segunda-feira, 26 de agosto de 2024

O Sol Além Da Chuva | Capítulo 9

 


O Sol além da Chuva 

Capítulo 9


 Agora que sua irmã se foi e não só isso, Lara a intimou a andar na linha caso contrário Naiara estaria sem seu apoio e o que seria pior, seus pais estarão vivendo longe dela sem qualquer possibilidade de visitas. Isso seria terrível uma vez que Naiara tem verdadeira devoção pelos velhos. A conversa não foi fácil, ter que encarar a realidade e vê-la sendo jogada em seu rosto foi torturante. Por outro lado, até que foi bom. Tratamentos costumam mesmo ser dolorosos e desconfortáveis. Ela precisava ser confrontada com a verdade.

  Já recomposta de tudo o que aconteceu, Naiara estava louca para sair, curtir uma noite com Magno e quem sabe dormir envolvida em seus braços.

  — Oi? — Magno parecia agitado.

  — Há, oi, pensei da gente sair hoje.

 — Você só pode estar de brincadeira. — falou com rapidez.

  — Não, não estou de brincadeira. Que tal frutos do mar…

  — Olha só, Naiara. Eu estou super ocupado, mais tarde a gente se fala, tudo bem pra você?

  — Ah, sim. Me desculpa, eu…

  Magno já havia encerrado a ligação.

  Naiara sempre soube que Magno não era um doce de pessoa, inclusive essa era uma das principais reclamações de Hortência sobre ele. Grosseria, brutalidade e humilhações eram fatos recorrentes dentro do casamento. Agora ela pode sentir na pele o que sua amiga sentia e que ela pouco se importava. Decidida a ficar em casa jogando cartas com seu pai, coisa que ela não é nada fã, Naiara partia para a cozinha quando alguém bateu em seu portão.

  — Quem deve ser? Droga. — Andou com pressa.

  Ao abrir ela deu de frente com Hortência.


*


  Para um homem solteiro que vive sozinho em uma casa pequena herdada dos pais em dos bairros considerado um dos mais problemáticos em questão de infraestrutura, violência e etc, até que Gilson tem se virado muito bem. Sua casa pode não ser tão atraente, mas ainda assim ela é o seu lar, a sua fortificação. Se por fora ela demonstra ser um pequeno casebre precisando urgente de uma reforma, por dentro ela abriga tudo o que o motorista precisa para se viver o suficientemente bem. Depois de uma jornada intensa de ralação é lá dentro que ele recarrega sua bateria.

  Num passado distante, digamos, a mais ou menos três anos, Gilson se envolveu com uma tal de Sara, uma morena clara que não suportava ser chamada de namorada por ele. Logo de cara Gilson percebeu que ela não era a mulher com quem se casaria, teria filhos e viveriam felizes ali dentro. Sara gostava de curtir, frequentar as rodas de samba em bares aos finais de semana e praia. Durante o tempo em que estiveram juntos, Gilson nutriu um certo sentimento por ela, mas não era amor.

  Nada como um dia após o outro, neste caso, nada como alguns anos após os outros. Gilson Santos vive hoje o que tanto desejou a vida inteira. Especificamente hoje, Hortência o trouxe de volta dos escombros de relacionamentos fracassados. Estar com ela na cama era algo inimaginável — pelo menos por enquanto não — . Foi mágico, intenso, gostoso, uma pena que tinha hora para acabar. É bom se sentir assim: vivo.


*


  — Quando pretendia me contar ou não pretendia? — Hortência precisava controlar a respiração.

  — Não sei. — Naiara tamborilava com os dedos a borda da caneca.

  — O que fez não foi nada legal, você sabe disso, não sabe?

  Assentiu.

  — Tantas foram as vezes em que eu desabafei com você, aqui mesmo nesta cozinha. Quantas vezes eu chorei e você me confortou e agora…

  — Mas, Hortência, eu não procurei isso. As coisas simplesmente aconteceram.

  — Você traiu a nossa amizade, Naiara. Eu não consigo te ver mais como antes. A verdade é que você já gostava dele e só esperou o momento certo.

  Poucas foram as vezes em que Hortência presenciou sua amiga com o semblante fechado. Hoje foi um desses raros dias.

  — Eu já falei que eu não gostava do Magno. — rosnou. — Eu nem sequer olhava para ele.

