O Sol além da Chuva
Capítulo 7
O ano era 1994. Gilson deixava a escola após um dos piores dias de sua vida, entre aqueles muros cinzentos e pichados daquela escola imunda. Como se não bastasse ter levado um fora na frente de toda turma, ele presenciou a garota dos seus sonhos trocando saliva com o seu arquirrival escondidos na quadra poliesportiva. Desse momento em diante nada mais importava. O que era uma paixão se tornou um mar de tristeza. O que era desejo deu espaço a desesperança.
— Está olhando o que seu feioso? — Disse ela ao vê-lo olhando.
— Vish! Acho que a baleia ficou magoada. — emendou o garoto.
Sem reação, Gilson foi se afastando lentamente e quando percebeu já havia atravessado o portão depredado da escola. Que dia de cão.
— Caramba e você ainda se lembra desse dia? — Hortência estava abraçada a ele dentro do carro.
— Pior que lembro.
— E o que fez depois disso?
— Fui viver minha vida. Tive que aguentar as gozações dos garotos, mas nada mais me feria, me tornei impermeável.
— O ser humano é mesmo maldoso. Veja só o que causaram em você pelo simples fato de não ser como eles queriam.
— Foi brabeza, mas eu venci.
— Agora você tem a mim. — o beijou.
— Após a tempestade vem sempre a bonança. — Recebeu outro beijo.
*
Assim que o movimento deu uma trégua no escritório e sua presença não já não era tão imprescindível, Magno Leite correu para o shopping para atender a solicitação de sua filha que havia ligado mais cedo. Sabendo que o teor da conversa não seria nada leve, o advogado comprou duas casquinhas de baunilha de três reais. Ao ver aquilo Milena não pode deixar de fazer críticas ao pai.
— Nossa, pai! O senhor é dono de um dos melhores escritórios de advocacia da cidade e tem a coragem de comprar duas casquinhas de três reais?
Magno olhou para os dois sorvetes ruborizado de vergonha.
— Ah, filha. Eu gosto dessas casquinhas e é até bom que isso aconteça, sabe porque?
— Para que o povo veja o quanto você é humilde. — desdenhou.
— Exatamente! Toma. — sentou-se. — mas, fala comigo. O que está rolando?
— Eu quero sair da cidade. Quero morar com meus avós.
— Não é tão simples assim, querida. Sua mãe e eu precisamos conversar primeiro. — provou do sorvete.
— Pai, minha mãe vai adorar. Eu sinto que sou um peso na vida dela.
— Imagina! É super legal ter uma filha viciada em maconha.
Milena ficou girando o sorvete.
— Se coloca no lugar dela. Você iria gostar?
— Ela agora só tem olhos para o curso de gastronomia e para aquela baleia assassina que ela arrumou.
Magno sentiu vontade de rir.
— Sua mãe ainda é jovem, é bonita…
— Se você acha isso tudo dela, por que não volta então?
— A nossa história começou errada e quando isso acontece dificilmente terminará feliz, então, deixe como estar.
Silêncio. O sorvete de Milena já começara a derreter.
— Vai conversar com ela?
— Vou!
— Valeu! Pode me pagar um sorvete de verdade?
— Farei melhor. Que tal uma pizza hoje a noite ali, naquela pizzaria?
— Eu topo.
— Legal então. Eu só não consigo te pegar em casa, tudo bem? — pegou a casquinha da filha.
— Já é, eu venho de Uber.
— Às dezenove horas então.
*
Hortência tirava o pó dos móveis ao som de “Vento no litoral” da Legião Urbana, uma das suas bandas favoritas dos anos 1980. Fazendo coro com a potente voz de Renato Russo, a vendedora por um instante achou que estivesse num palco cantando para milhares de pessoas numa noite glamourosa. Sua viagem era tão profunda que ela nem percebeu a chegada de Milena com seu típico deboche.
— Depois sou eu que uso droga.
Hortência abriu os olhos.
— Oi? — voltou à atividade.
— Não sabia que cantava tão bem.
— Fala logo o que você quer, Milena. — limpou atrás da TV.
— O papai vai te ligar e ele me chamou para comer pizza. Fechado?
— Quanto a comer pizza tudo certo, mas, ele vai me ligar para falar sobre o que?
— Quero ir morar com meus avós.
Hortência parou o que estava fazendo.
— Morar com seus avós?
— Sim! Vai ser bom para todo mundo. Você não vai mais precisar se preocupar…
— Calma aí. Você quer ir embora achando que com isso vou deixar de me preocupar com você?
— Fala a verdade mãe, sou um peso na sua vida. — Cruzou os braços.
A garganta de Hortência se estreitou devido ao nó formado.
— Você é minha filha. Minha única filha. O meu amor por você é incondicional, você pode acreditar nisso. Quando eu era da sua idade eu tinha muitos planos, mas o maior deles era engravidar e trazer ao mundo uma menina. Eu me lembro que todas as noites ao me deitar para dormir eu pedia a Deus que me agraciasse me dando uma filha e Ele me atendeu, e o que é melhor, você veio do jeitinho que eu pedi a Ele.
