
— O possível e o impossível para salvar nossa menina.
*
Naiara retirou os petiscos com todo o cuidado da Air fryer e os colocou no prato enquanto Hortência terminava de forrar a mesa da cozinha. Comida, bebida, fofoca e boas doses de alegria são coisas que não podem faltar em uma resenha, principalmente quando Naiara e Hortência se fazem presentes. Mas hoje algo não está legal. Há uma nuvem negra rondando aquela parte da casa a qual as impede de esticar qualquer assunto. Pode até ser impressão, mas Naiara não está tão à vontade como nos outros dias. Teria isso um nome, tipo: culpa no cartório?
— E como vai o curso?
— Incrível! É a realização de um sonho. — Serviu a cerveja.
— Que bom, amiga. — Pegou uma coxinha da asa. — E já conheceu alguém legal por lá?
— Já! E ele veio aqui ontem. Gilson. Um cara super bacana.
— É sério? E como ele é? Deixa eu adivinhar. Alto, frequenta academia e é praticante de esportes. Trabalha numa multinacional.
Enquanto Naiara falava, Hortência pegou o celular e abriu na rede social de Gilson e o mostrou.
— Lhe apresento, Gilson Santos.
— Você só pode estar de sacanagem. — pegou o celular da mão da amiga. — Mas, mas, ele é…
— Negro, gordo, pobre e mais o que?
— Amiga! Me desculpe, mas ele não tem nada a ver com você. Cara, você é uma princesa…
— Ah, já estava me esquecendo. Ele é Uber.
Naiara revirou os olhos.
— Putz! E ainda por cima é pobretão. Você ficou maluca?
— Ei, devagar ai queridinha. Nós somos só amigos.
Naiara arqueou uma das sobrancelhas.
— Tem certeza, e por que seus olhos estão brilhando?
Agora Hortência foi pega com as calças na mão. O que ela vem sentindo por Gilson está tão na cara assim? Mas o que ela sente por ele na verdade?
— Meus olhos brilhando, que conversa é essa dona Naiara? — deu um gole na cerveja.
— Sim! Seu rosto ficou vermelho também. O que tá rolando nesse coraçãozinho aí?
— Sossega, amiga. Vamos mudar de assunto.
*
— Mas nem em sonho. — Jota apertou outro cigarro de maconha. — Você tem que resolver essa treta com seus pais, isso sim.
— Mas amor, não seria legal eu morar aqui com você? A gente poderia passar o dia todo transando e fumando… — Milena o acariciou no peito.
— Pois é, seria da hora, mas eu tenho certeza que seus coroas viriam atrás de mim.
— Meus pais se separaram e estão mais perdidos do que nunca. Veja bem, eu sei cozinhar, passar, posso limpar a casa também e vou logo dizendo, isso aqui está parecendo um depósito…
— Meu Deus, gata. Você nem mora aqui e já está dando palpite no barraco. Eu não quero mulher me enchendo o saco o tempo todo não. — acendeu.
Milena se ajoelhou entre as pernas do namorado já fazendo um rabo de cavalo.
— Vamos ver se você muda de ideia depois disso.
— Ah não! Aí é covardia.
*
Naiara e Hortência se conheceram durante uma festinha de aniversário de uma amiga de trabalho quando Hortência ainda exercia sua profissão de vendedora numa loja de sapatos. Desde então elas não se largaram mais. A jovem morena passou a frequentar o lar dos Leite Passos quase que diariamente e Magno, sempre que estava em casa nunca deixou de prestar atenção nela. Claro que Naiara percebia os olhares dele para ela, mas em respeito a amiga ela nunca levou esse fato adiante.
O mundo dá voltas. Naiara sempre soube do interesse de Magno por ela, porém jamais imaginou que um dia eles estariam envolvidos em lençóis, um provando do corpo do outro deitados em uma cama quente. Magno é bom no que faz. Prova disso é o fato deles já estarem ali há duas horas sem previsão de término.
— O que você tomou? — Naiara estava suada e descabelada.
— Como assim o que eu tomei? Aqui a saúde é de um atleta em alto nível.
— Isso sem dúvidas. Olha como você me deixou. — tentou prender os cabelos.
— Você é boa também.
— Sabe o que tem me preocupado? Qual será a reação da Hortência quando souber do nosso lance.
— Eu não estou preocupado. Na verdade, nem penso nisso. Hortência é página virada em minha vida. — passou a focar o teto. — A fila anda.
— E por falar em fila que anda. Acho que sua ex mulher tem se envolvido com um cara.
Magno permaneceu imóvel.
— Sério?
— E você não vai acreditar. O cara é negro e gordo.
A gargalhada de Magno ecoou por todo o quarto.
— Jura?
— E quer saber mais? Ele chama-se Gilson e é Uber. Dá pra imaginar?
— Putz! Vou querer conhecer esse sujeito.
— Magno, você precisa ver. Tipo, a princesa e o plebeu.
Outra risada do advogado.
— Hortência parou muito mal.
— Certo! Vamos pedir alguma coisa pra comer ou prefere sair? — rolou pra cima dela.
— Você acabou comigo. Melhor pedir uma pizza.
— Fechado, mas só depois do segundo tempo.
*
Jota olhou mais uma vez pela janela se certificando se a barra estava realmente limpa. Do seu apartamento é possível ver boa parte da rua assim como a intensa movimentação de transeuntes no horário do almoço. Quem tem culpa nunca relaxa e ele se enquadra nessa questão. Jota voltou para o centro da sala e sentou-se no que um dia fora um sofá. Na outra ponta há uma caixa de sapatos já aberta com algumas dezenas de cigarros de maconha. Há também um pouco da erva embalada e uma certa quantia em dinheiro. Esfregando as mãos o rapaz passou a contar pacientemente cada nota. Ao terminar a contabilidade e tomar ciência de que se as vendas continuarem do jeito que estão, em breve o sonho de aquisição de uma moto será realizado. O largo sorriso foi desfeito com o berro da campainha. Mais um cliente.
— Bom dia. Posso entrar? — Disse Hortência.
— Bom dia. A senhora é nova por aqui, veio por indicação de quem?
— Milena Leite Passos. Minha filha.