  Houve um período de silêncio tão longo que ambas ficaram constrangidas. A primeira a quebrá-lo foi Hortência com um tom de voz um pouco mais amigável.

  — Se o conheço bem, Magno te usou contra mim.

  — Ele seria capaz disso? — Ergueu rápido a cabeça.

  — Casei-me com o inimigo, minha querida. Convivi diariamente com um homem cínico, aproveitador e articulador. Não foi fácil. — Se levantou. — Pode acreditar. A essa hora ele deve estar contando vantagem para outros iguais a ele e você, infelizmente foi a bucha.

  — Meu Deus! — Sussurrou.

  — Eu já vou indo. Mande um abraço ao senhor Francisco e um beijo para dona Fátima. Pense no que lhe falei.


*


 A música é um daqueles “batidões” mais nojentos e pornográficos já produzidos por um ser humano. É incrível como num país considerado um dos mais belos do mundo esse tipo de cultura é a mais aderida por seus habitantes. Enquanto observa a garota arrastando suas nádegas parcialmente coberta por uma bermuda jeans naquele porcelanato frio do escritório, Magno Leite sente seu corpo vibrar tamanha é a sua excitação. O paletó preto e a gravata vermelha foram postos de qualquer jeito no encosto de uma das cadeiras assim que a jovem iniciou seu showzinho particular.

  — Está gostando, doutor? — Sentou-se em seu colo.

  — E você ainda pergunta? — A segurou pela cintura.

  Alguém tocou duas vezes na porta tirando o advogado do transe provocado pelas carícias da mulher.

  — Mais que droga. — Subiu o zíper da calça. — O expediente já encerrou.

  Aos poucos Magno foi abrindo a porta revelando uma Naiara de semblante transtornado.

  — Preciso falar com você. Que porcaria de funk é este?

  — Não te interessa. O que você quer? — Falou ainda segurando a porta.

  — Você está com alguém aí dentro, Magno? — Forçou sua entrada.

  — Estou. Fala logo o que veio fazer aqui?

  — Eu queria conversar com você. A Hortência esteve lá em casa hoje. Eu posso entrar?

  O funk porno continuava a contaminar os ouvidos de Naiara até Magno pedir que parasse.

  — O que tem haver com a Hortência ir na sua casa, vocês não são amigas?

  — Você está com mulher aí dentro do escritório, no seu lugar de trabalho?

  — Estou, e daí? — Escancarou a porta permitindo que Naiara visse a funkeira sentada de pernas cruzadas na cadeira do presidente mexendo no celular.

  — Meu Deus! Hortência estava certa. Você é um ser asqueroso e repugnante. Você me usou para atingir minha amiga.

  — Caramba! Você descobriu a roda. — abriu os braços. — Agora que você sabe de tudo, pode me dar licença, por favor, tenho visita.

  Antes de lhe dar as costas e sair, a mãe do advogado foi lembrada de uma forma não tão carinhosa, sem contar com o grande volume de saliva que recebeu no rosto.

  — Sua porca vagabunda. — Vociferou.

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

O Sol Além Da Chuva | Capítulo 8

 


O Sol Além Da Chuva 

Capítulo 8



 Vender drogas não fazia parte dos planos de Jota, muito menos dos planos de seus pais. Se dependesse do pai, somente do seu pai, João era para ser hoje um bem sucedido engenheiro trabalhando em uma estatal. Já sua mãe sonhou a vida inteira em ter um filho artista, estrelando nos palcos ou na teledramaturgia. Na verdade, foi projetado no garoto o que ela gostaria de ser de fato. Nada disso seria ruim, mas o erro de ambos foi não consultá-lo antes. Ninguém se importou com seus sentimentos ou desejos. No fundo Jota era louco por esportes. Ser um Skatista e competir era o seu objetivo, mas o pior aconteceu. Seu pai, mesmo casado, constituiu outra família fora da cidade e ao saber de tudo, sua mãe mergulhou fundo numa depressão que a consumiu até a morte. Desgraça total.

 Mesmo sob o amparo dos tios e avós, Jota nunca entendeu direito o porquê do destino ter lhe pregado uma peça tão cruel. Apesar de tudo, ele amava seus pais e faria qualquer coisa por eles. Revoltado, João largou os estudos, abandonou o sonho e se enveredou pelo caminho mais fácil. A vida começou a fazer sentido novamente quando Milena apareceu. A princípio, tudo não passava de sexo, drogas e rock holl. Curtição pra valer. Ele sente muito a falta dela mesmo.