Agora foi a vez de Milena tentar engolir o nó formado na garganta.
— Não existe peso algum. O que existe de verdade é cuidado, zelo, proteção e muito amor para dar.
Não foi mais possível segurar as lágrimas. Milena correu para o quarto e se jogou na cama cobrindo sua cabeça com os travesseiros. O choro foi abafado. Sua mãe achou melhor não incomodá-la voltando a trabalhar na limpeza dos móveis. Assim como a filha, Hortência chorou e não foi pouco.
*
Mais uma vez Naiara não precisou fazer esforço algum para se produzir. Se há algo a qual a natureza lhe foi generosa, isso com certeza, sem sombra de dúvidas a beleza facial quanto a corporal lhe foi dada de presente. Magno não teve a mesma sorte que sua namorada, mas não estava tão ruim. Para falar a verdade, o advogado sempre foi um sujeito um pouco acima da média no quesito beleza. Para o encontro com sua morenaça, Magno aparou a barba e vestiu o seu melhor traje esporte que havia em seu armário.
— Nossa! Que gato. — o beijou.
— Para uma noite especial com uma princesa, vale uma indumentária especial.
— Noite especial, no meio da semana?
— Pra que esperar até o final de semana? E outra coisa, estou a fim de esticar a noite. — apertou suas nádegas.
Devido ao horário a pizzaria estava lotada, música ao vivo e com seus garçons circulando pelo salão o tempo todo com suas bandejas erguidas. O casal aguardou alguns minutos do lado de fora o surgimento de uma mesa aproveitando para pôr os beijos e os abraços em dia. Naiara esbanjava sorrisos e satisfação de estar ao lado de um partido feito Magno Leite, essa noite realmente prometia belas e grandes surpresas.
— Já podem entrar. — Informou a funcionária da recepção.
Havia pairando naquele ambiente diversos aromas os quais Naiara conseguia distingui-los facilmente. O cheiro da massa fresca. Ingredientes cuidadosamente selecionados e de altíssima qualidade, sem falar do atendimento que é coisa de primeiro mundo.
— Já havia vindo aqui? — Magno puxou a cadeira.
— Você só pode estar de brincadeira, né? Só em sonho. — sentou-se.
— Espere até você provar a vegana. — Ocupou o seu lugar.
— Você é vegano?
— Claro que não. Mas a pizza vegana que eles fazem aqui é divina.
Milena devidamente vestida de jeans, camisa rosa de algodão de uma das heroínas da Marvel adentrou ao estabelecimento à procura de seu pai. Ao identificá-lo juntamente com Naiara a sua vontade era de voltar por onde entrou. Tal sentimento não foi diferente com Naiara.
— Oi, gente. — Milena não tirava os olhos de Naiara.
— Oi, filha. Essa você já conhece, não é? — Magno a beijou na testa.
— Sim!
— Como vai, Milena? — A voz de Naiara saiu trêmula.
— Bem!
Por fim o rodízio teve seu início e eles comeram mesmo imersos num clima hostil. Tirando Magno que devorava cada pedaço de pizza deixado em seu prato, Milena e Naiara trocavam olhares desafiadores.
— Vou ao banheiro. — Magno se levantou.
Ao se verem a sós, as duas mudaram o comportamento. Milena passou a encará-la sem parar.
— Sei exatamente o que está pensando. — começou Naiara. — acha que sou uma traidora.
— E qual outro nome que se dar a isso?
Nesse momento a música ao vivo havia voltado do intervalo.
— Vai adiantar eu pedir para não contar a sua mãe?
— Não!
Naiara engoliu seco olhando para o músico dando os primeiros acordes de “Canção da América” de Milton Nascimento.
— Minha mãe se amarra na tua, como pode fazer isso com ela?
— Eu não sei…
— Por um acaso vocês já estavam juntos antes do divórcio?
— Lógico que não.
— Você é muito mau caráter, Naiara… — espetou um pedaço da pizza de frango com o garfo.
— Olha só, garota. Eu entendo que esteja chateada, mas isso não lhe dá o direito de me julgar. Quem você pensa que é?
— Mau caráter sim e traidora também.
— Está achando que sou sua mãe é? Eu quebro sua cara inteira sua drogada.
Naiara e Milena dividiam a atenção dos clientes com o músico arpejando seu violão. Ao ser chamada de drogada, Milena acertou um chute na canela da morena por baixo da mesa antes de sair.
— Vagabunda, traidora.
— Aí! Que ódio.
Magno voltou quando “Whisky à go-go” de Roupa Nova começou a ser executada. Naiara fingia estar bem.
— Cadê a Milena? — olhou ao redor.
— Ela pediu desculpas e foi embora.
— Foi embora, como assim?
— Muito trabalho de escola para fazer, ela alegou.
— Que pena. Depois eu ligo para ela. — sentou-se. — Vamos pedir aquela vegana?
— Então, tá.