 Ao terminar de enrolar os cigarros de maconha e organizá-los dentro da caixa de sapatos, alguém bateu na porta. O susto foi tão grande que o fez soltar a caixa em cima do sofá.

 — Mais que droga.

 A pessoa insistia com as batidas o deixando cada vez mais perdido.

 — Já estou indo.

 A caixa com as drogas foi parar atrás da TV.

 — Prontinho. — Abriu a porta.

 Se tratava de um jovem negro. Boa aparência, físico de atleta usando óculos de lentes finas.

 — Oi! Você é o professor de química? — sua voz é grave, estilo locutor de supermercado.

 — Opa, sim, sou eu.

 — Sou Luiz Paulo. Quem te indicou foi o Pará.

 — Ah, sei, ele te passou o procedimento?

 — Sim! — lhe mostrou o caderno e o estojo. — é isso?

 — Exatamente. Sabe como são as coisas não é? O seguro morreu de velho.

  — Tá certo. Então. Vamos fazer negócios?

 — Cola aí.

 O apartamento segue do mesmo jeito. Paredes com marcas de pés, rabiscos e pichações. Um monte de papel espalhado. Restos de lanche de dias varridos para o canto da parede e um cheiro insuportável de maconha no ar.

 — Vai querer quantos?

 — Quantos tem aí? — olhou ao redor.

 — Acabei de enrolar trinta e está pra chegar mais a noite.

 — Ah, tá. Você trabalha sozinho com isso? — cruzou os braços.

 — Na verdade eu e o Pará. Ele é o responsável por trazer os clientes. — pegou a caixa atrás da TV.

 — É um esquema quase que infalível.

 — Pois é. Na verdade, quem bolou todo o esquema fui eu. O Pará não é tão inteligente assim, então… — Abriu a caixa. — Vai querer quantos?

 — Quero todos. — sorriu.

 — Todos? E você tem grana para tudo isso?

 O rapaz enterrou a mão no bolso de trás da calça e sacou um bolo de notas de cem. Jota arregalou os olhos.

 — Brother. Você poderia comprar direto com o meu fornecedor. Eu ganharia uma boa comissão inclusive. Vou te passar a situação…

 — Eu já conheço todo o sistema, professor. — fechou a expressão.

 — O que? Mas, droga. — deu dois passos para trás.

 — Se tentar correr será pior. — Lhe mostrou o distintivo. — Como você mesmo disse, o seu parceiro não é tão inteligente. Foi fácil.

 — Merda, Pará. — Esbravejou.

 — Você pode falar isso diretamente para ele lá embaixo. Vamos.


*


 Jota e seu sócio no ramo de comercialização de entorpecentes, Pará, foram jogados feito sacos de lixo em uma das poucas celas da delegacia. Mesmo sob os insistentes protestos do líder da dupla, Luiz Paulo, o investigador responsável pelo caso mal olhou para a cara dos meliantes.

 — Eu acho que eu tenho direito a uma ligação, não é?

  — A partir do momento em que você, senhor João, atravessou as portas deste departamento de polícia, o senhor perdeu todos os direitos. Traficantes aqui não têm direito a nada.

  — O pai da minha namorada é advogado… — Gritou.

  — Ele pode até ser o Papa. Agora cale a boca. — Saiu andando.

  Sabendo da encrenca em que se meteu, Pará ocupou um dos assentos de concreto nos fundos da cela passando a se lamentar.

  — Bem que minha mãe falou. Eu não tinha nada que largar a feira.

  Jota girou nos calcanhares.

  — Eu não acredito que você contou para sua mãe que venderia maconha?

  — Sou burro, mas não a esse ponto. Falei que iria trabalhar com venda de produtos naturais.

  Jota se afastou voltando para a frente da cela.

  — É bem provável que você consiga sair. — Pará continuou falando. — No meu caso sou um cara pobre, morador de comunidade, não concluí o ensino fundamental e para piorar, sou negro, então…

  — Caímos juntos e vamos sair daqui juntos. Confie em mim, parceiro.


 Disposta a virar a chave de sua vida e tentar vivê-la em harmonia com seu pai e principalmente com sua mãe, Milena se concentra nos afazeres domésticos e também nos deveres escolares. Paz interior é algo que não se encontra em qualquer esquina, mas sim uma coisa que se constrói. O processo é lento, doloroso, mas de forma alguma fará com que nos arrependamos. Seu smartphone tocou em cima da cama. Ao ver que se tratava de Jota todos os músculos do corpo se retraíram.

  — O que você quer, já falei para me esquecer.

  — Fui preso. Seu pai pode me dar uma ajuda?

 — Esquece. Meu pai não é advogado criminalista…

  —  Qual foi, Milena. Tenho certeza que ele conhece alguém que pode me ajudar…

  — Cara coloca uma coisa na sua cabeça. Nós não temos mais nada a ver um com o outro. Você quase destruiu a minha vida.

  — Você sabe que eu te amo, não sabe?

  Chorar não é proibido. Chorar é bom e faz parte do processo. Milena chorou pois sabia que era verdade.

  — Por favor, gata. Me ajuda aí vai.

 Toda mudança gera medo, insegurança e expectativa. Mas, se estamos mesmo dispostos a não permanecermos no lugar de conflito, precisamos abandonar o que outrora nos fez mal.

  — Adeus, João. — Desligou.


*


 Desde quando ainda eram crianças no bairro pobre onde nasceram, Lara e Naiara sempre fizeram questão de estarem juntas, seja nos momentos de grande conquista e alegria como nos de perda, aflição e tristeza. A admiração da caçula pela irmã mais velha ultrapassa os limites do que ela considerava respeito de irmã mais nova. Lara era vista por Naiara quase como uma entidade, um ser que estava disposta a protegê-la a qualquer custo. Quase um respeito maternal digamos.

  Hoje já adultas poucas coisas mudaram. Lara já não mais a vê como uma menininha pirracenta e cheia de vontades, mas sim uma mulher madura, forte e determinada. Em contrapartida, Naiara não a enxerga mais como sua segunda mãe, porém o respeito e admiração continuam lá.

  — Preciso saber exatamente o que vem acontecendo aqui. — Questionou Lara sentada na mesa da copa.

  Naiara adoçava o café.

  — Não estou te entendendo.

  — Vamos lá, Naiara. Eu te conheço cara.

  — Está tudo em ordem…

  — Não adianta mentir pra mim. Eu investiguei e não gostei nada do que descobri.

  — E o que descobriu? — Deu um gole no café.

  — Você tem sacado ou transferido as aposentadorias as jogando em sua conta. É certo isso?

  — Eu faço as transferências para minha conta justamente para facilitar na hora das compras.

  — E o que você faz com a grana que envio todo mês? — Cruzou as pernas.

  — Faço compras, separo para a emergência…

  Lara respirou fundo.

  — Ótimo! Apresente-me agora os extratos.

  Naiara tinha os olhos marejados.

  — O que?

  — Isso dói mais em mim do que em você, acredite, mas eu não posso ir embora com essa dúvida. Mostre-me o histórico dos extratos.

  A morena engoliu o choro pegando o celular. Mais uma vez o respeito extremo, quase medo falou mais alto. Ela não pode resistir.

 — Não adianta. Somos irmãs. Eu sinto o que você sente.

 — Me perdoe. — Chorou finalmente.

 — Não é a mim quem você deve pedir perdão. Roubar dos próprios pais é uma falta grave.

 — Vai tirá-los de mim?

 Lara pensou durante um tempo.

 — Não! Acho que agora você aprendeu a lição, não é, feiosa? — Pegou nas mãos da irmã.

 Naiara anuiu.


*


 Durante todo o tempo em que passou em sala de aula, por diversas vezes Hortência se pegou com sua mente distante. Ela olhava para o quadro branco recheado da matéria que ela mais curte na cozinha. Assados é com certeza sua especialidade, mas o que verdadeiramente chama atenção encontra-se ocupando a carteira ao lado. Gilson sim tem cem por cento de sua atenção nas explicações logo a frente. Ao contrário de sua namorada, assados é o seu calcanhar de Aquiles dentro de uma cozinha. Não que ele não saiba prepará-los, mas se for para escolher, certamente ele escolheria as cocções feitas na panela ou frigideira.