*
A corrida é longa, mas em contrapartida o seu valor cobrirá os gastos. Pelo menos o da gasolina está garantido. Em meio a um trânsito caótico na autoestrada, Gilson conduz seu veículo beirando a perfeição passando segurança e tranquilidade aos seus passageiros. Tudo o que as duas senhoras mais querem no momento é chegar a tempo de assistir a missa de sétimo dia de uma querida amiga que fazia parte do grupo de beatas.
— Moço, o senhor acha que conseguiremos chegar antes do início da programação? — perguntou a mais idosa delas.
— Qualquer coisa eu pego um caminho alternativo.
— Caminho alternativo? Eu tenho pavor de passar em comunidade. — falou a outra com a mão na boca.
— Pode ficar tranquila senhora, não é favela não. Eu conheço bem essa rota.
Enquanto tentava explicar o caminho que faria para fugir do congestionamento, o WhatsApp o alertou sobre uma nova mensagem. Era Hortência.
Oi! Ainda no trânsito?
As coroas deixaram de lado a confusão do trânsito dando início a uma nova conversa. Disfarçadamente Gilson respondeu.
Sim! A viagem é um pouco longe.
Sério? Queria te ver hoje também.
Sorrindo, o motorista olhou pelo espelho interno e viu as duas idosas agarradas aos terços.
É sério, está com muita saudade assim? Nos vimos ontem. Kkk.
Hortência está digitando.
Você não está?
Estou.
As senhoras terminaram a oração já voltando a focar no trânsito.
— Moço, só temos vinte minutos para chegarmos lá.
— Chegaremos em dez então. Vou sair da estrada.
Posso te esperar?
Claro! Te ligo assim que eu estiver voltando.
Então tá. Bjs!
Hortência colocou o celular para carregar e correu até a cozinha. Na geladeira faltavam bastante coisas para o preparo de um jantar então ela recorreu a boa e velha comida rápida e nem um pouco saudável dos fast foods da vida. Quando ainda pensava no que pedir, Milena apareceu na cozinha com suas bochechas vermelhas.
— Voltou cedo, filha.
— Mãe, você não vai acreditar.
— Você está me assustando, conta logo Milena.
— O papai e a Naiara estão juntos.
*
O som da voz de Milena ia e voltava como uma dor latejante dentro dos ouvidos de Hortência. A princípio ela achou que sua filha estivesse brincando, lhe pregando uma peça, mas ao analisar com mais cuidado ela viu em sua face a seriedade do assunto.
— Magno e Naiara, juntos?
— E muito felizes a meu ver.
— O que ela falou, qual foi a reação dela ao te ver? — Hortência puxou uma cadeira da copa.
— Na verdade eu não sei. Eu fiquei sem chão. Dei até um chute na canela dela.
Boquiaberta, a vendedora pois as mãos na boca.
— Você não fez isso?
— Eu não poderia sair daquela pizzaria sem descontar a minha raiva.
Milena contou tudo. Detalhe por detalhe. A cada palavra dita, a adolescente assistia a tristeza e a decepção tomarem posse de sua mãe que, por mais que tentasse ser forte, suas reações demonstravam o contrário. Com tanta mulher circulando por aí sozinha, ele tinha que se envolver justamente com sua amiga? Vendo que sua mãe não aguentaria ouvir mais uma palavra sequer ela decidiu dar por encerrada a conversa.
— E foi isso.
Elas ficaram um certo tempo em silêncio até que Hortência levantou uma questão.
— Magno orquestrou tudo isso. Ele queria ser visto com ela.
— Meu pai seria capaz disso?
— E de coisas piores. — Expirou. — Consegue entender agora tudo o que houve?
Milena assentiu.
— Eu tive minha parcela de culpa, mas o seu pai fez coisas absurdas comigo.
— O que a senhora vai fazer agora?
— Entrar no jogo.
*
Naiara ainda tentava entender tudo o havia acontecido dentro daquela pizzaria e também o que ocorreu logo após. Trocando em miúdos, foi uma noite onde ela pode experimentar da alegria ao vexame, da agressão e depois do prazer extremo com Magno. Foi tudo muito intenso.
— Filha. — Chamou o pai. — Tem mais torrada?
— Não, pai. O dinheiro acabou. — Naiara recolhia a louça do café.
— Mas como assim acabou? Sua irmã parou de mandar o dinheiro? — Agora foi a vez da mãe falar.
— A Lara tem a vida dela mãe. Vocês terão que se contentar só com isso mesmo.
O velho Oliveira abriu os braços.
— Meu Deus! Que final de vida é esse? Não tenho dinheiro nem para comprar remédio.
— E nem para comer pelo visto. — Completou a esposa.
Naiara deu de ombros continuando a lavar a louça. A campainha soou forte.
— Quem deve ser a essa hora da manhã? — O velho olhou em direção a porta.
— Com certeza é alguém querendo nos converter a religião dela. — Secou as mãos.
Naiara abriu o portão dando de cara com Lara, sua irmã.