  — Algum problema, amor? — perguntou Gilson percebendo sua inquietação.

  — Estou louca para ir embora. — Hortência respondeu entre os dentes.

  — Mas você ama a aula de assados.

  — Sim, mas… quando chegarmos em casa eu te falo.

  Demorou, mas por fim lá estavam eles entrando em casa fazendo com que a preocupação do motorista aumentasse a cada passo dado. Hortência estava agindo estranhamente oscilando entre sorrir, beijá-lo e a ficar séria.

 — Vai mesmo trabalhar hoje a tarde?

  — Sim! Preciso fazer pelo menos uma parte da mensalidade do curso.

  Agora ela estava séria. Bastante séria pra falar a verdade.

  — Me acompanhe, por favor.

  Gilson é do tipo de pessoa que sempre se preparou para o pior. Foi graças a esse comportamento que ele não surtou até hoje. Hortência entrou em seu quarto onde havia uma caixa cuidadosamente posta no meio da cama.

 — Comprei para você. — Anunciou ruborizada.

  — Presente, para mim, o que é, um vídeo game?

  — É mais ou menos isso. Você vai se divertir da mesma forma.

  — Caramba!

 A caixa é leve levando Gilson a descartar a hipótese de ser um vídeo game. Ao abri-la e descobrir seu conteúdo, ele olhou para Hortência que não sabia onde enfiar o rosto.

  — Não falei que você iria se divertir do mesmo jeito.

  — Nossa! — pegou a peça íntima. — isso vai ficar…

  — E aí, ainda pretende trabalhar hoje a tarde? — O abraçou.

  — Dane-se o trabalho. — a beijou.


 

 


 


 

 


terça-feira, 13 de agosto de 2024

O Sol Além Da Chuva | Capítulo 7

 


O Sol além da Chuva 

Capítulo 7



 O ano era 1994. Gilson deixava a escola após um dos piores dias de sua vida, entre aqueles muros cinzentos e pichados daquela escola imunda. Como se não bastasse ter levado um fora na frente de toda turma, ele presenciou a garota dos seus sonhos trocando saliva com o seu arquirrival escondidos na quadra poliesportiva. Desse momento em diante nada mais importava. O que era uma paixão se tornou um mar de tristeza. O que era desejo deu espaço a desesperança.

 — Está olhando o que seu feioso? — Disse ela ao vê-lo olhando.

 — Vish! Acho que a baleia ficou magoada. — emendou o garoto.

 Sem reação, Gilson foi se afastando lentamente e quando percebeu já havia atravessado o portão depredado da escola. Que dia de cão.

 — Caramba e você ainda se lembra desse dia? — Hortência estava abraçada a ele dentro do carro.

 — Pior que lembro.

 — E o que fez depois disso?

 — Fui viver minha vida. Tive que aguentar as gozações dos garotos, mas nada mais me feria, me tornei impermeável.

 — O ser humano é mesmo maldoso. Veja só o que causaram em você pelo simples fato de não ser como eles queriam.

 — Foi brabeza, mas eu venci.

 — Agora você tem a mim. — o beijou.

 — Após a tempestade vem sempre a bonança. — Recebeu outro beijo.


*


 Assim que o movimento deu uma trégua no escritório e sua presença não já não era tão imprescindível, Magno Leite correu para o shopping para atender a solicitação de sua filha que havia ligado mais cedo. Sabendo que o teor da conversa não seria nada leve, o advogado comprou duas casquinhas de baunilha de três reais. Ao ver aquilo Milena não pode deixar de fazer críticas ao pai.

 — Nossa, pai! O senhor é dono de um dos melhores escritórios de advocacia da cidade e tem a coragem de comprar duas casquinhas de três reais?

 Magno olhou para os dois sorvetes ruborizado de vergonha.

 — Ah, filha. Eu gosto dessas casquinhas e é até bom que isso aconteça, sabe porque?

 — Para que o povo veja o quanto você é humilde. — desdenhou.

 — Exatamente! Toma. — sentou-se. — mas, fala comigo. O que está rolando?

 — Eu quero sair da cidade. Quero morar com meus avós.

 — Não é tão simples assim, querida. Sua mãe e eu precisamos conversar primeiro. — provou do sorvete.

 — Pai, minha mãe vai adorar. Eu sinto que sou um peso na vida dela.

 — Imagina! É super legal ter uma filha viciada em maconha.

 Milena ficou girando o sorvete.

 — Se coloca no lugar dela. Você iria gostar?

 — Ela agora só tem olhos para o curso de gastronomia e para aquela baleia assassina que ela arrumou.

 Magno sentiu vontade de rir.

 — Sua mãe ainda é jovem, é bonita…

 — Se você acha isso tudo dela, por que não volta então?

 — A nossa história começou errada e quando isso acontece dificilmente terminará feliz, então, deixe como estar.

 Silêncio. O sorvete de Milena já começara a derreter.

 — Vai conversar com ela?

 — Vou!

 — Valeu! Pode me pagar um sorvete de verdade?

 — Farei melhor. Que tal uma pizza hoje a noite ali, naquela pizzaria?

 — Eu topo.

 — Legal então. Eu só não consigo te pegar em casa, tudo bem? — pegou a casquinha da filha.

 — Já é, eu venho de Uber.

 — Às dezenove horas então.


*


 Hortência tirava o pó dos móveis ao som de “Vento no litoral” da Legião Urbana, uma das suas bandas favoritas dos anos 1980. Fazendo coro com a potente voz de Renato Russo, a vendedora por um instante achou que estivesse num palco cantando para milhares de pessoas numa noite glamourosa. Sua viagem era tão profunda que ela nem percebeu a chegada de Milena com seu típico deboche.

 — Depois sou eu que uso droga.

 Hortência abriu os olhos.

 — Oi? — voltou à atividade.

 — Não sabia que cantava tão bem.

 — Fala logo o que você quer, Milena. — limpou atrás da TV.

 — O papai vai te ligar e ele me chamou para comer pizza. Fechado?

 — Quanto a comer pizza tudo certo, mas, ele vai me ligar para falar sobre o que?

 — Quero ir morar com meus avós.

 Hortência parou o que estava fazendo.

 — Morar com seus avós?

 — Sim! Vai ser bom para todo mundo. Você não vai mais precisar se preocupar…

 — Calma aí. Você quer ir embora achando que com isso vou deixar de me preocupar com você?

 — Fala a verdade mãe, sou um peso na sua vida. — Cruzou os braços.

 A garganta de Hortência se estreitou devido ao nó formado.

 — Você é minha filha. Minha única filha. O meu amor por você é incondicional, você pode acreditar nisso. Quando eu era da sua idade eu tinha muitos planos, mas o maior deles era engravidar e trazer ao mundo uma menina. Eu me lembro que todas as noites ao me deitar para dormir eu pedia a Deus que me agraciasse me dando uma filha e Ele me atendeu, e o que é melhor, você veio do jeitinho que eu pedi a Ele.

 Agora foi a vez de Milena tentar engolir o nó formado na garganta.

 — Não existe peso algum. O que existe de verdade é cuidado, zelo, proteção e muito amor para dar.

 Não foi mais possível segurar as lágrimas. Milena correu para o quarto e se jogou na cama cobrindo sua cabeça com os travesseiros. O choro foi abafado. Sua mãe achou melhor não incomodá-la voltando a trabalhar na limpeza dos móveis. Assim como a filha, Hortência chorou e não foi pouco.


*


 Mais uma vez Naiara não precisou fazer esforço algum para se produzir. Se há algo a qual a natureza lhe foi generosa, isso com certeza, sem sombra de dúvidas a beleza facial quanto a corporal lhe foi dada de presente. Magno não teve a mesma sorte que sua namorada, mas não estava tão ruim. Para falar a verdade, o advogado sempre foi um sujeito um pouco acima da média no quesito beleza. Para o encontro com sua morenaça, Magno aparou a barba e vestiu o seu melhor traje esporte que havia em seu armário.

 — Nossa! Que gato. — o beijou.

 — Para uma noite especial com uma princesa, vale uma indumentária especial.

 — Noite especial, no meio da semana?

 — Pra que esperar até o final de semana? E outra coisa, estou a fim de esticar a noite. — apertou suas nádegas.

 Devido ao horário a pizzaria estava lotada, música ao vivo e com seus garçons circulando pelo salão o tempo todo com suas bandejas erguidas. O casal aguardou alguns minutos do lado de fora o surgimento de uma mesa aproveitando para pôr os beijos e os abraços em dia. Naiara esbanjava sorrisos e satisfação de estar ao lado de um partido feito Magno Leite, essa noite realmente prometia belas e grandes surpresas.

 — Já podem entrar. — Informou a funcionária da recepção.

 Havia pairando naquele ambiente diversos aromas os quais Naiara conseguia distingui-los facilmente. O cheiro da massa fresca. Ingredientes cuidadosamente selecionados e de altíssima qualidade, sem falar do atendimento que é coisa de primeiro mundo.

 — Já havia vindo aqui? — Magno puxou a cadeira.

 — Você só pode estar de brincadeira, né? Só em sonho. — sentou-se.

 — Espere até você provar a vegana. — Ocupou o seu lugar.

 — Você é vegano?

 — Claro que não. Mas a pizza vegana que eles fazem aqui é divina.

 Milena devidamente vestida de jeans, camisa rosa de algodão de uma das heroínas da Marvel adentrou ao estabelecimento à procura de seu pai. Ao identificá-lo juntamente com Naiara a sua vontade era de voltar por onde entrou. Tal sentimento não foi diferente com Naiara.

 — Oi, gente. — Milena não tirava os olhos de Naiara.

 — Oi, filha. Essa você já conhece, não é? — Magno a beijou na testa.

 — Sim!

 — Como vai, Milena? — A voz de Naiara saiu trêmula.

 — Bem!

 Por fim o rodízio teve seu início e eles comeram mesmo imersos num clima hostil. Tirando Magno que devorava cada pedaço de pizza deixado em seu prato, Milena e Naiara trocavam olhares desafiadores.

 — Vou ao banheiro. — Magno se levantou.

 Ao se verem a sós, as duas mudaram o comportamento. Milena passou a encará-la sem parar.

 — Sei exatamente o que está pensando. — começou Naiara. — acha que sou uma traidora.

 — E qual outro nome que se dar a isso?

 Nesse momento a música ao vivo havia voltado do intervalo.

 — Vai adiantar eu pedir para não contar a sua mãe?

 — Não!

 Naiara engoliu seco olhando para o músico dando os primeiros acordes de “Canção da América” de Milton Nascimento.

 — Minha mãe se amarra na tua, como pode fazer isso com ela?

 — Eu não sei…

 — Por um acaso vocês já estavam juntos antes do divórcio?

 — Lógico que não.

 — Você é muito mau caráter, Naiara… — espetou um pedaço da pizza de frango com o garfo.

 — Olha só, garota. Eu entendo que esteja chateada, mas isso não lhe dá o direito de me julgar. Quem você pensa que é?

 — Mau caráter sim e  traidora também.

 — Está achando que sou sua mãe é? Eu quebro sua cara inteira sua drogada.

 Naiara e Milena dividiam a atenção dos clientes com o músico arpejando seu violão. Ao ser chamada de drogada, Milena acertou um chute na canela da morena por baixo da mesa antes de sair.

 — Vagabunda, traidora.

 — Aí! Que ódio.

 Magno voltou quando “Whisky à go-go” de Roupa Nova começou a ser executada. Naiara fingia estar bem.

 — Cadê a Milena? — olhou ao redor.

 — Ela pediu desculpas e foi embora.

 — Foi embora, como assim?

 — Muito trabalho de escola para fazer, ela alegou.

 — Que pena. Depois eu ligo para ela. — sentou-se. — Vamos pedir aquela vegana?

 — Então, tá.


*


 A corrida é longa, mas em contrapartida o seu valor cobrirá os gastos. Pelo menos o da gasolina está garantido. Em meio a um trânsito caótico na autoestrada, Gilson conduz seu veículo beirando a perfeição passando segurança e tranquilidade aos seus passageiros. Tudo o que as duas senhoras mais querem no momento é chegar a tempo de assistir a missa de sétimo dia de uma querida amiga que fazia parte do grupo de beatas.

 — Moço, o senhor acha que conseguiremos chegar antes do início da programação? — perguntou a mais idosa delas.

 — Qualquer coisa eu pego um caminho alternativo.

 — Caminho alternativo? Eu tenho pavor de passar em comunidade. — falou a outra com a mão na boca.

 — Pode ficar tranquila senhora, não é favela não. Eu conheço bem essa rota.

 Enquanto tentava explicar o caminho que faria para fugir do congestionamento, o WhatsApp o alertou sobre uma nova mensagem. Era Hortência.

 Oi! Ainda no trânsito?

 As coroas deixaram de lado a confusão do trânsito dando início a uma nova conversa. Disfarçadamente Gilson respondeu.

 Sim! A viagem é um pouco longe.

 Sério? Queria te ver hoje também.

 Sorrindo, o motorista olhou pelo espelho interno e viu as duas idosas agarradas aos terços.

 É sério, está com muita saudade assim? Nos vimos ontem. Kkk.

 Hortência está digitando.

 Você não está?

 Estou.

 As senhoras terminaram a oração já voltando a focar no trânsito.

 — Moço, só temos vinte minutos para chegarmos lá.

 —  Chegaremos em dez então. Vou sair da estrada.

 Posso te esperar?

 Claro! Te ligo assim que eu estiver voltando.

 Então tá. Bjs!


 Hortência colocou o celular para carregar e correu até a cozinha. Na geladeira faltavam bastante coisas para o preparo de um jantar então ela recorreu a boa e velha comida rápida e nem um pouco saudável dos fast foods da vida. Quando ainda pensava no que pedir, Milena apareceu na cozinha com suas bochechas vermelhas.

 — Voltou cedo, filha.

 — Mãe, você não vai acreditar.

 — Você está me assustando, conta logo Milena.

 — O papai e a Naiara estão juntos.


*


 O som da voz de Milena ia e voltava como uma dor latejante dentro dos ouvidos de Hortência. A princípio ela achou que sua filha estivesse brincando, lhe pregando uma peça, mas ao analisar com mais cuidado ela viu em sua face a seriedade do assunto.

 — Magno e Naiara, juntos?

 — E muito felizes a meu ver.

 — O que ela falou, qual foi a reação dela ao te ver? — Hortência puxou uma cadeira da copa.

 — Na verdade eu não sei. Eu fiquei sem chão. Dei até um chute na canela dela.

 Boquiaberta, a vendedora pois as mãos na boca.

 — Você não fez isso?

 — Eu não poderia sair daquela pizzaria sem descontar a minha raiva.

 Milena contou tudo. Detalhe por detalhe. A cada palavra dita, a adolescente assistia a tristeza e a decepção tomarem posse de sua mãe que, por mais que tentasse ser forte, suas reações demonstravam o contrário. Com tanta mulher circulando por aí sozinha, ele tinha que se envolver justamente com sua amiga? Vendo que sua mãe não aguentaria ouvir mais uma palavra sequer ela decidiu dar por encerrada a conversa.

 — E foi isso.

 Elas ficaram um certo tempo em silêncio até que Hortência levantou uma questão.

 — Magno orquestrou tudo isso. Ele queria ser visto com ela.

 — Meu pai seria capaz disso?

 — E de coisas piores. — Expirou. — Consegue entender agora tudo o que houve?

 Milena assentiu.

 — Eu tive minha parcela de culpa, mas o seu pai fez coisas absurdas comigo.

 — O que a senhora vai fazer agora?

 — Entrar no jogo.


*


 Naiara ainda tentava entender tudo o havia acontecido dentro daquela pizzaria e também o que ocorreu logo após. Trocando em miúdos, foi uma noite onde ela pode experimentar da alegria ao vexame, da agressão e depois do prazer extremo com Magno. Foi tudo muito intenso.

 — Filha. — Chamou o pai. — Tem mais torrada?

 — Não, pai. O dinheiro acabou. — Naiara recolhia a louça do café.

 — Mas como assim acabou? Sua irmã parou de mandar o dinheiro? — Agora foi a vez da mãe falar.

 — A Lara tem a vida dela mãe. Vocês terão que se contentar só com isso mesmo.

 O velho Oliveira abriu os braços.

 — Meu Deus! Que final de vida é esse? Não tenho dinheiro nem para comprar remédio.

 — E nem para comer pelo visto. — Completou a esposa.

 Naiara deu de ombros continuando a lavar a louça. A campainha soou forte.

 — Quem deve ser a essa hora da manhã? — O velho olhou em direção a porta.

 — Com certeza é alguém querendo nos converter a religião dela. — Secou as mãos.

 Naiara abriu o portão dando de cara com Lara, sua irmã.